Brasil

Tanto o capitalismo quanto o socialismo esmagam a individualidade

Redação DM

Publicado em 5 de novembro de 2015 às 22:31 | Atualizado há 11 anos

Semana passada, no hospital filantrópico que dirijo, recebi duas das incontáveis “fiscalizações” de conselhos profissionais da área da saúde. Com “leis e documentos” nas mãos, pediam mais nutricionistas, mais enfermeiras. Não querem saber se o hospital, como a grande parte, está quebrando, sem recursos. Um dado escandaloso, só para vocês sentirem o drama: em 35 anos de direção do hospital nunca recebi uma fiscalização exigindo “médico”; é como se este profissional não existisse, fosse o menos necessário de um hospital. Como Istoé possível, como chegamos neste ponto? Estas “leis e normas” que asfixiam a iniciativa privada são criadas num mundo “socialista-estatizante” que, teoricamente, foi feito para coibir a “exploração do mais fraco pelo mais forte” (aqui na figura de médicos e de empresários da saúde). De fato, como mostra o economista Thomas Piketty em seu “O Capitalismo no Século XXI”, o “poder econômico precisa ser controlado”, senão tende a sugar toda a riqueza de um país na mão de muito poucos. Mas veja lá: o capitalista que precisa ser controlado é o “bilionário sugador de recursos”, é aquele que nunca vai gastar o que ganha, é aquele que, nem que se banhasse em ouro, precisaria de tantos recursos. Este capitalista não sou eu, que apenas luto para sobreviver… Tais “bilionários que precisam de freio e impostos”, além disto, são exatamente aqueles que vivem de riquezas especulativas, não-produtivas, seja de heranças, seja do sistema financeiro (p.ex., poucos bancos controlando a economia, extorsão do cidadão por meio de cartões de crédito, contas-salário, etc), seja de investimentos em países subdesenvolvidos com juros altos. É neste ponto que o “grande Kapital” se abraça com o socialismo, pois os países de juros altos usam deste recurso exatamente para pegar emprestado dinheiro no mercado para sustentarem o “populismo socialista”. Prova disto é que quem hoje manda na economia brasileira é um mega-banco privado, o Bradesco, seja na figura do Trabuco (presidente do banco que Dilma inicialmente chamou para ser ministro da Fazenda), seja na figura do empregado do banco, o Levy. Em suma, o grande Kapital não sofre absolutamente controle nenhum do Estado, objetivo maior pelo qual este último foi criado e é sustentado pelos cidadãos. Ao invés disso, o tal Estado passa a usar suas prerrogativas de “controlador” que o povo lhe deu e, ao invés de enquadrar os grandes, passa a querer controlar os pequenos e médios “capitalistas”, com estas leis que só asfixiam os pequenos e asfixiam a iniciativa privada (o “Estado Poderoso” passa a ter uma “casta própria”, casta esta que é “socialista” em seus princípios – vide o que estão fazendo no meu hospital). Os “campeões do BNDES”, os grandes bilionários, tipo Eike, Odebrecht, Oi, Friboi, etc, estes estão aí recebendo literalmente trilhões do Estado… Portanto, Estado e Grande Kapital sempre estiveram unidos, mesmo na antiga União Soviética, com seu “Capitalismo de Estado”, hoje sobejamente repetido na China e até em Cuba (a Adidas é uma das grandes financiadoras de Fidel). Então, se Socialismo e Capitalismo são todos faces de uma mesma moeda, se tanto Dilma/Lula quanto Aécio/PSDB são farinha do mesmo saco, onde está a solução? De onde se menos espera: nas mãos dos cidadãos, que assim como eu estou fazendo, poderiam começar a denunciar – auxiliados pela “transparência da internet” – as ingerências injustas do Estado e do Grande Capital em suas vidas.

 

(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra, artigos às terças, sextas e domingos)


Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia