Autoconfiança e humildade
Redação DM
Publicado em 20 de outubro de 2015 às 22:59 | Atualizado há 11 anosUmas das coisas mais comuns do nosso cotidiano são as nossas condições de seremos avaliados com notas: quantidade salarial ou de zero a dez cria uma quantificação de nossas capacidades. Resumindo: viramos escravos de nossos próprios números.
Diante de aproximadamente dois dias de uma prova que infelizmente pode modificar a vida de vários estudantes, não perderia meu tempo conduzindo dicas que nesse momento só lhe pressionaria mais. Seu conteúdo está acumulado, formalizado, treinado, pronto. Não se assuste se não se sente totalmente seguro, essa é a condição humana. A autoconfiança não é antônima de humildade. Elas fazem parte da arte da convivência da vida, pois, uma se apresenta como parte da autonomia do que faz um ser vivente em potência e, a outra, faz com que se sinta no mesmo lugar humanitário de onde nasceu e de onde terminará: na condição de seres humanos de ser absolutamente nada.
Angústia é a palavra que resume o momento. Diria Sartre: “É na angústia que o homem toma consciência de sua liberdade (…) na angústia que a liberdade está em seu ser colocando-se a si mesmo em questão.” Portanto, angústia é a condição humana de estar diante de escolhas. Por isso, as palavras que encontrarão estão apenas como indicações para refletir sobre a sua ação cotidiana para além de qualquer prova que encontrarão na vida.
“O homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define.” Essa frase de Jean-Paul Sartre, filósofo existencialista francês, definido no livro O Existencialismo é um Humanismo (1946), vale as vezes mais do que qualquer fórmula de autoajuda em momentos de angústia. Essa definição de vida vale nesse momento mais que qualquer explicação das teorias, que outrora são profundas e importantes dos filósofos contratualistas, que acreditam que existe um “estado de natureza”. Por exemplo, em Thomas Hobbes, existe antes da sociedade civil um estado de guerra de todos contra todos que coloca o homem como “lobo do próprio homem”; em Rousseau, como um “bom selvagem” e em John Locke a garantia de sua “liberdade e propriedade”. O homem existe e, assim, se define: está condicionado a escolher, logo a se angustiar.
Nessas escolhas aparece o papel de um professor. Resumidamente e da maneira mais simples possível, seu papel é fazer aquilo que Edgard Morin definiu como “valores complexos”. Dar condições para que você veja que no mundo não há fórmula para a felicidade. Escolha se torna a palavra-chave: a nossa condição para se distanciar da natureza é que não nascemos previamente determinados e atribuídos para algo inevitável. Imagina o problema quando um filho prometido à medicina e ao sucesso social/econômico, diz que quer ser um professor, ou até mesmo, não ter profissão. Sua escolha é não escolher o que todo mundo quer. Portanto, a sua condição humana é a de transcender seus limites. A ilustre frase de Heráclito, filósofo pré-socrático, resume nossa angústia: “Viver de morte, morrer de vida.”
Essas angústias são trabalhadas de forma incessante que faz da vida por vezes insuportável: Søren Kierkegaard, filósofo dinamarquês, na obra O Conceito de Angústia (1844) afirmou que o ser humano vive uma vertigem de liberdade, que faz o ser humano atuar diante das escolhas: ele tem medo do precipício que está a sua frente, mas também sente vontade de se atirar naquele espaço.
O filósofo alemão Martin Heidegger disse na obra Que é metafísica (1935), que a angústia é o sentimento do Nada, quando, naquele momento você precisa fazer algo diante da sua frente, você se sente como lacuna, falta, dúvida, sem nenhuma certeza , você se torna espaço a ser preenchido. Por isso que existir é a capacidade racional de saber. Ele resume isso quando diz: “Somente o homem existe. O rochedo é, mas não existe. A árvore é, mas não existe. O anjo é, mas não existe. Deus é, mas não existe.” O homem existe, raciocina, se explica, se constrói, se reconstrói e se destrói.
Ir além, reconstruir o que parece eterno, derrubar o que é cristalizado, refazer-se diante das adversidades, poder reedificar seus valores e suas ações, é essa a condição dos seres humanos. Por isso, caro jovem que me lê e ouve, darei duas saídas a vocês: uma platônica e uma aristotélica.
Platão usou a palavra Eros, de erotismo, de erotização, definido no diálogo O Banquete (380 a.C.) como desejo. Por uma lógica complexa, a escolha diante do mundo feita sem eros, por vontade do outro, da escolha do outro que também veio do outro: “Terão uma afeição que os ligará, mas que será sempre menos forte do que aquela que liga os que verdadeiramente amam.” Assim, o objetivo do Eros no qual Platão nos explica só pode ser condicionado por aquilo que não temos.
Aristóteles define a amizade como Philia no livro Ética a Nicômaco (300 a. C.) em três níveis: um em utilidade que a amizade lhe traz; outra em prazer que individualmente lhe proporciona; e a terceira como virtude. Só esta última, diz o grego, tem condições de durar, pois as relações se tornam fortes através da semelhança como busca do homem. Portanto, Philia como virtude se dá numa busca incessante de reciprocidade com ou outro, não sendo meio para algo, mas um fim para a vida.
Eros ou Philia? Os momentos que passamos juntos em sala de aula só podem ser explicados como aquilo que falta (Eros) e aquilo que realiza a reciprocidade, o respeito e a diferença (Philia) pois, quando não estou perto, sinto saudade, mas quando estamos lado a lado me alegram, potencializam meu próprio ser.
Desejo e alegria: está aqui o meu propósito que quero que levem para os lados que forem caminhar, fora ou não dos desejos que seus donos querem, sempre lembrando que confiança e humildade são as bases dos seus caminhos.
Os gabaritos são muitos e as referências são tão contraditórias que nenhuma prova, nota ou qualquer número que reduza sua vida para a palavra “aprovado” ou “reprovado” poderá ser referência para a vida de qualquer ser humano que criou as provas e virou vítima delas.
Por fim, uma boa prova do Enem a todos e todas!
Abraços libertários de
João Gabriel
(João Gabriel da Fonseca, professor e co-autor do Crimideia vídeo-aulas (YouTube). Email: [email protected])