Produtores de leite vivem pior crise da história
Redação DM
Publicado em 24 de janeiro de 2018 às 00:33 | Atualizado há 8 anos
Os consumidores de leite promovem uma verdadeira farra nas redes de supermercados comprando caixas e caixas do principal produto lácteo. Mas os produtores, ao contrário, vivem uma das maiores crises da história. Os preços do leite caíram em média 16% em Goiás, embora os custos tenham reduzido 4%. Pelo que se constata, o peso da balança pesou favorável ao consumidor final, mas afetou o produtor. O segmento opera para enxugar a oferta para evitar novas quedas, segundo Edson Novaes, coordenador do departamento técnico da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado.
O produtor está percebendo em média R$ 1,04 por litro na data de hoje. Em julho de 2017, ela auferia um preço de R$1,27, em Goiás, conforme dados do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da conceituada ESALQ/USP. No supermercado, o consumidor de Goiânia encontra o litro de leite caixinha a R$1,69. Há alguns meses apenas, o goianiense pagava acima de R$ 3,00.
Goiás produziu 3,5 bilhões de litros em 2015, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Estado ocupava o quarto lugar no ranking dos maiores produtores de leite do País. Morrinhos, de acordo com o levantamento, detinha a quarta maior bacia leiteira do Estado, com a produção anual de 75,8 mil litros.
O rebanho de gado leiteiro goiano pode não ser o maior do País, mas a produtividade dos animais é bastante alta, o número de vacas ordenhadas em Goiás chegou a 2,5 milhões. No Brasil, a quantidade de vacas ordenhadas em 2015 era de 21.751.073.
GADO IMPORTADO
Produtor de leite em Itaberaí, Gilson Costa, que no passado investiu em gado de linha holandesa, buscando maior produção, hoje mostra desencanto com a atividade. “Estamos outra vez sofrendo uma crise na produção leiteira, chegando os preços a despencarem, para o produtor, até 75% em relação ao mesmo período do ano passado. Há muito tempo fala-se da nossa ineficiência como produtores de leite, que nossa produtividade é muito baixa em relação a outros países, que o nosso preço é o mais alto do mundo e assim por diante”.
Os custos para produzir desanimam, porque a safra do milho sofreu queda. O reflexo nos preços da ração foi imediato. Nem a perspectiva de crescente consumo, ante os preços que caem no comércio varejista, favorecimento do PIB e inflação sob controle animam os produtores, como Gilson Costa, nem o pensamento técnico de Edson Novaes. “Com certeza, será um ano de poucos investimentos na pecuária leiteira”, acredita o economista. A crise levou o produtor de leite à descapitalização.
NARRATIVA TRISTE
Costa narra sua história de produtor ao Diário da Manhã. “Estou na atividade há sessenta e seis anos, pois nasci literalmente numa fazenda produtora de leite”. E prossegue: “Lembro-me de meu pai dizer que o litro do leite deveria valer o mesmo que o litro da gasolina. Por aí podemos entender que essa polêmica vem de longa data”.
Ressalta Costa que “quando adolescente já estudante de Agronomia, tentando induzi-lo a melhorar o arraçoamento dos animais buscando maior produtividade e produção, ele simplesmente dizia que vaca tinha de comer capim e que o leite produzido praticamente não tinha custo. Ou seja, se produzisse 200 litros/dia eles seriam todos dele. Hoje, hipoteticamente com todos os ensinamentos assimilados, para produzir 1200/dia teríamos de gastar 1000 litros/dia em rações, mão de obra especializada, ordenha mecânica, silagens, genética e etc. Ora, continuaria a nos sobrar os mesmos 200 litros/ dia, como o meu pai, no entanto a Indústria está recebendo seis vezes mais leite, para trabalhar”.
PRODUÇÃO
Gilson, engenheiro agrônomo, diz que considera que “temos um leite de qualidade compatível com os melhores do mundo. Usamos papel toalha para limpar tetas de vacas e na maioria das vezes não dispomos sequer de instalações sanitárias para quem lida com a produção. Tudo isso aumentou muito os nossos custos de produção”.
Narrando a história de sua família, lembra que “trabalhávamos com uma produção maior no período chuvoso e menos produção no período seco, pois tratávamos dos animais com capineiras e somente para mantê-los vivos durante o período de escassez de forragem. Hoje os animais são tratados com silagens e concentrados o que aumenta a produção e também os custos”.
Em sua opinião, “num país com uma inflação em torno de 3% e os produtores sofrendo uma redução de até 75% nos valores recebidos é algo difícil de entender, pois nessa matemática a insolvência é certa. Embora muitos estejam saindo da atividade e muitas vacas indo para o abate o que teremos novamente será um descompasso na produção com uma diminuição acentuada no leite ofertado”.
Para ele, “num país que tem os carros, os juros, os tributos e tudo o mais caro do mundo, com muita justiça “tinha” também o leite mais caro do mundo, conforme divulgação na mídia.
COMPARAÇÃO
Na última década, a maior parte do leite produzido no Brasil melhorou substancialmente a sua qualidade, podendo inclusive ser comparado com outros países, considerados os melhores, entretanto a indústria nacional teima em continuar a ofertar o tradicional leite UHT, sabidamente de valores nutricionais muito aquém do que poderiam oferecer. Um leite de qualidade, pasteurizado, com durabilidade em geladeira de oito dias, oferecido em embalagens diversas, um e dois litros, por exemplo, poderia ajudar no aumento do consumo, com ganhos para a saúde e conseqüente diminuição de doentes nas filas dos hospitais, acredita ele.
Segundo o produtor, os benefícios advindos da ingestão do leite são notórios, embora existam vertentes que trabalham para o desqualificarem. “Chamam de leite o suco de soja e agora ouvi leite de castanha, ora leite só pode ser proveniente de mamíferos. Dizem também que o único ser adulto que toma leite é o homem o que só pode ter sido inventado por gente que desconhece o habito dos animais. Se fornecemos leite para um cão, gato, cavalo e até vaca, será consumido avidamente”.
E conclui: “A crise passará e infelizmente muitos produtores “passarão”. Também, a produção diminuirá, a importação aumentará e o ciclo continuará sem atingir um final satisfatório para todos os participantes da cadeia. Até quando?”