Política

“O PT descarta aliança com MDB por não apoiar Lula”

Redação DM

Publicado em 4 de janeiro de 2018 às 01:06 | Atualizado há 8 anos

A presidente estadual do PT em Goiás, Kátia Ma­ria Santos, destaca que o projeto do partido no Estado é a eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que a si­gla só fará alianças com demais partidos caso tenha um palan­que forte para Lula. Kátia refor­ça que uma aliança com o MDB e o DEM está descartada, até o presente momento, visto o posi­cionamento destes partidos em relação ao ex-presidente. “Em Goiás, vamos dialogar para as eleições estaduais com quem apoiar nosso projeto nacional, com quem apoiar o presidente Lula”, enfatiza.

Em entrevista exclusiva ao Diário da Manhã, Kátia Maria ainda ressalta a possibilidade de união com uma Frente de Esquer­da em Goiás para as eleições do ano que vem. “Com essa união, teríamos o Bloco de Esquerda, nos saindo melhor que nas últi­mas eleições estaduais. O campo político em Goiás está aberto. Ne­nhuma das frentes está em van­tagem total e absoluta”, acredita.

A presidente do PT em Goiás ressalta que o plano único do par­tido é a eleição de Lula e não exis­te a possibilidade do ex-presidente não participar do pleito em 2018. “Teremos não só o Lula candida­to, como teremos o Lula presiden­te”, afirma Kátia.

 



A Caravana do Lula vem a Goiás no início deste ano. Temos conversado com a direção nacional e com o próprio Lula, ele quer ver o povo goiano”

 

VEJA OS TRECHOS PRINCIPAIS DA ENTREVISTA

 

Diário da Manhã – Como está a posição do partido em função das proximidades das eleições? Nos últimos pleitos havia uma parceria com o MDB?

Kátia Maria – O Partido dos Tra­balhadores foi criado para ser um instrumento de transformação da sociedade. Estamos trabalhando, aqui em Goiás, para cumprir com essa tarefa. O momento que vive­mos no Brasil exige isso, dada a nos­sa conjuntura política. E aqui no Estado o que tiramos de encami­nhamento na nossa direção esta­dual é que o projeto nacional será a prioridade em 2018. Em Goiás, vamos dialogar para as eleições estaduais com quem apoiar nos­so projeto nacional, com quem apoiar o presidente Lula. Passa por esse critério para começarmos uma conversa por alianças. Hoje, estamos conversando com os par­tidos que compõem a frente de es­querda: PT, PCdoB, PSB e o PSol. Os outros partidos ainda não es­tão nesse leque ou nesse nível de conversa, tampouco declarando apoio ao presidente Lula.

Diário da Manhã – O PCdoB sinaliza caminhar com a base aliada do governo. Os partidos da esquerda estão desunidos. Como fica essa aliança?

Kátia Maria – A nossa priori­dade é fazer aliança com quem apoiar o projeto nacional, quere­mos o presidente Lula à frente da República novamente. Esse não é um desejo apenas do PT. A can­didatura do Lula representa um desejo significativo da população brasileira. Hoje, sua candidatu­ra representa mais que o desejo do povo brasileiro, mas também uma esperança da América Lati­na em retomar o curso da demo­cracia, que está sendo destruída em um curto espaço de tempo. O golpe não é algo isolado no Brasil, é algo arquitetado aqui na nossa América Latina inteira. A candi­datura de Lula é prioridade não apenas para o PT, mas para uma parcela expressiva da população. É importante frisar que têm sido realizadas conversas com esses par­tidos, e política é assim: você con­versa com várias pessoas para dia­logar e cada um tem o direito de conversar com quem te procurar. Agora, na conversa que tive com a direção do PCdoB, no nome da presidente Isaura Lemos, me infor­maram que a prioridade era estar junto com a Frente de Esquerda, ressalvando a existência do nome da Manuela D’Ávila como proje­to deles para a presidência. En­tão, teremos a maturidade polí­tica para manter as conversas e discutir até chegar a um ponto de equilíbrio, porque cada par­tido tem o seu interesse. O PT ele­geu Lula como prioridade, além de eleger deputados às Câmaras Federal e Estadual, mas o PCdoB também tem seus objetivos indivi­duais. Dialogar é a arte da políti­ca, para construção dos consensos, chegando à Convenção acordados de que o melhor caminho é andar juntos. Com essa união, teríamos o Bloco de Esquerda, nos saindo melhor que nas últimas eleições estaduais. O campo político em Goiás está aberto. Nenhuma das frentes está em vantagem total e absoluta. Uma Frente de Esquer­da pode ser exatamente a opção que o eleitor está esperando para sintonizar governos federal e es­tadual para melhorar a vida do povo goiano.

Diário da Manhã – O PT vai lançar candidatura própria? E, se lançar, já tem nomes em mente?

Kátia Maria – O PT é o partido que nunca teve dificuldades em ter candidatos em Goiás. Das nove eleições, desde a criação do PT em Goiás, em sete o partido lançou can­didatos. Esse não é o problema do PT. Se tiver que lançar candidato e o melhor palanque para a can­didatura de Lula for com candi­dato próprio, teremos um nome. Agora, optamos por uma estraté­gia diferente. Por exemplo, se diz que o PSDB já definiu pelo nome do José Eliton. Nos bastidores você ouve muita gente da base recla­mando, falando que tem que tro­car o nome. Então, não é tão de­finido assim. Vai para o PMDB, fizeram o encontro estadual, mas já tem o Adib (Elias) falando de um lado, José Nelto falando do outro.

Diário da Manhã – O próprio Maguito foi lembrado…

Kátia Maria – Que tem que re­discutir, talvez outro nome, Magui­to, ou uma aliança com o Caiado é mais importante para ganhar eleição. Então, na verdade, não adianta apenas ter um nome. Por isso mudamos a estratégia, esta­mos primeiro querendo construir um projeto e desse projeto se colo­car um nome. Às vezes, isso cria angústia nas pessoas, é importan­te esse espaço, só colocar o nome não resolve. Ter um projeto con­solidado pode abrir espaço para um novo nome ganhar força e ser o que a população espera.

Diário da Manhã – Maguito afirmou, em entrevista a este Diário, que a oposição deve se unir para vencer as eleições. Ele citou que o MDB poderia caminhar junto do PT. Mas o MDB tem caminhado, também, com o DEM.

Kátia Maria – Na verdade, hoje, o PT não caminha nem que fosse só com o MDB. Precisa ficar claro o contexto em que estamos coloca­dos. Afirmamos que nossa priori­dade é o Lula e que só vamos dia­logar com quem apoiar o Lula. O MDB nunca sinalizou isso. Então, não estamos preocupados com a articulação que o MDB está fazen­do. Estamos preocupados com a articulação do PT. Cada um pre­cisa se responsabilizar por si. Se eles tivessem dito que apoiariam o Lula, ainda haveria outros ele­mentos a serem avaliados para ver se dá liga nessa aliança. Essa questão colocada é um condicio­nante: estaríamos no mesmo pa­lanque que o DEM? Não. Não tenho gasto minha energia com alian­ça com o MDB, vou gastar ener­gia com o que é factível. Hoje isso não é, não é nossa realidade uma aliança com o MDB. A conjuntu­ra vai mostrar quem é quem, nos­sa prioridade é o Lula e conver­sar com os partidos que apoiam o Lula. Hoje, eles apoiam Temer e todas as suas reformas.

Diário da Manhã – O PT trabalha com um cenário sem o Lula para as eleições do ano que vem ou vocês contam com a absolvição? Eleição sem Lula seria um golpe?

Kátia Maria – Nós já estamos em um golpe, eleição sem Lula é fraude. Tenho andado muito, de fevereiro para cá visitei 168 municípios, tra­balho de organização do partido, fortalecimento de nossas lideran­ças. Não adianta esbravejar que terá candidato se não tiver a tur­ma organizada. Precisamos dessa organização para colocar em prá­tica nossa tática eleitoral. Teremos não só o Lula candidato, como te­remos o Lula presidente. É impor­tante frisar isso. Nós estamos den­tro de um processo em que o golpe trouxe instabilidade jurídica, esta­mos em um Estado de exceção, em que a lei tem dois pesos e duas me­didas. Por onde passei no interior todos estão entendendo a diferen­ça do tratamento da Justiça com o presidente Lula em relação a ou­tros políticos. Basta ver o exemplo do TRF4. Moro julgou o processo sem provas, ele mesmo reconhece isso. Ele julgou por convicção. Na Constituição brasileira não está prevista condenação por convic­ção, mas por provas. No processo que o juiz Sérgio Moro condenou Lula não tem crime. Usamos nosso direito de defesa recorrendo à se­gunda instância, o TRF4. Mas den­tro do Estado de exceção que esta­mos vivendo o que já se percebe é que lá também faz parte do jogo. Como pode um processo com 250 mil páginas o relator analisar em 30 dias? Não é humanamente pos­sível. Depois veio o revisor do pro­cesso e fez seu serviço em seis dias. É público e notório o tratamento diferenciado que está sendo dado a esse processo. Como ele pode di­zer que concorda com o juiz de pri­meira instância? Não tem defesa? Em qualquer país esse juiz teria sido afastado do caso. Hoje, temos um colegiado de três juízes em que doistêmrelaçõescomprovadascom Sérgio Moro. Isso não é uma Justi­ça séria. Vamos recorrer em todas as instâncias, mas, mais impor­tante que isso, se houver a conde­nação, isso não impede a candi­datura. No momento correto o PT registrará a candidatura de Lula. Não existem planos alternativos. A legislação nos permite apresentar Lula como candidato. O fato do TRF4 acelerar o processo pensan­do que isso impedirá a candidatu­ra de Lula, isso não acontecerá. As lideranças do PT estão tranqui­las do ponto de vista jurídico. Va­mos construir um palanque forte para o presidente Lula, para resga­tar a esperança do povo brasileiro.

Diário da Manhã – Várias condenações aconteceram. Como o partido trata seus pares condenados pela Justiça? Qual a postura da sigla sobre isso?

Kátia Maria – De forma mui­to responsável e muito serena que temos feito esse debate. O PT foi o partido que mais apoiou o com­bate à corrupção no Brasil. Se você pegar os dados sobre investimen­to em equipamentos, estrutura­ção da Polícia Federal, foi todo um aparato dos ex-presidentes Lula e Dilma. Somos a favor do com­bate à corrupção e ninguém fez mais que nós quando estivemos no governo. Mas, existe seletivida­de, sim. O Dirceu foi condenado e as mesmas pessoas que o conde­naram absolveram os acusados de serem corruptores. O Marce­lo Odebrecht já está cumprindo prisão domiciliar dentro do apa­rato da delação premiada, que é um recurso muito estranho. Está nos jornais que houve desvio de dinheiro no Governo de São Pau­lo de 2004 a 2015. Por que a legis­lação não serviu lá? Onde esta­va o Dallagnol que não fez o power point? Não dá para ser seletivo e injusto, como tem ocorrido com Lula. O apartamento do tríplex está no nome da OAS e penho­rado pela Caixa. Os docu­mentos comprovam que não é de Lula, mesmo as­sim ele está sendo acusa­do. Isso é uma medida de exceção. Queremos combater a corrup­ção, masessecomba­te não pode desvir­tuar a democracia.

Diário da Manhã – E no caso do governo Temer, com uma série de reformas, como a da Previdência, teve a reforma trabalhista. Ele quer deixar um legado. O PT está se organizado para combater esse legado? Acredita que a reforma da Previdência será aprovada?

Kátia Maria – Primeiro, preci­samos entender que todas essas medidas que o Temer está fazen­do não é legado, é um pacote de acordo que ele fez com o merca­do financeiro. Tudo que ele tem feito não é sem razão. Esse gover­no tem lado e esse lado não é o do povo mais pobre, humilde e traba­lhador. É o lado do grande capi­tal. Fizemos, lá atrás, a lei da ter­ceirização. Essa lei só beneficia o grande, prejudica o trabalha­dor. Então veio a lei do teto, colo­camos 150 mil pessoas na Espla­nada. A lei do teto congela por 20 anos saúde, educação, políticas so­ciais, agricultura familiar. Tudo que é para quem tem pouco pro­vimento. O rico quando precisa de serviços básicos vai para a inicia­tiva privada. Passemos à reforma trabalhista, um desmonte dos di­reitos dos trabalhadores para be­neficiar o grande capital. Como é que o acordado é maior que o le­gislado? Que dia o trabalhador vai sentar numa mesa para ne­gociar em pé de igualdade com o patrão? A população ainda não entendeu quão danosa será a re­forma trabalhista no curto prazo. Mas já entendeu a extensão da re­forma da Previdência. É para não aposentar mesmo. A reforma tra­balhista contribui para a maldade da reforma da Previdência. É um casamento de vários projetos que afeta diretamente a camada mais necessitada da população. Isso re­flete a popularidade de Michel Te­mer, que não se importa com isso. Ele terá dificuldades de aprovar a reforma da Previdência porque a população já entendeu e está pro­metendo não votar em quem reti­rar direitos. Quem se compromis­sou com Temer está sem saber o que fazer. Hoje, o Congresso não aprovou ainda porque alguns que apoiavam Temer sentiram o des­gaste político. Esses 308 votos para a aprovação serão bem difíceis.

Diário da Manhã – O PT se vê hoje completamente vinculado ao ex-presidente Lula. Qual a avaliação em um cenário sem Lula? Não só em uma possível condenação, mas existe a preocupação com a renovação dos quadros?

Kátia Maria – Lula é uma lideran­ça mundial. Tem recebido apoio de figuras internacio­nais em relação ao julgamento do dia 24. Lula é responsável pela articulação dos países em de­senvolvimento, colocando um pro­jeto alternativo para a economia. Lula é um projeto muito maior que o Brasil. O PT também é um par­tido de projeto. O Lula, hoje, re­presenta esse projeto. Da parte do vigor físico, não duvido da capa­cidade dele. Vamos apresentar o que temos de melhor e o que te­mos de melhor, e a população diz isso, é o Lula. Agora, o PT tem ou­tros nomes. Nós não precisamos, neste momento que temos a me­lhor liderança em caráter nacio­nal e internacional, construir ou­tros nomes enquanto tivermos esse nome. Não existe PT sem Lula, as­sim como não tem Lula sem PT. Ele falou isso na reunião do Diretório Nacional: ‘estive no bem bom, to­dos eram meus amigos. Veio o tem­po da perseguição política e quem ficou comigo foi o PT. Muito do que é o PT é graças à minha liderança, mas sou humilde para reconhe­cer que muito do que sou foi por­que o PT construiu junto comigo’. È um casamento perfeito entre a instituição e a liderança dele, ele é nossa referência.

Diário da Manhã – A Caravana do Lula vem a Goiás?

Kátia Maria – Vem no início deste ano. Temos conversado com a direção nacional e com o pró­prio Lula, ele quer visitar Goiás. A agenda política é extensa, vai atrasar um pouco porque, na ver­dade, este mês ele faria a Cara­vana na região Sul. Ele vai fazer a região Sul, depois Norte e Cen­tro-Oeste. Mas está na agenda do Lula visitar o Es­tado de Goiás, ele tem tido muita atenção co­nosco em todas as reuniões parasaber comoestá o cenário local e queren­do ver os goianos.

 

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