Lá vai Maria…
Redação DM
Publicado em 13 de outubro de 2016 às 01:03 | Atualizado há 2 anosNão é de hoje que as nuances e olhares do ponto de vista feminino fazem parte do universo pictório da artista plástica Rosy Cardoso. Foi assim, por exemplo, nas exposições Mulheres e Somos Muitas, Somos Muito. Mas na nova exposição Lata D’Água na Cabeça, que está em cartaz no Centro Cultural Cora Coralina, seu olhar para as mulheres está ainda mais agudo e personalizado. E foi assim que Rosy conseguiu tornar a compilação de obras em algo ainda mais universal.
Estão à disposição do público até o dia 4 de novembro 26 telas de Rosy Cardoso produzidas em técnica mista, pois segundo a artista (que diga-se de passagem também é poeta), no trabalho, “o carvão e a (tinta) acrílica se enamoraram na profusão dos matizes, ressaltando ou acrescendo como detalhe no inacabado”. E através deste “casamento”, a artista criou uma série intensa em tudo e – com perdão da comparação clichê – fez com que uma imagem valesse mesmo mais que mil palavras.
Na verdade, na mostra, até há algumas palavras e frases soltas escritas em carvão. Contudo, os pontos de vistas e protestos de Rosy são amplificados mesmo é nas cores ou na falta delas. Sua obra grita no equilíbrio entre o claro e o escuro, ou no jogo entre silhuetas e faces figurativas, que por vezes tornam-se disformes.
“A mostra traz a mulher em seu cotidiano. Me inspirei em sua garra para superar situações. São temas comuns, vistos sempre nos noticiários, como violência doméstica, gravidez sem amparo, o sonho da casa própria…”, explicou Rosy.
Para a pintora, a mulher é como uma gladiadora, que para aguentar todos os rojões que aparecem pelas vielas da vida precisa de grandes doses de perspicácia, equilíbrio e sabedoria. E foi tendo em vista esta tríade que a artista buscou inspiração para o nome da mostra, Lata D’Água Na Cabeça.
Dessa forma, o nome da famosa marchinha de carnaval, de Candeias Santos – gravada por Luís Antônio e Jota Jr., e também por Marlene Rosy propõe uma metáfora da mulher moderna, sobretudo da mulher pobre. “Não apeguei ao folclore, nem ao trabalho, o nome da mostra veio da persistência e coragem comum na rotina das mulheres”, esclarece.
Tinta nelas
Estas mulheres, capazes de carregar e equilibrar tantas “latas” na cabeça, como já dito, sempre tiveram espaço na obra de Rosy. No entanto, foi nos últimos 15 anos de sua carreira – que tem mais de 40 anos – que a artista sentiu-se ainda mais inspirada em criar séries inspiradas completamente neste universo.
A primeira mostra somente sobre a temática chamava-se apenas Mulheres e, em seguida, a pintora criou os quadros de Somos Muitas, Somos Muito. Esta penúltima série possuía 28 telas e pode-se dizer que Lata D’Água Na Cabeça é sua continuação, segundo as palavras de Rosy, só que bem mais individualizada.
“A mostra Mulheres e Somos Muitas, Somos Muito acendia a lamparina no tempo, pois com as fisionomias inexistentes gritavam com títulos fortes como: ‘livres , porém enjauladas’, ‘somos três, somos mil’, ‘somos todas iguais’. O grito era anônimo e coletivo. Nesta mostra atual, individualizei a figura feminina em uma força interior”, compara.
Já por ser a arte a forma mais perspicaz de Rosy expressar-se, consequentemente, a melhor técnica que encontrou para mostrar o que habita em seu íntimo foi o expressionismo. Aquele mesmo de Munch e Van Gogh e que é capaz de expelir, por meio de tintas, sentimentos e agonias mais profundos. “Tenho muita solidariedade às causas de militância das mulheres, e isto se reflete em toda minha obra”, explica Rosy.
Faz tudo
Mas quando se fala na arte de Rosy, é preciso dizer ainda que sua inspiração se materializa de diversas formas. Pois, além de pintora, é ainda ceramista e poeta. Assim, é provável acreditar que a proximidade com as criações de Rosy é congênita.
A cerâmica é uma das paixões mais antigas da artista. Na verdade, era uma suas brincadeiras da infância – passada em Goiatuba (GO) – moldar o barro cru, no quintal de casa, que virou profissão. Já o gosto pela literatura, ela conta que nasceu por ser uma leitora assídua. Atualmente está até cursando Letras na Universidade Federal de Goiás (UFG).
E para Rosy não importam as linguagens, pois, segundo ela, quando a essência é criativa, pincéis, telas, lápis são coadjuvantes. “A arte é alimento, realização e companheira… condensada em energia vital”, declama.
Mostra Lata D’água na Cabeça, de Rosy Cardoso
Onde: Vila Cultural Cora Coralina (Rua 3, Setor Central, Goiânia)
Visitação: De 5 de outubro a 4 de novembro, das 9h às 17h
Entrada franca





