Partir, mas voltar
Redação DM
Publicado em 21 de fevereiro de 2018 às 23:50 | Atualizado há 1 ano
A figura do ser goiano é construída de partidas e chegadas. Ainda existem resquícios culturais dos Bandeirantes, ou Paulistas, como eram chamados, que permanecem até hoje como característica regional. Uma espécie de herança, como o perfil aventureiro, sempre buscando algum local onde a sorte será fácil, mas sempre tendo o local de origem como um porto seguro. Vários detalhes e nuances da sociedade goiana contemporânea podem ser ligados ao perfil do bandeirante sem medo. Isso também por conta do massacre produzido pelas bandeiras, dizimando culturas e povos que habitavam a região. Atualmente são os jovens moradores do interior do Estado que vivem essa relação com a travessia. A maioria, ao terminar o Ensino Médio, se vê encurralado socialmente, tendo duas opções pro futuro: mudar para uma cidade grande ou continuar, provavelmente para sempre, na cidadezinha onde foi criado.
É nesse cenário que se desenvolve a trama do longa-metragem Paulistas, do diretor Daniel Nolasco, com estreia marcada para hoje (22/2). A exibição do filme será às 19h e contará com a participação do diretor em um debate com o público. O filme parte da história de três irmãos: Samuel, Vinícius e Rafael. Paulistas e Soledade são duas regiões rurais localizadas no sudoeste de Goiás. No começo da década de noventa o êxodo rural foi intensificado com a expansão da monocultura agrícola e a exploração dos recursos hídricos. Desde 2014 não existem mais jovens morando na região. Desta forma o filme é ambientado no mês de julho, durante as férias escolares, período que os filhos visitam as casas dos pais.
A obra é inspirada na vida do diretor que é natural de Catalão e passou por esse mesmo processo migratório dos personagens e de tantos outros goianos. “Paulistas é a busca por deixar registrado uma forma de cultura que também me pertence e que está prestes a desaparecer diante de tantas transformações”, diz o diretor.
Através do olhar realista, o diretor procura o cidadão do interior do País, que vive nessas cidades onde muitos jovens foram criados, mas acabaram partindo em busca de estudo, trabalho e um futuro digno. A maioria dos diretores de cinema brasileiros, deste cenário mais recente, se debruça nesses temas ligados a raízes, locais de origem e família. Isso porque o jovem continua carregando referências da região onde viveu seus primeiros dias de vida como uma identidade. Ao retornar, após concluir os estudos ou por outro motivo qualquer, o jovem percebe as mudanças ocorridas na sua região e não sente parte daquele lugar.


TRAVESSIA
“O filme acompanha a dupla contradição entre o retorno e a partida, entre a tradição e a modernidade, por meio dos três personagens. Jovens que se mudaram para a região urbana de Catalão (GO) e retornam à casa da família durante as férias. As férias de julho são o momento em que futuro e passado encontram-se completamente presentes na região dos Paulistas”, explica Daniel Nolasco, diretor do filme. A região do sudoeste de Goiás, até a década de 1970, seguia os moldes do restante do interior do Estado: pequenas fazendas, todas com poucos hectares e uma agricultura de subsistência. Com a chegada do “progresso”, a partir dos anos 80, houve uma mudança de cenário. Agora vivemos ao lado do crescente aumento do agronegócio, da monocultura de soja no Estado e a compra de fazendas por latifundiários.
O pequeno produtor, o cidadão que se criou na região, mais uma vez é forçado ao êxodo, desta vez do campo para a cidade. Tendo que se adaptar aos conceitos de progresso, muitas vezes falhando e se sentindo sem um local que lhe pertence. Para Nolasco a proximidade com o tema possibilita a criação de um universo muito íntimo e pessoal. “Morei até os dois anos na região, minha mãe foi uma das primeiras a deixar os Paulistas e se mudar para a cidade de Catalão, no interior de Goiás. Vi ao longo dos anos e do passar do tempo a transformação pela qual passou a região e as pessoas que se mudaram para áreas urbanas. Comecei a observar o fim daquela cultura e daquele modo de vida”, conta.
TRANSFORMAÇÃO
O documentário analisa então essa relação entre tradição e modernidade, retorno e partida. Traz cortes de cena que intercalam imagens do cotidiano das pessoas dos Paulistas e imagens da hidrelétrica e a paisagem sonora de cada um desses lugares, busca construir esse conflito que está estabelecido nesta região: a floresta morta à beira do rio ou da plantação de soja que quase invade as poucas casas que ainda restam no local. “O documentário pretende mostrar através de imagens e sons toda esta contradição. É buscando isso que a câmera sempre manterá uma distância dos personagens, assumindo a posição de observador. Um observador que mantém determinada distância para não ser invasivo, mas que ao mesmo tempo é afetuoso e respeitoso”, diz Nolasco.
Para adentrar nesse meio social o diretor diz que buscou não só registrar “a visualidade da região, mas a sonoridade e seu tempo”. Analisando o tempo do campo, que é diferente das cidades (mesmo as pequenas), paciente e calmo, governado pela luz do dia, onde as pessoas acordam com o sol e dormem quando ele se recolhe.
SOBRE O AUTOR
Daniel Nolasco é natural de Catalão, Goiás, formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Fluminense e bacharel em História pela UFG. Dirigiu e roteirizou o curta-metragem Sr Raposo, neste ano, e participou da Mostra Foco, principal categoria da 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes, realizada no mês de janeiro. Recebeu o Prêmio Casa França Brasil de melhor filme no Festival de Curtas de Brasília, no ano de 2013, e o prêmio de Melhor Curta de Mostra na Mostra Miragem, também no ano de 2013.
Os ingressos são vendidos a preço reduzido, através da bilheteria ou “Cartão Fidelidade Sessão Vitrine Petrobras”, que poderá ser adquirido no site do projeto. Valor máximo do ingresso: R$ 12 (inteira) / R$ 6 (meia) – variando de acordo com a cidade
Equipe
- Direção: Daniel Nolasco
- Estado de produção: GO/RJ
- Produção: Estúdio Giz e Panaceia Filmes
- Gênero: Documentário
- Duração: 76 minutos


