A grama para consumo próprio
Redação DM
Publicado em 20 de abril de 2020 às 12:46 | Atualizado há 6 anos
Por Hélmiton Prateado
Contaram-me uns militares amigos um caso pitoresco acontecido em Aruanã, quando eles tiravam serviço naquela centenária cidade às margens do Rio Araguaia. Narraram sem qualquer reserva, talvez por inocência de não saber que eu saberia facilmente identificar os protagonistas da história e que daria boas risadas do caso.
Uma certa madrugada os dois praças faziam sua ronda, cumprindo seu desiderato de manter a segurança da sociedade e já perto de terminar sua escala de serviço. Um morador da cidade ligou para a Polícia e contou que alguns elementos estavam subtraindo placas de grama que estavam no canteiro central de uma avenida e em uma praça bem em frente à sua casa.
A Prefeitura de Aruanã estava realizando serviços de urbanização nos canteiros, praças e logradouros, tornando os espaços públicos mais agradáveis e com um verde que aplacasse o calor infernal que faz naquelas paragens. Uns elementos – classificação que os policiais gostam de aplicar a indivíduos apanhados em algum desvio de conduta – acordaram de madrugada e foram em uma caminhonete se apropriar indevidamente das placas de grama que estavam na praça esperando para serem plantadas no dia seguinte pelos operários da Prefeitura.
Esses dois elementos, a sorrelfa, deixaram a pousada onde frequentavam e rumaram para a praça, onde estavam deixados os feixes de grama. Furtivamente, supondo que não seriam descobertos em função do escuro da madrugada, encheram a carroceria da caminhonete e iam levar a res furtiva para onde haveriam de esconder, supostamente da fiscalização do poder.
Eis que chegam os diligentes policiais militares e enquadram os elementos: “teje detido, meliante”, bradaram os praças fazendo os biltres interromperem sua ação condenável. “Essa grama é do poder público e vocês não podem se apoderar assim. Isso é delito grave e vamos leva-los para a delegacia, afim de lavrar a ocorrência e aplicar a lei cabível para esse tipo de prática”, asseveraram os notáveis agentes da lei.
Um dos dois envolvidos na ação, todavia, se identificou como irmão de farda e tentou enquadrar os praças como é a prática de um sargentão botinudo. Disse que eles iriam levar a grama para um “objetivo nobre” e que isso não seria grande problema. Tentou argumentar que aquilo não se tratava de um ato criminoso e que não era necessário todo aquele acuro.
Como os responsáveis militares se mantivessem irredutíveis em seu desiderato de cumprir e fazer cumprir a lei, o sargentão botinuto apelou para o enquadramento irascível que sempre pauta mentes de capacidade intelectiva similar. Abriu o repertório de argumentos tão extenso quanto um coice de porco e destilou os xingamentos de praxe que só se aprende usando as botinas da ignorância.
Enquadrados, ameaçados e temerosos de uma retalização os policiais sentenciaram, por fim, que o assunto seria encerrado se os dois meliantes devolvessem a grama para o local, esvaziando a carroceria da caminhonete. Feito isso um policial olhou para o outro e externou sua preocupação: “vamos embora antes que ele murche a orelha e solte um coice em nós”.
Mas, a pérola veio ao final, quando o mais graduado da viatura perguntou ao sargentão qual era realmente o destino da grama. Até hoje, confidencia esse bom policial, tem cólicas de risadas ao lembrar a resposta do sargentão sobre para quê se destinava a grama: PARA CONSUMO PRÓPRIO. Hélmiton Prateado é jornalista.