Verdadeiros guerreiros de nosso tempo
Redação DM
Publicado em 9 de agosto de 2021 às 17:33 | Atualizado há 5 anos
Quando deixou o cargo de primeiro ministro do Reino Unido, posto ambicionado e disputado por quase todos políticos daquele pais, Gordon Brown disse que iria voltar a exercer a função mais importante que um homem pode ter na vida, a de ser pai. De Shakespeare em Rei Liar a Renato Russo em muitas letras de músicas, família é um dos temas recorrentes da reflexão humana, seja em uma tirada política, seja em obras imortalizadas pela arte.
Criado por razões comerciais para lembrar aquele que, junto com a mãe, representa uma das duas pernas em que se sustenta um sistema econômico, o Dia dos Pais não deixa de ser uma data (ou um gancho, como diriam os jornalistas) para lembrar aquele que quase todos tivemos, biológico ou não, em alguns casos substituído na figura de avôs ou padrastos ou mesmo uma mulher que exerce os dois papéis.
Claro que minha primeira lembrança de pai é o seu Didi, como era conhecido o meu, este sim um verdadeiro herói do povo brasileiro, um operário que criou quatro filhos, em meio às tempestades econômicas, políticas e sociais que agitaram nosso barco familiar durante décadas.
Com o passar do tempo e o distanciamento, a gente acaba por ver a real dimensão das coisas, fatos e personagens com quem dividimos essa aventura humana na terra. A gente passa a vida buscando referências positivas, exemplos de lutas e vitórias, para nos inspirar, e apenas bom tempo depois é que descobrimos que esses exemplos estavam do nosso lado.
Em um tempo de nova revolução feminista que derruba o patriarcado (sou a favor de todas revoluções, inclusive entendendo os excessos como males necessários), pois bem, nesse tempo em que estamos sendo acuados por todos os lados, lembro da vida de pai de Carlos Valadares, outro verdadeiro guerreiro de nosso tempo.
O prezado amigo, nascido em Goiânia, atravessou anos de lutas sociais, econômicas e políticas, criando sozinho seus três filhos, incluindo um mais especial, um desses anjos que o criador envia à terra para nos proteger e estimular nossa dimensão humana.
O ilustre goiano foi um militante da redemocratização no Brasil, naquela fase de transição em que o regime militar parecia dar seus derradeiros suspiros mas que, como todo animal ferido e cansado, poderia ser mais perigoso ainda. Valadares foi um dos criadores do Tancredão, o boneco gigante que fez história acompanhando o então candidato civil ou mesmo substituíndo-o pelo Brasil afora. Produtor cultural de sucesso, foi um dos responsáveis pela transformação do Distrito Federal em um dos principais mercados da música baiana (o DF chegou a ter rádio exclusiva de musica da Bahia), produzindo shows do Olodum, Chiclete com Banana e Banda Reflexus, entre outros.
Com Valadares, tive o prazer de promover em Brasília um histórico espetáculo com Jards Macalé no Gran Circo Lar, uma espécie de Circo Voador que o governador Zé Aparecido instalou ao lado da Catedral, semente onde nasceu e existe hoje o Museu Nacional de Brasília. «Quando mais longe do circo, mais eu encontro palhaços», cantou Jards Macalé, dando uma banana ao mau-gosto, à alienação e à vulgaridade que parasitam nossa vida cultural.
Valadares foi um dos assessores do talvez mais importante homem público de nossa época, governador que tombou Brasília, ministro que criou o Ministério da Cultura, e embaixador que criou a Comunidade dos Povos de Línguas Portuguesa, José Aparecido de Oliveira, único homem público brasileiro realmente com reconhecimento internacional solidificado.
Solteiro e ainda sem a experiência de paternidade (ou tentativa de) que os anos me dariam, testemunhei o amor, carinho e a luta de Carlos Valadares na labuta para criar seus três filhos, em meio a todas essas nossas atividades para resistir e criar o novo, empreender em uma sociedade corrompida, sem se corromper. Acompanhava de perto, mas distante, com aquela falta de consciência que caracteriza os jovens sobre certas situações, até que eles também as enfrente.
Carlos Valadares é um exemplo vivo da frase do ex-primeiro ministro britânico.
A mais importante de todas as glórias é ser pai! E no seu caso, mais ainda engrandecido por não ter tido aquela outra metade que divide os desafios de tão importante missão.
Como participo de um grupo de reflexão sobre a instituição família em meio às transformações que o mundo vive, sempre lembro a saga de Valadares. Toda situação humana possui uma complexidade que desafia nossa sensibilidade, perspicácia e responsabilidade.
Sou de uma terra onde os filhos recebem uma fazenda de herança dos pais e reclamam que «é improdutiva».
Como em Rei Lear, de Shakespeare, a ingratidão é um mal que se esconde em diversas nuances.
Mas como na poesia de Renato Russo, «você me diz que seus pais não lhe entendem mas você não entende seus pais. Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo, são crianças como você ».
Quando a sociedade lembra mais um Dia dos Pais, agradeço ao patrimônio de exemplo que nos legam pessoas como seu Didi, meu eterno pai, e Carlos Valadares, um outro guerreiro de nossa época. Parabéns a eles.