Política

A direita que a esquerda gostava

Redação DM

Publicado em 28 de novembro de 2015 às 23:36 | Atualizado há 2 anos

  • Ary Valadão enfrentou Newton Cruz em seu próprio gabinete, no DF
  • Então governador de Goiás, colocou o ‘dedo no nariz’ de Figueiredo
  • Deputado federal votou contra a cassação de Márcio Moreira Alves
  • Velho udenista foi um dos articuladores da deposição de Mauro Borges

 

historia– Agora o pau virou daí para cá.

É o que afirmou, em tom ríspido, o general Newton Cruz para o então governador do Estado de Goiás, Ary Ribeiro Valadão, que retrucou no mesmo diapasão:

– Virou, sim, porque o senhor merece!

Newton Cruz, da linha dura na era João Baptista Figueiredo, que soube antes da programação do atentado ao Rio Centro, em 1981, no Rio de Janeiro, mas evitou impedi-lo, estava irritado com o inquilino da Casa Verde, que denunciara a instalação de escutas telefônicas em seu gabinete, no Palácio das Esmeraldas, em Goiânia. Apesar do atrito, o homem da caserna saiu de fininho da crise recém-aberta em seu gabinete:

– Qualquer dia vem aqui almoçar comigo, um prato ao molho pardo.]

Essa é uma das histórias que compõem o livro Ary Valadão – Da Prefeitura de Anicuns ao Palácio das Esmeraldas, lançado em novembro, Editora Kelps, 350 páginas, de autoria de Ubirajara Galli. Velho udenista, Ary Valadão elegeu-se prefeito de Anicuns, duas vezes deputado estadual e exerceu três mandatos de deputado federal, além de ter ocupado o cargo de secretário de Estado de Interior e Justiça e de chefe do executivo estadual.

Deputado estadual por duas legislaturas, de 1959 a 1963 e de 1963 a 1967, quando elegeu-se deputado federal, ele promovera conspirações em sua própria casa para derrubar o governador do Estado, Mauro Borges, filho do cacique Pedro Ludovico Teixeira, que integrara a Cadeia da Legalidade, para garantir a posse de João Goulart, em agosto e setembro de 1961.

 

O bruxo

O dever de Iris Rezende, como Presidente da casa a que pertence Ary Valadão, era sair em sua defesa, em sua guarda” Alfredo Nasser

O parlamentar chegou a impedir que o também deputado estadual atirasse no líder do PSD no Palácio Alfredo Nasser, João Abrahão, que o chamara de “filho da puta”. Os seus aliados na luta contra Mauro Borges, que não caíra em 31 de março de 1964, era Thirso Corrêa, os coronéis Danilo de Sá, Aníbal Coutinho, além daquele velho conspirador, que assinara o Manifesto dos Coronéis contra Getúlio Vargas, Golbery do Couto e Silva, o bruxo.

– Uma das revelações do livro Ary Valadão – Da Prefeitura de Anicuns ao Palácio das Esmeraldas.

Abençoado por Olímpio Mourão Filho, a ‘vaca fardada’,  e com a  água benta do coronel Burnier, a direita em Goiás promove a deposição, no dia 26 de novembro de 1964, do governador de Goiás, Mauro Borges Teixeira. Com a intervenção federal, o coronel Meira Mattos assume o poder. Almir Turisco havia revelado ainda um plano para assassinar o líder da conspiração no Poder Legislativo, Ary Ribeiro Valadão. Alfredo Nasser denunciou o complô.

– Ary Ribeiro Valadão apontou uma arma para um home que estava à sua espera e que saiu correndo com uma carabina nas costas.

De Alfredo Nasser a Iris Rezende, presidente da Assembleia Legislativa.

– Iris Rezende não é capaz sequer de um sussurro!

Mesmo sendo um conspirador contra a legalidade, que apoiou o golpe de Estado civil e militar de 1964, com a queda de João Goulart, Ary Ribeiro Valadão chegou a proteger comunistas. Entre eles, o jornalista Carlos Alberto Santa Cruz Serradourada, que atuaria no Cinco de Março e no Diário da Manhã e que ocuparia a Secretaria de Comunicação de Iris Rezende Machado, assim como o ex-membro da Ação Libertadora Nacional [ALN], de Carlos Marighella, Wanderlino Teixeira de Carvalho.

Ubirajara Galli conta que um policial da Secretaria de Segurança Pública  foi à 7ª CSM encontrar-se com Aníbal Coutinho. Indignado, o homem de farda disparou: “o deputado estadual Ary Valadão é comunista!”. O oficial reagiu: “Mas, como você me diz que ele é comunista? O soldado retrucou: “Pois digo e afirmo que é comunista. Ontem mesmo, ele estava dirigindo o seu carro e junto estava o comunista Carlos Alberto Santa Cruz Serradourada”.

 

Emílio Ribas

Com a queda de Mauro Borges, Emílio Ribas é eleito em 7 de janeiro de 1965. Almir Turisco, seu vice, que acabou cassado em 1969. Na convenção da UDN, Ary Ribeiro Valadão apoia Emival Caiado. Otavio Lage de Siqueira ganha a convenção e derrota nas urnas dia 3 de outubro de 1965 o candidato do PSD José Peixoto da Silveira. Por 180 mil e 962 votos a 176 mil 809 votos. Peixoto da Silveira temia, se ganhasse o pleito, não tomar posse. Com razão.

Deputado federal, ele votou contra a cassação do incendiário Márcio Moreira Alves, cujo discurso teria sido estopim para a decretação do Ato Institucional Número 5, em 13 de dezembro de 1968. A mesma posição adotada por Aureliano Chaves, que seria indicado vice do general-presidente João Batista de Oliveira Figueiredo, em 1978, e de Garcia Neto, que depois assumiria o Governo do Estado do Mato Grosso [MT].

– Golbery do Couto e Silva era chamado de compadre por Ary Ribeiro Valadão.

Para coordenar as ações políticas da gestão do governador indicado pela ditadura civil e militar Irapuan Costa Júnior, um homem da comunidade de informações, Ary Ribeiro Valadão assume a Secretaria de Interior e Justiça. A solenidade de posse ocorreu no dia 24 de fevereiro de 1977. Uma de suas tarefas seria apaziguar a Arena [Aliança Renovadora Nacional], que encontrava-se fraturada no Estado de Goiás. Tarefa nada fácil, diga-se de passagem.

– Ary Valadão contava piadas nos quartéis…

 

historia2Sucessão de Irapuan Jr.

Irapuan Costa Júnior queria José de Assis para sucedê-lo. O compadre Golbery do Couto e Silva agendou um encontro de Ernesto Geisel, general-presidente da distensão lenta, gradual e segura, com Ary Ribeiro Valadão. O alemão, como era chamado, emendou:

– O coronel Danilo de Sá está na lista. Ele não pode ser candidato. Otávio Lage está na lista. Ele também não pode ser candidato. Hélio Seixo de Brito está na lista, mas não pode ser candidato

Em 20 de abril de 1978, Ary Ribeiro Valadão é nomeado governador de Goiás. O seu vice é Ruy Brasil Cavalcanti Júnior. O recém-indicado aponta o senador biônico Benedito Ferreira.  Em 1º de setembro de 1978 é eleito pela Assembleia Legislativa de Goiás. Depois de exercer por duas vezes o mandato de prefeito de Anicuns, de deputado estadual e de três mandatos de deputado federal, além de secretário de Estado de Interior e Justiça.

Como inquilino da Casa Verde, ele executou os projetos Alto Paraíso, Rio Formoso, com Maria Peixoto Valadão lançou o Alimento da Solidariedade e sofreu a imensa dor de perder o filho, o engenheiro-chefe do Projeto Alto Paraíso, Ary Ribeiro Valadão Filho, que, em um acidente de avião, queimara gravemente todo o seu corpo. Aos 30 anos de idade, Aryzinho morreu em 13 de novembro de 1981 e foi enterrado sob forte comoção.

Dedo em riste

Em audiência em Brasília, João Baptista de Oliveira Figueiredo atirou contra Ary Ribeiro Valadão, narra Ubirajara Galli:

– O senhor está me enchendo o saco!

Ary Ribeiro Valadão metralhou:

– Eu não sou milico para ser tratado assim. Não sou milico! Não sou milico!

Serviço

ary

Lançamento: Livro

Título: Ary Valadão – Da Prefeitura de Anicuns ao Palácio das Esmeraldas

Editora: Kelps

Autor: Ubirajara Galli

Número de páginas: 350

Avaliação: Bom


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