O amor tanto ama quanto mata
Redação DM
Publicado em 22 de outubro de 2015 às 00:06 | Atualizado há 11 anosPor mais a polícia investigasse, não descobria quem matou Michel, há seis meses. Silvia ficara viúva com um filho de seis anos. Vendo a mulher inconsolável, Walter ia brincar com o sobrinho Lucas, alegrando-o e proporcionando-lhe divertimento. Passeava com ele e o levava aos parques e shoppings da cidade. Realmente Walter agradava Lucas melhor que o pai, pois lhe devotava atenção e supria sua carência de pai com sua presença edificante e afetiva.
Desde que perdeu o irmão Michel que fora assassinado num local ermo da cidade de Nerópolis, Walter e sua mãe, dona Zilda, não tiveram mais sossego, tamanha a tristeza que assomava toda a família. Os cuidados da família de Silvia, somados aos da de Michel, igualmente parecia que não conformavam o coração de Silvia, e a população não dava sossego à polícia cobrando a investigação do caso. Queria porque queria a prisão do culpado.
O tempo foi passando e, vencido um ano, não havia a PM descoberto o autor do fato.
Silvia trabalhava numa fábrica de doces, e seu coração se mantinha desolado e sua vida nublada de tristeza. O único conforto dela é que o Lucas não sofria nem padecia tristeza nem sentia falta do pai. Seu tio Walter passava suas horas todas com ele, levava-o a passear de bicicleta, a dar voltas no Baião, potro de sua propriedade, que ganhara do pai. Não trabalhava, mas estudava à noite. Era bom aluno e, na família, o segundo filho do velho casal. Os pais de Walter aos poucos se conformavam.
Nas férias, o tio do Lucas aproximou-se da cunhada e disse-lhe que pretendia passar uns dias em Nova Veneza, na casa dos tios e, para que Luquinha não sentisse sua falta, quem sabe ela permitiria que ele o levasse em sua companhia. Conhecendo bem a Família de Walter em Nova Veneza, considerou tranquila a permissão do cunhado em levar o garoto para suas férias na cidade vizinha. E eles foram, deixando serenidade entre todos. Silvia ficara em Nerópolis devido a seu emprego e, mesmo porque o trabalho lhe servia muito de consolo. Sob as bênçãos dos pais e da cunhada, Walter e Luquinha foram para a cidade próxima.
Certa tarde, quando Walter olhava o Luquinha a correr no gramado do jardim central de Nova Veneza, sentiu-se deprimido e triste. Nestas horas, ele gostava de pegar na pasta um caderno de desenho e trabalhar gravando a crayon (lápis 8B) uma paisagem do seu agrado. Registrava às vezes o que lhe ocorria. Se pensou em desenhar a igreja no centro do jardim, depois de terminada a gravura, não era a igreja que surgia no papel. Era a figura de um rapaz. Não sabia se era a gravura de si mesmo ou se era a do seu irmão Michel. Então abandonava o desenho e chamava Lucas e, ambos, adentravam a matriz e iam orar.
Num certo domingo, estão eles na mesma praça, seus tios de Veneza conheciam seus hábitos e ficavam tranquilos, quando o tio do garoto, vendo bela jovem passar por ele, pediu-lhe para servir-lhe de modelo. A moça, que o conhecia bastante, permitiu. Sabia tratar-se de bom retratista e futuro pintor de talento. Qual não foi seu espanto ao terminar o desenho: era a imagem de Silvia…
De lá, aproveitando ainda os últimos dias de férias, Walter avisou aos parentes de NV e foram passar uns dias em Anápolis, conheceu o Parque Ipiranga e o Parque da Liberdade, onde, então, o menino se esbaldou, e foi ali também que o tio de Lucas encontrou um pintor que trabalhava a lápis crayon 8B e ficou conversando com ele de olho na criança que brincava nos balanços, nas gangorras, vendo os peixinhos saltando o nível da água, querendo alimento.
O artista conversando com o moço de Nova Veneza, agradeceu e pediu-lhe para ver seu trabalho…
Walter solicitou o lápis emprestado e uma folha de desenho ao colega, que o atendeu. Pensou em quê pintar.
O artista deu uma espiada pelo Parque da Liberdade procurando em que inspirar-se quando viu a alegria do sobrinho e dispôs-se a pintar o Luquinha, que gritava com os peixinhos que recebiam grãos de pipocas lançados pelo menino.
Walter quis pintar o garoto. E foi com rapidez que o fez. Mas ao verificar a figura recém-produzida, não era o Lucas. Era ele próprio. Sem entender, preocupou-se e mostrou a arte ao seu colega de Anápolis.
Este, ao ver o desenho de Walter, exclamou e, ao invés de dizer o que o amigo esperava, disse outra frase, serena e calmamente.
– Nossa, você desenhou um amigo que tive…
– Uau! Não sou eu? Exclamou Walter.
– Não, disse o artista de Anápolis. É… Parece um pouco. Lembra! Lembra-o…
– Lembra, quem? Perguntou o pintor de Nerópolis.
– Lembra você, Walter. Porém, lembra, mais, o meu amigo, que era mais velho que você…
– Eu achava que era eu… – Disse Walter.
– Não, esse aí é o Michel… Meu amigo…
– Michel?
– Sim, era desenhista também. Mas dizem que o assassinaram em Nerópolis…
Walter levou aquele susto. Em silêncio, discreto, ficou triste.
O artista do parque disse-lhe:
– Conheci um caso interessante. Lembrei-me ao ver sua pintura…
– O quê? Indagou Walter.
– Quando a gente pinta inconscientemente alguém que já morreu, é porque esse alguém, em espírito, está ao nosso lado.
– É? …
– Sim.
Enquanto seu colega anapolino conversava fazendo seu belo desenho, Walter, preocupado, saiu em busca de Lucas e, de lá mesmo, voltaram para Nerópolis, onde o garoto foi abraçar a mãe e Walter, depois de saudar carinhosamente a cunhada, foi saudar os pais.
Alguns dias depois, o cunhado de Silvia estava na casa dela, conversando, enquanto o menino brincava lá fora.
A mãe de Lucas lavava louças e Walter, enxugava as vasilhas, logo após o almoço. Tranquilamente, Walter lhe disse:
– Silvia, case comigo?
Silvia deixou cair um copo que se estilhaçou ao chão, tamanha a surpresa dela. O moço riu.
– Nossa! Exclamou ele. Sou de tal forma, assustador?
– Claro, queria que eu ficasse normal? Jamais esperava por essa!
– Desculpe. Não queria assustá-la. Por que tanta surpresa, assim? Inquiriu ele a Silvia.
– Não esperava… Mas você nem me ama…
– Claro que a amo!
– Não. Você tem é dó de mim e adora o Lucas. Fez as vezes do pai dele…
– Não venha com essa, Silvia. Case-se comigo.
– Claro que não Walter. Ora, onde já se viu casar comigo só por dó? Mulher nenhuma quer isso…
Walter, então, ficou triste e mudo. Saiu em silêncio e foi para casa.
Passaram-se mais três meses e o cunhado de Silvia se apresentou à polícia de sua Comarca.
Havia se entregado, mostrou a polícia os seus desenhos: tinha grafado no papel os rostos de Silvia e de seu irmão Michel.
– Que desenhos são estes? Perquiriu o chefe de polícia.
– Sempre que vou desenhar uma mulher, tendo outras como modelos, só desenho Silvia…
– E este? Retorna o delegado a indagar. É você?
– Não senhor. É meu irmão. Toda vez que vou me desenhar, só faço o meu irmão.
– Por quê? Reitera a autoridade. E Walter explica:
– Vim me entregar, doutor.
– Você?!
– Sim – e sentou-se à cadeira, dando o caso por encerrado.
O amor tanto ama quanto mata.
(Iron Junqueira, escritor)