As “reminiscências” do Raimundo XV
Redação DM
Publicado em 27 de janeiro de 2018 às 02:07 | Atualizado há 8 anos‘A Festa do Boi’ – Uma das festas de grande aceitação, em Conceição do Araguaia, era a ‘Festa do Boi’. Essa festa arrebanhava grande multidão, que acompanhava, nas ruas, com grande alegria. Os festejos tinham, quase sempre, dois bois, ou dois grupos de pessoas que faziam aquela festa ao mesmo tempo. Uma pessoa, que devia ser muito forte, ficava dentro daquela armação, com apenas um pequeno visor na frente, parte inferior do pescoço do boi. E aquele boi era colocado nas costas daquela pessoa que ficava inclinada, de forma que a armação ficava em posição de um boi em pé. A gente não via a pessoa que a conduzia. Nas laterais, havia uns panos que desciam até o chão, de forma que o condutor ficava invisível. E a pessoa corria, fazia volteios e investia em direção aos presentes. Era só alegria! E era muito colorida a pelagem daquele animal. Seus chifres eram enormes, bem escolhidos entre os mais imponentes e mais bonitos das cabeças de algum grande animal que houvesse sido abatido. E aquela festa, que era noturna, durava vários dias. Andava pela cidade. Havia, no último dia, ao final da festa, a morte do boi. Este, parece que adivinhando que ia morrer, berrava, mugia tristemente, que a gente – a meninada inocente, acreditava que ele entendia que ia ser sacrificado. A gente até ficava com pena daquela vítima. E a morte daquele animal se dava a facadas. Tinha a sangria do boi. Via-se o sangue (o vinho, na verdade), cair, a golfadas, numa vasilha. Aquele sangue era servido a algumas pessoas ali próximas que, via de regra, eram os proprietários da casa que fosse escolhida para o encerramento da festa, que correspondia à morte do boi.
Havia o ‘palhaço’, a ‘catilina’ ou ‘catirina’ que fazia suas acrobacias e amedrontava a meninada. Era sempre trajado de um longo vestido colorido, e usava pernas de pau. Usava máscaras para não ser reconhecido. Era o palhaço da festa. Só que, ao invés de brincalhão, era sempre muito nervoso, e estava sempre pronto para aprontar das suas com os mais desavisados, principalmente a meninada que, também, atentava aquele mostrengo.
‘Ensaio para fazer Curso para Sargento da FAB em Guaratinguetá – SP – Naquele ano, em que não estudei em Conceição do Araguaia, eu e alguns amigos , entre eles Manoel Lacerda (Cavaco), Cirilo, Juarez Noleto e o José Miguel resolvemos nos preparar para um Curso de Sargento da Aeronáutica lá de Guaratinguetá/SP. Só que, para lá ingressar, era preciso passar por um exame de seleção. Concurso, mesmo.
Procuramos saber, através da Base Aérea, ali mesmo, em Conceição do Araguaia, quais as matérias a estudar. Eu só tinha terminado o Curso Primário. Lembro-me bem de que chegamos a adquirir algumas apostilas, material preparatório. Formamos um grupo razoável de jovens, – uns mais jovens, outros mais idosos, entre eles nosso amigo Cirilo.
Não me veio à memória quem era o nosso lente, orientador. Eu sei é que alguns dos componentes do grupo, mais letrados, davam explicações aos demais das matérias que lhes eram mais familiares.
Estudamos um curto período, apenas. As aulas eram ministradas numa das salas do Colégio (internato/externo,) dirigido pelos Padres Seculares. Aquele colégio era construído numa vasta extensão de terreno. E para aquelas bandas, eram instalações de bom nível. Tinha muito espaço para recreação, o futebol, principalmente. Mas aqueles nossos estudos não prosperaram – faltava estrutura, corpo docente, por exemplo. E dentro de alguns meses, vim para Anápolis/GO, morar com o Licínio.
‘Dona Sebastiana, a ‘cunhã’: Não posso deixar de falar, aqui, também, de uma pessoa muito simples, mas um exemplo de pessoa trabalhadora, apesar de sua idade avançada, e merece minha admiração, exatamente por se tratar de uma pessoa idosa e muito dedicada ao trabalho. Não se entregava às dificuldades da vida, apesar de sua simpleza e, acima de tudo, e por tudo isso, uma pessoa digna.
Diziam, os mais antigos, que ela tinha uma boa dose de sangue indígena. Talvez da tribo ‘Carajá’ ou ‘Caiapó’, índios que habitavam aquela região. Daí chamarem-na ‘cunhã’ – mulher, em tupi-guarani, tribo que não mais existia por lá. Mas esse termo era bastante usado para as índias, mesmo naquela região.
Dona Sebastiana tinha vastos cabelos, onde sobressaíam os cabelos brancos, embora ainda tivesse alguns fios pretos. Não usava prendê-los. Era uma cabeleira solta. Uma boa senhora, no entanto. Usava roupas compridas, tipo as das crianças. Quase sempre estampadas como chitas, e não timbravam pela limpeza. Era o tipo encardido. Pela aparência, já era de idade bem avançada, tinha os seios muito caídos, e parece que não usava nada que os apoiasse.
Apesar de toda essa aparência modesta, era muito trabalhadora. Exímia no fabrico de suas quitandas, inclusive o famoso bolo ‘mangulão’, aliás muito apreciado por muita gente, – era o meu bolo preferido. Vendia, também, algumas frutas tais como banana, – também a fruta de minha preferência.
É bem verdade que, de quando em vez, a gente encontrava uns daqueles cabelos brancos, compridos, naqueles bolos saborosos. Mas o estômago da gente era resistente, nada lhe repugnava. A juventude, naquela faixa etária, fase de crescimento, é sempre faminta. Aquilo não era obstáculo para o consumo daquele bolo tão saboroso. Tirava-se o fio de cabelo do bolo, pois por nada deste mundo eu iria desperdiçar aquele pedaço de bolo, quanto menos por um simples fio de cabelo.
E eu gostava tanto de banana que, quando o Zezinho, irmão de ‘Madrinha’, me mandava comprar umas para ele, eu, sabedor de que ele não gostava delas ainda não muito maduras, eu só as comprava assim, pois eu sabia que ele não gostava, e me daria todas elas. E eu as comia, gostosamente. Era uma gulodice a toda prova. Um apetite voraz.
Quando eu me propus relatar, mesmo que sucintamente, algo sobre os personagens da minha convivência prosaica, o fiz com o único propósito de demonstrar o quanto foi importante para mim, naquela quadra da minha vida, entre os 10 e os 16 anos de idade, ter convivido e vivido, em alguns casos, à mesma época, naquele grupo de pessoas, do qual fazia parte a minha família. Esses relatos não tiveram como foco defeitos de quem quer que fosse. E quem não os tem? Mas apenas procurar, mesmo que resumidamente, demonstrar o ‘modus vivendi’ dessas pessoas, que, para mim, em alguns casos, foram exemplos de vida, e que não deixaram de influenciar a minha personalidade, numa sociedade de que eu fazia parte, e de que muito me orgulho. A adolescência é constituída de eventos que integram os anos dourados de todo ser humano: Sem preocupações, sem compromissos, – só sonhos, e sem pensar muito no futuro, mas apenas viver com alegria o presente. Portanto, os parentes desses personagens não me levem a mal, tê-los citado neste trabalho, pois o fiz com muito carinho, e sem a mínima intenção de afetar, negativamente, a sua estatura moral, nem a dignidade de quem quer que seja.
Compra de Leite – Apesar de Papai possuir propriedades rurais, estas se situavam em distâncias que impossibilitavam sua exploração para uso diário de nossa casa. Então, tínhamos que adquiri-lo de terceiros. E estes eram nada mais nada menos que os Padres Dominicanos. É que eles possuíam sítios bem próximos da cidade, – eram mesmo nos arredores da cidade. As Irmãs Dominicanas também tinham seu belo sítio, ali bem perto. E eram sítios bem plantados. Quando digo bem plantados, quero dizer de plantas frutíferas. E os padres, talvez por terem pessoal que trouxesse o leite da cidade, todo dia eram vendedores de leite. Só que os compradores tinham que ir até o local de venda para adquirir o produto. A gente tinha que levar a vasilha para trazer o leite. E este era ofertado num espaço, próximo mesmo da Igreja Matriz. Ficava numa esquina. Era uma construção que tinha apenas uma pequena abertura – uma janelinha, que mal dava para ver o rosto de quem estava do lado de dentro. Por ali, se fornecia o vasilhame vazio, e se recebia cheio. Nós, lá em casa, não comprávamos muito leite diário. Mesmo porque o fornecimento de leite era, normalmente, todos os dias. Mas como o leite não era abundante, a exemplo das carnes no único açougue do mercado, tínhamos que ir bem cedo, já não digo de madrugada como no açougue, caso contrário voltava-se sem o produto. Carne bovina era escassa, mas tínhamos o peixe que o rio nos fornecia, com abundância – era o produto que não era cultivado. A lavoura também era escassa. O produto agrícola, portanto, também era escasso. Era o estagio do extrativismo.
‘O Banzeiro do Rio Araguaia, em Conceição do Araguaia’ – Quando eu brincava no rio, com aquela canoínha do trabalho de buscar lenha, uma das coisas de que eu mais gostava era remar. Lá pelos meses de julho e agosto, quando o rio estava raso, e o vento era mais abundante contra aquelas ondas espumantes, que chamamos por lá de ‘banzeiro’. Eram lindas aquelas sucessivas ondas de espumas brancas, que mais pareciam cordões de algodão para fiar. E até parecia que umas estavam perseguindo as outras. E o rio ficava majestoso, com aquele ondular de suas águas. E a canoa batia contra as ondas, e subia e descia, eu continuava a remar, e a canoínha a pular, e a gente ia vencendo aquelas ondas rebeldes. E lá no meio do rio, a gente descansava, naqueles ‘baixios’, abundantes de areias limpas e águas rasas. Eu fincava o remo nos bancos de areia grossa, submersos, os ‘baixios’, e amarrava a canoa naquele remo, e ia tomar banho, solitário, naquelas águas correntes e límpidas. Era um verdadeiro paraíso fluvial. Parece até que o tempo, ali, não passava. Era a quietude plena, completa. E ali não havia as temidas arraias, com os seus esporões venenosos. Pois elas habitam sempre as margens lodosas dos rios, mais ricas de alimentos para elas. E essas águas eram, quase sempre, escuras, – pela sujeira que guardavam, pois, ali, a correnteza era mínima. A água ficava, quase sempre, parada. Consequentemente, a sedimentação era maior. Era um abrigo preferido delas, ou de outros peixinhos menores, ou mesmo tartarugas, tracajás, etc.
‘Os Veículos e seu Funcionamento’ – Os veículos da época, até final da década de 1950 – os poucos que existiam naquelas longínquas regiões (Nordeste e Norte), não possuíam as atuais chaves de ignição para fazer funcionar o motor. Possuíam, isto sim, uma grande manivela em forma de ‘L’, para fazer girar e, assim, funcionar o motor. O motorista de então, o ‘chauffeur’, antes de se posicionar na cabina, tinha que ir à frente do veículo, e introduzir aquela manivela, a parte maior, e fazer movimentos giratórios para a direita, com a maior velocidade possível, até o motor pegar, o qual tinha como conseqüência uma grande fumaceira, exalando forte cheiro de combustível, que era sempre a gasolina. E esses veículos eram caminhões FNM (lia-se Fênêmê), em letras grandes, metálicas, ou GMC, algumas das poucas marcas da época. E já era um privilégio uma cidade possuir um ou dois desses veículos. O ‘jeep’ era um veículo menor, mas de muito uso, apesar de ser de pequeno porte. Foi num desses mesmos com que fizemos aquele trajeto de Floriano/PI a Carolina/MA. Não me lembro a marca do fabricante. Eu era ainda muito jovem, e um sertanejo ainda, para anotar conhecimento dessas minúcias. Para mim, ter conhecido aqueles veículos e neles andar em estradas de rodagem já era enorme privilégio. Uma estrada ‘piçarrada’ (encascalhada) já era como a rodovia asfaltada de hoje.
Meus conhecidos de conceição do Araguaia/PA.
Como ali vivia uma comunidade encantadora, da qual participávamos, não posso dela me despedir sem traçar algumas linhas, ou falar algo, – não sobre todos os que ali moravam, mas, pelo menos, sobre as pessoas com quem mantive algum convívio, ou que eu via quase todos os dias, mesmo sem com elas conviver. São pessoas sobre as quais eu sabia alguma coisa e que, de alguma maneira, faziam aquela cidade movimentar-se e ter vida, e vida muito harmônica. Afora alguns problemas naturais do ser humano, era uma cidade de paz.
São elas.
‘Seu’ Maleira e família. Ele tinha muitos filhos. Ele não era dali. Viera de fora, como nós. Era gente forasteira, como chamavam. E de pequenas posses. Mas pessoas honradas. Seus filhos do meio estavam na minha faixa etária. Principalmente, o Zé Miguel e o Manuel de Jesus. Fui, muitas vezes, ao sítio deles. Ficava próximo à cidade. Apanhamos, lá, muitas mangas. Íamos a pé. Já em Goiânia, para onde eles se mudaram, o meu amigo Zé Miguel, à sua maneira e respeitadas as suas limitações, me deu muito apoio. Principalmente, quando ele trabalhava na Secretaria de Educação. Bem antes, quando vieram para cá, Goiás, ele chegou até ter uma Escola de Datilografia na Vila Nova ou Nova Vila. Até hoje, confundo os dois Setores. Teve um triste fim, atacado de uma moléstia horrível, o ‘diabetes’. Sofreu muito. Não acompanhei de perto esse seu martírio, porque já morava no interior do Estado. Mas estava sempre a par das notícias dele, por minhas irmãs – Lourdes e Lêda, que moravam perto de onde ele morava com sua família. Sua esposa lhe deu bastante apoio, em toda a sua vida. Uma esposa com ‘E’ maiúsculo. Como seria normal, essa qualidade inerente a todas as esposas. A companheira verdadeira. E veio a falecer após a perda de seu querido esposo. Até parece, pelo tempo decorrido, que estava apenas esperando o fim de seu marido, a quem lhe fora fiel, em todos os sentidos. Não podia morrer antes, e deixá-lo, à míngua. O outro seu irmão, de quem eu era também amigo, era daqueles carentes que foram para o Seminário, mas não chegaram a se ordenar sacerdote, o Manoel de Jesus. Mas saiu do Seminário com uma vasta cultura e sabedoria. Prestou Vestibular para Medicina, e se formou nessa nobre profissão. Infelizmente, o destino não lhe foi muito promissor, e não lhe rendeu bons frutos. Uma ex-companheira sua, talvez inconformada com a separação, não quis vê-lo progredir sem ela. Quando ele exercia a sua profissão, numa cidade de Goiás, Americano do Brasil, próxima a Anicuns, ela, friamente, e fantasiada de mendiga, deu-lhe fim à vida, assassinando-o, traiçoeiramente.
(Licínio Barbosa, advogado criminalista, professor emérito da UFG, professor titular da PUC-Goiás, membro titular do IAB-Instituto dos Advogados Brasileiros-Rio/RJ, e do IHGG-Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, membro efetivo da Academia Goiana de Letras, Cadeira 35 – E-mail liciniobarbo[email protected])