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Antônio Poteiro, 100, ligou-se ao povo em pinturas e cerâmicas

Redação

Publicado em 28 de outubro de 2025 às 20:25 | Atualizado há 7 meses

Antônio Poteiro ligava-se à história do povo, suas aflições e felicidade, como disse o poeta Ferreira Gullar - Foto: Arte Popular Brasil
Antônio Poteiro ligava-se à história do povo, suas aflições e felicidade, como disse o poeta Ferreira Gullar - Foto: Arte Popular Brasil

Marcus Vinícius Beck

Nascido há 100 anos, o artista plástico Antônio Poteiro criou cores e formas que se movem ao serem apreciadas. Tudo ali anda: mãos em potes, vasos, urnas, espaços da memória, relíquias escondidas, seres fantásticos, vozes antropológicas e assombradas, sonhos.

A arte de Poteiro é, para o crítico Marcus de Lontra Costa, espelho. “Há nelas o drama e a solidão humana, o olho do homem para o céu, infinito, repleto de perguntas sem respostas”, afirma Lontra Costa, que assina o texto crítico da exposição “Antônio Poteiro: 100 anos”.

“O tempo é composto por dobras que transformam seres do passado num retrato de nós mesmos”, diz o crítico, em material obtido pelo DM. “Mesmo para aqueles que descobrem a arte de Poteiro, a primeira sensação é de pertencimento, encanto e identificação.”

Artista português radicado em Goiás colocou nome na história da arte brasileira – Foto: Acervo Pessoal

Com mais de 60 obras, “Antônio Poteiro: 100 anos” traz pinturas e cerâmicas que festejam o cenário de um dos artistas mais originais da arte brasileira. As criações, em sua maioria, são provenientes do acervo da galeria, complementadas por empréstimos e coleções privadas.

A exposição abre amanhã na Galeria Errol Flynn, em Belo Horizonte, atendo-se à produção das décadas de 1970, 1980 e 1990 — período de maturidade plástica e conceitual. Como disse o poeta Ferreira Gullar, Poteiro ligava-se à história do povo, suas aflições e felicidade.

De acordo com Leonardo Reis, diretor da Errol Flynn, a motivação para montar “Antônio Poteiro: 100 anos” veio da validação artística a partir da simplicidade. Trata-se, além disso, de um ceramista celebrado nas galerias, entre colecionadores e, sobretudo, estudiosos.

Como pintor, Poteiro deixou o artista Siron Franco enternecido. Siron o viabilizou na arte brasileira e, ao observar a fabulação rica e a ornamentação dos potes, teve uma ideia: colocar-lhe nas mãos tintas, telas e pincéis. De cara, foi um sucesso de público e crítica.

Em 1978, expôs na Galeria Bonino, no Rio, o que lhe conferiu notoriedade e prestígio. “Daí em diante, expôs no Brasil e no exterior, em todas as coletivas internacionais da nossa arte contemporânea e em numerosas individuais”, explica o crítico Olívio Tavares de Araújo.

Óleo sobre aglomerado: “Ceia do Coronel”, de 1976, revela dimensão social da obra de Poteiro – Foto: Divulgação

Tavares de Araújo lembra da vez em que encontrou Antônio Poteiro no Japão: “Arranjava-se perfeitamente sem saber uma palavra em qualquer língua estrangeira, e passava muito bem, obrigado. Com desenvoltura (se possível), enfrentou e resolveu os desafios da criação.”

Português da Ilha da Madeira, Poteiro radicou-se no Brasil. Antes de estabelecer-se em Goiânia, onde morreu em 2010, aos 84 anos, viveu no interior mineiro. Ali, nessa histórica escola de ironia e ceticismo, teve contato com o imaginário popular e o ofício de ceramista.

Quando instalou-se em Goiás, nos anos 1950, achou o solo fértil que fez sua arte florescer. Por aqui, passou a articular religiosidade, vida cotidiana e mitos rurais, formando uma espécie de “ópera da comédia humana”, segundo o crítico Marcus de Lontra Costa.

“Poteiro recupera o caráter fenomenológico como ferramenta de absorção da arte”, teoriza. “[O artista] atua diretamente na memória das pessoas, revela arquétipos e cria referências coletivas nas quais a cultura se apropria para criar experimentos que identificam seu povo.”

Cerâmica pintada: “Porte de Ciranda”, de 1976, confere forma tridimensional a um território de crenças – Foto: Divulgação

Suas telas, de estilo naïf, trazem dimensão sociológica. Em “Ceia do Coronel” (1976), selecionada para “Antônio Poteiro: 100 anos”, o que se vê é um banquete transformado em perfeita alegoria da desigualdade e da hierarquia, reelaborando o sagrado à luz do sertanejo.

Já na obra “Homem e Tartaruga” (1979), também presente na mostra, Poteiro faz do mito uma fábula. Homem e animal, seres de tempos distintos, partilham nesta profusão de cores e formas paciência e destino, como se o mundo precisasse da singeleza encontrada na terra.

A cerâmica “Pote de Ciranda” (1976), por sua vez, concede forma tridimensional a um território de crenças. Nessa cosmologia, dançando no tempo e na cultura, entrelaçam-se ciclos da vida. É uma escultura resfolegante — viva, porosa, feita de acenos e costumes sertanejos.

A respeito de seu método criativo, Antônio Poteiro afirmava: “Uso os mesmos temas da cerâmica: Deus-único, Deus-balança, um punhado de santos, temas regionais, as cavalhadas, cirandas.” Isso foi dito numa entrevista em 1977. Acredite, ninguém esqueceu.


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