Febre dos cursos a distância preocupa professores
Redação DM
Publicado em 7 de agosto de 2018 às 00:25 | Atualizado há 1 ano
A profissão de professor já foi muito valorizada tempos atrás. Mas devido a falta de investimento do poder público e também com a desvalorização salarial, cada vez menos pessoas se interessam pela profissão. Pesquisas recentes apontam que mais de 50% dos professores não indicam a profissão para os mais jovens. Da mesma forma, entre os alunos, é cada vez mais raro encontrar aqueles dispostos a encarar o desafio da sala de aula. Nos últimos anos, com o avanço da tecnologia, uma nova onda vem preocupando os educadores, a febre dos cursos à distância.
Além de diminuir o número de vagas no mercado, o curso à distância não é bem visto pelas entidades de classe dos professores. A professora Bia de Lima, Presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado de Goiás (Sintego) é crítica do sistema. Bia afirma que se na aula presencial o aluno já enfrenta grande dificuldade no aprendizado, nos cursos à distância o acompanhamento do aprendizado fica bem mais difícil. Para Bia o curso a distância está virando uma fábrica de ganhar dinheiro, de venda de certificados e diplomas e atende somente a ganância do mercado, da iniciativa privada.
“É uma situação complicada esta que estamos vivendo, impulsionada inclusive pelo governo na reforma educacional com a criação da Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio (BNCC) onde 40% por cento das aulas pode ser oferecida por outros modelos sem ser o presencial. Nada substitui o professor em sala de aula. Se com o presencial o aprendizado está fraco, imagine a distância. Pra mim a maioria destes cursos é uma grande farsa. É uma máquina de ganhar dinheiro. O nível de formação profissional por estes cursos é muito ruim”.
Em uma bela crônica recente da jornalista, escritora e professora Cássia Fernandes, esta questão do curso a distância distanciando e diminuindo o contato do professor com os alunos é abordada. Apesar do chamado “exagero literário” a crônica mostra esta situação de diminuição de vagas de professores em detrimento do curso a distância. Ou seja, com o avanço tecnológico e a febre dos cursos a distância, este contato humano entre o professor e o aluno está desaparecendo.
“O que me preocupa e inquieta é o avanço do ensino a distância, principalmente no que se refere ao ensino superior no Brasil, sem que nunca tenhamos tido uma valorização real da profissão no País”. Cássia afirma que não se trata da extinção da profissão de professor mas da diminuição de vagas com o crescimento dos cursos a distância sem a devida valorização do professor.” Com o ensino a distância, me parece que realmente estamos tendo redução do número de vagas para professores, pois aulas gravadas podem ser replicadas e alcançar milhares de alunos de uma só vez. E esses professores talvez como hoje, não recebam valores justos por seu trabalho. É muito preocupante este crescimento do ensino a distância no País”, frisa Cássia.

Ensino Médio no alvo das críticas
O projeto do governo federal de reforma educacional do Ensino Médio, a Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio (BNCC) também é alvo de questionamento dos professores já que prevê que 40% das aulas podem doem ser ministradas à distância. Para muitos professores as alterações propostas do documento aprovado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) em 2017 não trazem benefícios para a educação pública e vão possibilitar negócios escusos que devem surgir com o aparelhamento tecnológico dos cursos à distância e do mercado editorial para abastecer estes cursos caso a reforma seja implantada.
A presidente do Sintego Bia de Lima afirma que se a BNCC for implementada da forma que está sendo a luta dos trabalhadores da Educação não será só por salários ou reposição da inflação. Será por emprego já que a reforma prevê a obrigatoriedade de apenas duas disciplinas e uma grande redução no quadro geral de professores no País. Ou seja, a obrigatoriedade de apenas duas disciplinas implicará na redução de professores de outras disciplinas. “Os professores de português e matemática também serão afetados pela reforma, já que 40% da carga de 1.800 horas pode ser ofertada a distância. É um absurdo esta reforma. É acabar com a educação pública no país e se4 render ao mercado”.
Outro ponto da reforma que preocupam os professores é o Educação para Jovens e Adultos (EJA) que poderá ser todo feito à distância. “Isto é muito ruim. Muitos alunos nem tem acesso a internet de qualidade. A maioria das escolas no país não possuem laboratórios de e informática atualizados. O Ensino a distância está se transformando em um grande mercado de venda de diplomas e certificados. Não há controle. Não há fiscalização. A educação rápida e barata. Pra mim, o Ensino a distância é uma grande farsa”, conclui Bia.
Pesquisa encomendada pelo projeto Todos pela Educação, realizada pelo Ibope em junho deste ano e divulgada recentemente aponta que 49% por cento dos professores não recomendam a profissão aos jovens por causa da desvalorização da profissão. Foram ouvidos 2.160 professores da rede básica de ensino públicas estaduais e municipais em todo o país, a maioria mulheres com média de 43 anos e 17 anos de carreira. A média salarial de um professor gira hoje em torno de R$ 4.500, pouco mais de 4 salários mínimos e meio.