Esportes

No caminho do handebol

Redação DM

Publicado em 11 de abril de 2015 às 01:55 | Atualizado há 11 anos

Oníria Guimarães,Especial para Esportes

Um projeto esportivo vem descobrindo o talento de crianças e adolescentes de uma das vilas mais antigas do município de Rio Verde. A Vila Serpró, estigmatiza pelo alto índice de criminalidade e drogas, hoje é reconhecida no Estado de Goiás como a vila dos melhores atletas do handebol goiano.

Em 2010, o jovem educador físico, formado em Educação Física pela UniRV, Marcelo de Oliveira Castro de 28 anos, foi convidado pelo prefeito Juraci Martins para trabalhar na Secretaria de Esportes e lhe foi apresentado três bairros (Setor Morada do Sol, Vila Borges e Vila Serpró) para que ele escolhesse um desses e ali montar um projeto esportivo para crianças e adolescentes. Como Marcelo não era rio-verdense e só estava no município há dez anos, escolheu a Vila Serpró, mesmo sem conhecer a realidade desse bairro. Quando os colegas souberam de sua escolha, o alertaram e afirmavam que ele era louco em trabalhar ali, mas o jovem não se intimidou, foi até o bairro e lá entrou em contato com a coordenadora da Fundação AJA, Joanna de Angelis, onde funciona o Programa de Erradicação Infantil (Peti) que ofereceu para ajudá-lo a montar as equipes.

No outro dia, quando Marcelo chegou ao bairro, se assustou com o número de crianças e adolescentes interessados, 130 alunos o aguardavam. No início, Marcelo pensava apenas em um projeto social para retirar os menores das ruas, mas, em um mês de trabalho como treinador de Handebol, percebeu que os meninos vinham com toda energia e se dedicavam bastante, tanto que no primeiro campeonato rio-verdense, ganharam todas as partidas, se destacaram entre os demais times de outros setores.

Marcelo começou a investir no projeto que conta hoje com a participação de 30 alunos e montou duas equipes de handebol, uma com meninos de 12 a 14 anos e outra com meninos de 14 a 16 anos. Em 2011, eles ganharam o campeonato goiano, em 2014, a equipe dos mais jovens ganhou o primeiro lugar no mesmo campeonato e, este ano, a equipe cadete masculino (14 a 16 anos) ficou em segundo lugar na Copa de Handebol de Anápolis-GO, acumulando dois títulos nesta Copa. Eles não perdem nenhuma partida em Rio Verde e não só na cidade, mas no Estado de Goiás são referências no handebol. Em seis anos, esses meninos conseguiram dois títulos goianos.

A dificuldade que eles e o seu treinador enfrentam para manter as equipes e continuar participando das competições não são poucas. Como não contam com nenhuma ajuda financeira, a não ser da própria Secretaria de Esportes local e do Sesi, que oferece os uniformes e bolas, eles passam por grandes dificuldades para continuar se destacando, uma delas é a distância entre a Vila Serpró e o Módulo Esportivo, onde treinam três vezes por semana, sendo que quando a secretaria não oferece o transporte, eles andam cerca de seis quilômetros a pé até o local dos treinos e, em outros dias da semana, treinam na quadra do Bairro onde moram, sob o sol quente ou chuva, já que a quadra da praça da vila não é coberta.

Outra dificuldade encontrada pelos meninos e seu treinador é com relação às viagens, quando vão participar dos campeonatos. Nessas viagens, o que os meninos recebem de ajuda do município é pouco, quase não dá para a alimentação, tanto que o próprio treinador ou um dos colegas que é de classe média e que não mora na Vila, mas optou por fazer parte da equipe, tira dinheiro do próprio bolso para ajudar os colegas.

Marcelo conta que esses meninos são reconhecidos em todo o Estado, assim como a sua vila, a Vila Serpró, cuja fama hoje não é mais pelo índice de violência, mas pelo talento de seus atletas. “Hoje, quando vamos treinar na quadra da praça da Vila Serpró e notamos que há traficantes ou usuários de drogas no local, não temos nenhum receio, já que essas pessoas admiram os meninos e pedem aos colegas que se retirem para que os meninos possam jogar tranquilos. Estamos mudando o conceito que as pessoas fazem da Vila Serpró, em Rio Verde, através da prática esportiva”, relata Marcelo.

Quando Rio Verde não participa de campeonatos, eles são convidados a jogar por outras cidades, como foram para jogar por Santo Antônio da Barra, no próximo mês. Esses meninos, que poderiam estar nas ruas ou envolvidos com outras atividades de risco, são referências e dão orgulho a sua cidade e, principalmente, ao seu bairro.

O educador físico explica que entre 14 atletas, dez são muito pobres, 3 ou 4 quatro são de classe média e um deles é de classe mais alta, inclusive é aluno do Colégio Militar e fez questão de jogar no time dos meninos da Serpró. A amizade, a união e a determinação dos meninos são admiráveis. A maioria das famílias desses meninos não acompanha esse projeto, pois muitos são filhos de pais separados, não convivem com os pais ou são criados por avós, mas são dedicados e estão determinados a continuar na prática esportiva e se destacando no handebol rio-verdense.

“Este ano, completo seis anos à frente desse projeto e mesmo sem patrocínio, sem a ajuda financeira que esses meninos tanto precisam, principalmente porque são pobres e se dedicam a semana toda ao esporte, não tenho a intenção de abandoná-los, ao contrário, outros meninos estão se destacando e seguindo o exemplo desses atletas. Vou precisar montar outras equipes, pois muitos outros meninos do bairro aguardam uma  chance e se espelham nessas duas equipes. Esse é um trabalho que me dá satisfação e eu acredito que graças a essa prática esportiva muitos estão longe das drogas ou da marginalidade”, diz o treinador.

Marcelo destaca ainda a importância do esporte para combater a criminalidade e a violência envolvendo menores. “Uma das melhores formas de evitar que meninos entrem para o mundo do crime ou se envolvam com as drogas é através do esporte e pensando desta forma, acredito que esse trabalho deve continuar e servir de exemplo para outros setores de Rio Verde”, conclui o educador.

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