Uma morte anunciada
Redação DM
Publicado em 29 de setembro de 2015 às 14:36 | Atualizado há 1 anopor Rariana Pinheiro
Ela tinha uma voz arrebatadora. Os críticos diziam ser uma mistura de Billie Holiday com Lauryn Hill. Nutria ainda uma paixão pelo soul, que servia como pano de fundo para transformar sua alma em música. Muita coisa que a cantora Amy Winehouse sentiu e viveu deixou lindamente registrado em seu primeiro e último álbum, o Back To Black (2006). Pode até ser que não exista forma mais aprofundada para conhecê-la, que por suas canções.
Contudo, quais os fatos que transformaram esta diva do soul, em uma bomba prestes a explodir? Alguém poderia evitar esta morte, que para muitos, há quatro anos atrás, era uma certeza iminente? É isto o que tenta elucidar o comentado documentário Amy, que está em cartaz em Goiânia hoje, em sessão especial, às 19h30, no Cinemark Flamboyant.
O filme é dirigido por Asif Kapadia, também responsável pelo documentário Senna (2010) – que conta a trajetória de Ayrton Senna na Fórmula 1 – e compila imagens inéditas da artista, mescladas com depoimentos de entrevistados, entre amigos e familiares.
O documentário estreou com enorme sucesso no Reino Unido, tornando-se a segunda maior estreia do gênero, atrás apenas de Fahrenheit 9/11, de Michael Moore. E, um dos trunfos do filme é o competente trabalho da equipe em vasculhar os documentos, deixados após a breve existência da cantora. A obra traz até vídeos de celular da cantora e mais de 100 entrevistas.
O documentário mostra ainda trechos emocionantes e esclarecedores, em relato da própria cantora, onde aparecem seus medos e inquietações. Em um de seus depoimentos revela que se conhecia bem até demais. “Eu não quero ser famosa. Tenho certeza de que não aguentaria a pressão”, disse ela pouco antes da fama. As pessoas que eram próximas da artista também desenham fatos da trama meteórica de Amy, que fazem o filme ter direito até a vilões. E um deles é, ninguém menos, que o próprio pai da artista: Mitch Winehouse. Na obra, ele é retratado como mercenário, que pouco fez para tirar a filha do vício nas drogas, que tiraram sua vida em 20011, aos 27 anos.
Um dos trechos da obra reforça bem este pensamento, quando mostra o momento no qual o pai da artista contratou uma equipe de filmagem, para filmá-la, justamente quando tentava se livrar das drogas, em uma ilha caribenha. E Amy, nesta hora, confronta o pai:
“Você quer dinheiro, pai? Eu te dou. Todas as vezes em que nós nos encontramos, você aparece com essa equipe. Qual o intuito disso? Eu estava com saudades e queria apenas a sua presença. Você quer me transformar em um produto”, diz. Logo, é compreensível que Mitch Winehouse não tenha gostado nada de como sua imagem foi apresentada no documentário e, por vezes apelidou a obra de “imprecisa e enganosa”.
Mas, outro vilão do filme, o ex-marido da artista Blake Fielder-Civil, não falou muito sobre como é abordado no filme. Apesar de um pouco mais carismático que o pai de Amy, no filme fica claro que ele introduziu aos vícios da heroína e do crack, a partir de 2005, com mais intensidade na vida da cantora. Mas, o filme também não é apenas uma atribuição de culpas – cuja lista, aliás, é imensa.
Também mostra Amy se divertindo com suas amigas de infância, passando para a adolescência, antes da fama, a assinatura de seu contrato com a gravadora, o caminho para os primeiros shows. E, também repleto do que poderia faltar: muita música.
Logo, o espectador pode perceber duas Amys. A de antes e a de depois da fama. A primeira era a talentosa compositora e cantora nata, que tinha uma substância e sensibilidade ímpar. Já Amy engolida pelo sucesso, era frágil recuada, drogada, cujos relacionamentos e comportamentos viciantes retiraram a vida.