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Maior autor goiano vivo tem noite de gala na Casa Verde

Redação DM

Publicado em 29 de novembro de 2017 às 23:39 | Atualizado há 9 anos

  •  A celebrada Editora paulista Ex Machina, de São Paulo, reúne em box literário a obra essencial do escritor Edival Lourenço
  •  Box contém quatro obras de gêneros múltiplos – romance, contos, poesia e crônicas – com panorama da escritura de invenção
  •  O seu livro Naqueles Morros, Depois da Chuva, Editora Hedra, de 2011, foi premiado na categoria romance do Prêmio Jabuti 2012

 

Inventivo e multifacetado, o escritor, de escrita com um valor universal, Edival Lourenço, atual presidente da União Brasileira dos Escrito­res, seção de Goiás [UBE – GO] lança hoje, 30 de novembro, às 19h30, no Palácio das Esmeral­das, Salão Gercina Borges Tei­xeira, o Box – Coleção Edival Lourenço, Editora Ex Machina, de São Paulo.

A caixa contém quatro obras de gêneros múltiplos, avisa ele. A saber: romance, contos, poe­sia e crônicas. O que darão ao leitor um panorama comple­to da denominada escritura de invenção, pontua. Além, é cla­ro, da profusão de temas que Edival Lourenço, Troféus Jabu­ti e Casa de Las Américas vem trabalhando. Em tempo: há mais de 30 anos.

– A Coleção Edival Lourenço foi publicada pela Editora Ex Machi­na, de São Paulo, com patrocínio do Fundo Estadual de Cultura de Goiás.

Nascido em 1952, o prolífico autor já publicou livros de poe­sia, crônica e romance. A Cen­topeia de Neon recebeu o Prê­mio Nacional de Romance do Estado do Paraná. Ano: 1994. Já em 2008 acabou agraciado com a Comenda Jorge Amado pela União Brasileira de Escri­tores do Rio de Janeiro. Motivo: pelo conjunto de sua obra.

Naqueles Morros, Depois da Chuva (Hedra, 2011) foi pre­miado na categoria romance do Prêmio Jabuti de 2012.

Edival Lourenço é o escritor goiano mais premiado no cená­rio nacional, informa o poeta e membro do Conselho Estadual de Cultura, Carlos Willian Leite. Com uma obra densa e multifa­cetada, em que o diálogo com a tradição e a modernidade é per­meado por sua dicção humorís­tica peculiar, frisa.

LIVROS

A Centopeia de Neon foi escrito no final da década de 1980, relata. Um texto deli­rante e premonitório que, de certa forma, antecipa a socie­dade cínica e complexa que vivemos, sublinha. No enre­do, até Deus é cínico, ironi­za. Cultiva a espécie humana apenas para colher suas al­mas e consumir como marga­rina na torrada, dispara o en­fant terrible.

Os Carapinas do Sri Lanka é uma coletânea de minicon­tos, afirma. Usei critérios e res­trições prévias para escrevê­-los, registra. Teriam que ser minúsculos, mas com uma for­ça simbólica tal que cada con­to pudesse ter o conteúdo de um romance inteiro, atira. Só caberia ao leitor puxar as pon­tas embutidas nas entrelinhas, metralha o autor.

Edival Lourenço diz que Pela Alvorada dos Nirvanas é o único poema longo que escreveu. O li­vro inteiro é constituído de um só poema, resume. Foi fermenta­do durante anos, mas escrito em um só dia, destaca. De um só es­talo, insiste. Depois, os ajustes de praxe, frisa. É um trabalho que busca retratar a minha geração que nasceu na roça, metralha.

– Num ambiente de pedra poli­da tardia, e fez uma travessia im­pensável, para sobreviver no am­biente rarefeito da era tecnológica..

A obra Animal Sinistro trata­-se de uma coletânea de crôni­cas, afirma ele. Edival Louren­ço, animado, aponta também um viés ensaístico, onde se apresentam ao leitor oportuni­dades de reflexão sobre o nos­so modelo civilizatório e ocu­pacional do planeta, explica. As dificuldades de mudanças e o risco iminente da autodizima­ção da espécie, observa .

 


 LEIA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA

 

Qual o motivo de o senhor não ser tão conhecido fora do Centro-Oeste?

Edival Lourenço – Temos vá­rios autores, inclusive em ativi­dade, de grande importância em Goiás. O fato de ser premiado e relativamente desconhecido parece ser o fenômeno da “ti­rania geográfica”. Autores das metrópoles chegam às provín­cias como que por que da na­tural. Os autores da província não chegam aos centros impor­tantes nem atirados de cata­pulta. Isso acontece dentro do país, mas também em relação a outros países. Livros que fre­quentam as listas do New York Times vendem aqui com facili­dade, mesmo que a qualidade seja decepcionante. Guimarães Rosa não vende em Nova York. Como disse Gabriel García Már­quez: “Há o aprisionamento das sombras da província.” Então, o fato de não ter maior conheci­mento fora de Goiás, em parte, a culpa é minha. Não me mu­dei para a Europa ou Estados Unidos, não fiz grandes esforços para superar o determinismo geográfico que pesa sobre o destino dos au­tores de província.

A Coleção Edival Lourenço sai por uma editora nacional. É uma tentativa de romper isolamento geográfico?

Edival Lourenço – Não deixa de ser um esforço nesse sentido. Creio mesmo que deve trazer resultado. Para superar mesmo seria pre­ciso um esforço ainda maior. Mas também essa coisa de se tornar conhecido acontece, ou não acontece, às vezes por fatos alheios ao nosso controle. Va­mos fazendo o esforço possível.

Qual de seus livros é o mais importante?

Edival Lourenço – É sempre o que estou es­crevendo. É nele que jogo toda a minha ex­periência, minha inspiração e meu esforço. Mesmo que depois se revele algo menor aos olhos dos outros. Porque qualquer obra tem dessas: pode ser ótima para o autor, mas se as pessoas não gostarem, fica o sentimento de coisa menor. Mas objetivamente falando, gosto muito de A Cen­topeia de Neon. É um livro que, pelo menos para mim, anteci­pou uma era, de uma sociedade mítica, cínica e complexa. Onde o ladrão rouba sem encostar-se à vítima, fetos são gerados para fabricação de cosméticos e até Deus usa a alma dos sapiens como geleia nas torradas. Um mundo de cinismo total. Foi o mundo que o livro descre­veu há quase 30 anos.

Há uma diferença entre A Centopeia de Neon e o romance Naqueles Morros, Depois da Chuva. A sua literatura mudou?

Edival Lourenço – Minha li­teratura não é a mesma depois de 20 anos. Tem a experiência acumulada e até aquilo que a mente acabou por esquecer. A Centopeia é um texto pop e deli­rante. Enquanto Naqueles Mor­ros é barroco. Mas também com um pouco de delírio. No primei­ro, o delírio vem como sintoma de uma era de mudanças ver­tiginosas. No segundo o delírio vem do azougue provocado pela ambição do ouro e o rescaldo religioso da idade média que ainda vigia nos arrabaldes co­loniais, no tempo em que o ro­mance se passa. O contexto dos enredos exigiu tratati­vas diferentes.

Goiás é um dos Estados em que mais se publicam livros no Brasil. O excesso de publicações não dificulta o surgimento de um mercado editorial consistente?

Edival Lourenço – Acho que nós, auto­res, entidades cultu­rais, editores e poder público temos bati­do cabeça com rela­ção ao desenvolvimen­to de nosso mercado editorial. Publicações em massa como acon­teceram em anos ante­riores podem chamar a atenção para o fenôme­no literário, ou mesmo livreiro. Mas ficou demonstrado que não aumentou consideravelmente o público leitor, nem sei se au­mentou a quantidade de bons escritores. As editoras, que são ainda incipientes, dizem que o excesso de publicações dificulta o estabelecimento de um mer­cado literário em Goiás. As es­colas têm dificuldades em nos adotar. Quem seria escolhido entre 500? Também pelo exces­so de livros e pela falta de crité­rios na hora de se publicar, as livrarias, que são normalmen­te ligadas a grandes conglome­rados econômicos, não gostam de pegar as publicações locais. Esse é um problema que preci­sa ser enfrentado por todos os grupos de interesse.

Ainda existe um lugar na literatura para o regionalismo?

Edival Lourenço – O regiona­lismo é como um bioma que nas­ceu e prosperou numa era geo­lógica singular. Como o cerrado, que nasceu e se desenvolveu no período pleistoceno. O que che­gou até nossos dias se mantém. Mas cerrado novo não se forma mais, porque o período não se repete. O tempo do regionalis­mo, a língua e os costumes de caboclos praticamente desapa­receram. Fazer literatura regio­nalista hoje, como se fazia no início do século passado, seria quase uma extravagância com quase nenhuma repercussão.

 



  Um texto delirante e premonitório que, de certa forma, antecipa a sociedade cínica e complexa que vivemos”

Edival Lourenço

 

SERVIÇO

Lançamento – Coleção Edival Lourenço – 464 páginas

Preço – R$ 50,00

Data: Hoje, 30 de novembro, quinta

Horário: 19h30

Onde: Palácio das Esmeraldas – Salão Dona Gercina Borges

 

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