Psicologia dos apartamentos
Redação DM
Publicado em 9 de março de 2017 às 02:31 | Atualizado há 9 anos
Morar em apartamento – um pedaço de terra que fica no ar – requer um preparo espiritual intenso. É necessário estar disposto a compartilhar situações embaraçosas, suportar os vizinhos barulhentos e moradores exóticos – antissociais das alturas –, que não obedecem à arte de cumprimentar em elevadores e nem compartilham o interior do recinto com ninguém.
É preciso revelar os produtos que você compra no supermercado, já que os carrinhos que auxiliam a subida das mercadorias aos andares, possuem grades apropriadas aos olhares voyeurs dos curiosos, capazes de vasculhar os lixos para obter informações mais precisas.
Pode-se brincar de esconde-esconde, pois os fofoqueiros de plantão têm radares biônicos no lugar das orelhas, e a visão periférica de águias astutas. Também vale usar o olho mágico, colocar um copo de vidro, unindo a parede aos ouvidos, sensíveis aos vultos sônicos dos plantonistas. É viável escapar pelas escadas com pés de algodão, mas o cuidado deve ser redobrado para que nenhum vulto assuste em demasia, ou para não ser surpreendido com a cautela nas mãos.
As grades das janelas e as cortinas espessas impedem que o céu seja visto e admirado, ainda mais que a poluição borrifada nas nuvens cinzentas e tóxicas – de monóxido de carbono – são os maiores empecilhos da visão cristalina.
A falta de asas obriga o uso de elevadores ou escadas. Não há outro caminho; um pulo pode ser fatal. Tão interessantes quanto os vizinhos, pequeninos cães, com latidos estridentes – inversamente proporcionais aos tamanhos – costumam cheirar e babar nos pés dos que não suportam tais atitudes, mas esmiúçam um sorriso amarelo, ocultando a revolta e raiva. Nada de estercos adubadores – são fétidas fezes –, os rastros deixados pelas patas caninas.
Ando bastante preocupado, pois estive escrevendo uma série de contos fantásticos, explorando os mistérios do real, do imaginário, do absurdo e do sobrenatural, descrevendo ruídos que quebram os silêncios, enquanto a torneira da pia cuspia altas e estrondosas gotas, despertando-me nas madrugadas. Para agravar a crise hidráulica, enquanto dormia, uma microgota acertou a ponta do meu nariz, fazendo-me respirar as moléculas aquáticas. Na sequência, uma gota acumulada, gorducha e encharcada foi o colírio que ardeu meus olhos, quando descobriram a mancha de umidade no teto, sobre a cama.
O estranho é que, lembrando da pontaria certeira das gotas, tive uma crise de risos que quase relaxou minha bexiga dentro do elevador. A gargalhada contagiou um outro morador. Todavia, um indivíduo rechonchudo, que ocupava o espaço de quatro pessoas, sentiu-se alvo de uma injuriada gozação, e proferiu palavras impublicáveis, que feriam o decoro íntimo das pessoas, transgredindo até mesmo a filosofia adulterada dos condôminos, nessa psicologia dos apartamentos, que transforma seres humanos trancafiados em animais insociáveis.
(Leonardo Teixeira, escritor)