Navegando sob um mundo de riquezas
Redação DM
Publicado em 31 de janeiro de 2018 às 21:37 | Atualizado há 8 anos
O micro-ônibus vai percorrendo tranquilamente o trajeto da BR-060 entre Goiânia e o Sudoeste Goiano. A rodovia que nasceu em decorrência da construção de Brasília por JK. Por isso, seu ponto inicial fica no DF, e o final, em Bela Vista (MS), na fronteira com o Paraguai. Passa pelo Distrito Federal e pelos estados de Goiás e Mato Grosso do Sul. O destino da viagem é Montividiu, município a pouco mais de 50 quilômetros de Rio Verde pela GO-174.
Engraçado. Numa viagem como de Goiânia a Montividiu a maioria prefere acostar-se no banco e dormir. Perde, assim, a panorâmica do trajeto de umas quatro horas. Quem fica acordado, e gosta de apreciar o que se passa, pode ter uma boa história para narrar ou escrever.
Mal sai de Goiânia e o cenário vai mesclando de bois pastando e árvores. No início, gado destinado à produção de leite. A gente conhece pelo tipo de animal, com as cores do Botafogo (Rio), ou seja, preto e branco. À medida que vai distanciando da cidade grande, pela janela do ônibus se se depara com culturas da soja, do milho e da cana. As pastagens somem de vista no horizonte, já com a presença de rebanho destinado ao corte.
A gente vê de forma constante que os fazendeiros detêm mentalidade preservacionista. Apesar de tão criticado. Por que você fala disso? Porque percebo com meus próprios olhos os buritizais ocupando as nascentes dos córregos e rios. As matas vão ocupando extensos espaços e nelas abrigam as aves e os animais. Incrível, há floresta nativa fechada, demonstrando que pode haver uma convivência harmônica entre os cultivos de soja, milho, sorgo e a natureza. Os buritizais, que preservam a fonte de água, estão viçosos.
As chuvas que caem em janeiro contribuem para preservar o verde e os ipês com suas flores exibem todo o seu colorido avermelhado. Todo esse cenário é de uma rara beleza.
Interessante observar que nesse mundão interiorano o progresso mostra-se cada vez mais presente. As casas estão cobertas por antenas parabólicas. Esse detalhe significa muito. O homem do campo bebe notícias diretamente da fonte, ou seja, dos estúdios das emissoras de televisão.
Se as torres de sinal de celular se disseminam, é indício de que mais uma ferramenta da tecnologia se faz presente. Com isso, o jovem sente-se, com certeza, mais motivado para ajudar seus pais na atividade rural. Claro, os governos municipal, estadual e federal precisam construir escolas e preparar o aluno do lugar para o domínio do conhecimento.
No trajeto da BR-060 e nas rodovias estaduais, os veículos longos transitam transportando riquezas. As máquinas agrícolas, cada vez mais engenhosas, cada vez mais fazem um pouco (ou muito?) de tudo. Muitas já podem ser operadas pelo celular. Incrível essa modernidade tecnológica.
Nas cidades interioranas o povo continua recebendo bem os forasteiros e num estilo próprio do goiano. Percebe-se hotéis e pensões de bom padrão, restaurantes, bares, e outros ambientes com banheiros limpos. As revendas de máquinas ou de reposição de peças de tratores e implementos agrícolas, revenda de sementes, enfim constata-se, mesmo à distância, que o campo está em ação.
Finalmente, no ponto de destino uma nova grata surpresa. Na Fazenda Rancho Velho, em Montividiu, uma semente bem cultivada dá precioso fruto. Nasce o IGA ou Instituto Goiano de Agricultura, destinado a desenvolver projetos para o aumento da produtividade e de sustentabilidade no meio rural. São mais de 3.200 metros quadrados de área construída. A propriedade ainda dispõe de 242 hectares, dos quais 188 destinados à agricultura e 48,4 de reserva legal.
Um detalhe: é algo que surgiu diretamente do produtor, sem interferência do governo. É algo que lembra o Fundepec (Fundo de Desenvolvimento da Pecuária), nascido também em Goiás, sob o patrocínio dos produtores. Sem burocracia, sem perda de tempo e com a vontade de vencer. E, assim, contribuir para os sucessivos êxitos na atividade agropecuária, com crescentes índices de produtividade que surpreendem o mundo.
(Wandell Seixas, jornalista voltado para o agro, bacharel em Direito e Economia pela PUC-Goiás, ex-bolsista em cooperativismo agropecuário pela Histadrut, em Tel Aviv, Israel e autor do livro O Agronegócio passa pelo Centro-Oeste)