Obama, Trump e a interferência de Putin nas eleições americanas
Redação DM
Publicado em 4 de julho de 2017 às 04:31 | Atualizado há 9 anosTranscorria a campanha eleitoral para a Presidência dos Estados Unidos da América e a candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton, estava com 9 pontos percentuais à frente do candidato do Partido Republicano, Donald Trump, de acordo com pesquisa divulgada pelo The Wall Street Journal e pela rede de televisão NBC. Hillary aparecia com 46% das intenções de voto e Trump com 37%.
Um envelope, com extraordinárias restrições de manipulação, chegou à Casa Branca no início de agosto de 2016. Enviado por correio reservado da CIA, carregava instruções classificadas de caráter “pessoal” para somente quatro pessoas: o presidente Barack Obama e três assessores seniores.
Uma verdadeira bomba de inteligência estava contida no interior do invólucro: havia um relatório oriundo de fonte de dentro do governo russo que detalhava o envolvimento direto do presidente Vladimir Putin em uma campanha cibernética para desacreditar e interferir na corrida presidencial dos Estados Unidos.
Os órgãos de inteligência americanos, aprofundando, capturaram as instruções específicas de Putin sobre os ambiciosos objetivos da operação – derrotar ou, pelo menos, danificar a candidata democrata Hillary Clinton, ajudando a eleger o seu oponente, Donald Trump, que já havia declarado sentir afinidade com Putin. O chefe do Kremlin, àquela época, acusou a administração do Presidente Obama de “ingerência agressiva” nas eleições presidenciais realizadas na Rússia em 2012, acrescentando que simpatizava com Donald Trump, por este “defender a necessidade de reconstruir as relações entre os dois países”.
Nesse ponto, os contornos do ataque russo às eleições dos EUA ficaram cada vez mais evidentes. Os hackers vinculados aos serviços de inteligência russos vinham investigando as redes informáticas do Partido Democrata, assim como alguns sistemas republicanos, há mais de um ano. Em julho, o FBI abriu uma investigação de contatos entre funcionários russos e assessores de Trump. E no dia 22 de julho, cerca de 20.000 e-mails roubados do Comitê Nacional Democrata foram lançados online na rede mundial pelo WikiLeaks.
No início de agosto, o diretor da CIA, John Brennan, alerta pela primeira vez a Casa Branca que o presidente russo, Vladimir Putin, havia ordenado uma operação para ajudar a derrotar Hillary Clinton e eleger Donald Trump.
O presidente Obama instruiu os assessores a avaliar as fragilidades no sistema eleitoral e, nos mais altos níveis de governo, entre os responsáveis pela gestão da crise, chegou o primeiro momento de se certificar sobre as ações da Rússia com a inteligência da CIA.
O material colhido era tão sensível que o diretor da CIA, John Brennan, manteve-o fora do brieffing diário do presidente, preocupado com o fato de que mesmo a distribuição do relatório restrito seria muito ampla. O pacote da CIA veio com instruções de que o documento deveria ser devolvido imediatamente após a leitura. Para se proteger contra vazamentos, as reuniões subseqüentes na Sala de Situação seguiram protocolos semelhantes às sessões de planejamento para a invasão da casa de Osama bin Laden.
Demorou algum tempo para outras partes da comunidade de inteligência endossarem a visão da CIA. Somente nas últimas semanas da administração de Brennan no escritório, informou-se ao público, em um relatório desclassificado, o que os funcionários tiveram acesso em agosto: que Putin estava efetivamente trabalhando para eleger Trump.
Durante esse intervalo de cinco meses, a administração de Obama discutiu secretamente dezenas de opções para dissuadir ou punir a Rússia, incluindo ataques cibernéticos na infraestrutura crítica russa, a liberação de materiais coletados pela CIA que poderiam envergonhar Putin, assim como as sanções que as autoridades americanas disseram que poderiam causar estragos na economia russa .
Mas, no final de dezembro, Obama aprovou um modesto pacote combinando medidas que foram elaboradas para punir a Rússia por outras questões – expulsões de 35 diplomatas e o fechamento de dois edifícios diplomáticos ocupados por órgãos russos, perto de New York City e de Maryland’s Eastern – com sanções econômicas tão pouco direcionadas que analistas descreveram seu impacto como apenas simbólico.
Obama também aprovou uma medida secreta anteriormente que autorizava a implantação de armas cibernéticas na infraestrutura russa, o equivalente digital de bombas que poderiam ser detonadas se os Estados Unidos chegassem a uma troca crescente de agressões com Moscou. O projeto ainda estava em fase de planejamento quando Obama deixou o cargo. Cabe ao presidente Trump decidir se deve usar esta capacidade.
Em termos políticos, a interferência da Rússia foi o “crime do século”, um ataque desestabilizador sem precedentes e amplamente bem-sucedido contra a democracia americana. Foi um caso em que não houve tempo suficiente para ser impedido, mesmo uma operação de rastreamento do Kremlin sobre o envolvimento de Putin, por meio de inteligência ciber-forense. E, no entanto, por causa das maneiras divergentes com que Obama e Trump trataram o assunto, é improvável que Moscou enfrente consequências importantes.
A verdade é que existem documentos sigilosos efetivamente relacionados à interferência russa na eleição presidencial dos EUA de 2016.
Os mais próximos de Obama defenderam uma pronta resposta americana à intromissão da Rússia. Eles observaram que, em agosto, já seria muito tarde para evitar a transferência, para o WikiLeaks e outros grupos, de e-mails que se espalhariam nos meses seguintes. No entanto, uma série de advertências – incluindo uma que Obama entregou a Putin em setembro – levou Moscou a abandonar qualquer plano de agressão adicional, como sabotagem de sistemas de votação dos EUA.
O então chefe de gabinete da Casa Branca, McDonough, foi um dos primeiros funcionários a discutir detalhes disso com a inteligência, afirmando na ocasião que a interferência da Rússia foi um ataque ao “coração do nosso sistema”. Acrescentou que “devemos partir de um princípio de primeira ordem que exige que defendamos a integridade do voto, bem como estabelecer o que aconteceu e o que eles tentaram fazer, para garantir que tomemos as providências necessárias no sentido de impedir que isso aconteça de novo”.
Desde o término das eleições, o noticiário tem sido dominado pelas investigações sobrepostas sobre se os companheiros de Trump colaboraram com a Rússia antes das eleições e se o presidente procurou obstruir a sondagem do FBI posteriormente. Esse espetáculo tem demonstrado que o processo democrático americano é inegavelmente vulnerável.
No entanto, as expulsões de diplomatas ocorridas e as modestas sanções anunciadas por Obama em 29 de dezembro continuam a ser a resposta mais forte dada pelos Estados Unidos até agora.
Michael McFaul, que serviu como embaixador dos EUA na Rússia para o governo Obama de 2012 a 2014, protestou afirmando que “A Rússia violou nossa soberania, interferindo em um de nossos atos mais sagrados como Estado Democrático – eleger nosso Presidente. O Kremlin deveria ter pago um preço muito maior por esse ataque e os formuladores de políticas dos Estados Unidos agora – tanto na Casa Branca como no Congresso – têm obrigação de considerar novas ações para deter futuras intervenções russas “.
Este relato da interferência da Rússia nas últimas eleições presidenciais americanas baseia-se em entrevistas com mais de três dezenas de funcionários atuais e antigos dos EUA em cargos seniores no governo, inclusive na Casa Branca, nos departamentos de Estado, Defesa e Segurança Interna e nos serviços de inteligência dos EUA. A maioria concordou em falar apenas com a condição de anonimato, citando a sensibilidade do problema.
A Casa Branca, a CIA, o FBI, a NSA-Agência de Segurança Nacional e o Escritório do Diretor de Inteligência Nacional recusaram-se a comentar.
Mas os repórteres especializados em segurança nacional do “The Washington Post” Greg Miller, Ellen Nakashima e Adam Entous debruçaram-se sobre esse assunto e chegaram a várias conclusões, inclusive a confirmação de que o relato da reunião do embaixador russo Sergey Kislyak com Jared Kushner (conselheiro e genro de Trump) foi capturado pela inteligência dos EUA, ocasião em que o embaixador informou a Moscou que Kushner queria um canal secreto de comunicações com o Kremlin. Trump nega tudo.
É importante lembrar que o próprio Obama, quando no governo, zombava abertamente do republicano Mitt Romney por este identificar a Rússia como uma ameaça aos Estados Unidos.
Acompanhando com olhos de profissional as atividades internas e internacionais da CIA e da NSA, temos verificado a perigosa vulnerabilidade demonstrada nos últimos anos pelos serviços de inteligência americanos, fato que, cada vez mais, tem sido motivo de grande preocupação por parte dos líderes dos países que são seus aliados no Ocidente.
(Hugo César Fraga Preto, analista de Inteligência de Estado, oficial da Reserva do Exército, administrador, professor e escritor)