Desativada 2

Djavan extasia ouvinte com disco de amor em tempos de cólera

Redação Online

Publicado em 12 de novembro de 2025 às 21:12 | Atualizado há 8 meses

Cantor celebrará meio século de carreira com grandes shows ao longo de 2026 - Foto: Mar+Vin/Divulgação
Cantor celebrará meio século de carreira com grandes shows ao longo de 2026 - Foto: Mar+Vin/Divulgação

Marcus Vinícius Beck

Escrevo, tarde dessas, extasiado. Eis o motivo: Djavan, 76. “Ir atrás do amor é um jazz”, vocaliza o cantor e compositor alagoano na faixa “Um Brinde”, que fecha seu novo disco.

Lançado pela Luanda Records/Sony Music, “Improviso” é o balé do imprevisto sentimental. É a jogada sem ensaio, é a floresta do amor, é a partitura da vida. É o arranjo do afeto.

Enquanto arranho estas mal traçadas linhas, Djavan navega pelo velho oceano de águas agitadas — com o direito de produzir-se, dirigir-se e arranjar-se a si próprio. Escrever sobre amor, ensina, nunca será repetitivo. No som, ressoam as melodias e harmonias da paixão.

“Improviso” abre com “Um Affair”, cujos versos enfatizam uma relação amorosa libertária. “Num harém, o pecado é de ninguém / Tudo é de graça / Nada se tem”, canta. Os acordes se formam e as notas nos seduzem numa matilha de ideias à guitarra — imaginação a mil.

Fiel a seu estilo — ainda que veleje por águas turvas —, Djavan tira do baú a única regravação do disco, “O Vento”, parceria sua com o compositor Ronaldo Bastos. Foi interpretada por Gal Costa no LP “Lua de Mel Como o Diabo Gosta”, de 1987.

Gal, lembremos, morreu em 2022, aos 77 anos. Por isso, o alagoano a tributou: “Bate suas asas, voa sobre as casas, vento / Faz o dia delirar / Traz minha morena do além-mar.” É inédita no gogó perolizado de Djavan, esse compositor que ensinou o djavanês a todos.

Se a tropicalista ecoa em “O Vento”, o rei do pop, Michael Jackson, torna-se personagem para o qual a faixa “Pra Sempre” é dedicada. Há que destacar, ademais, o balancê rítmico: viciante. Djavan a compôs após o produtor Quincy Jones requisitá-la em um telefonema.

Capa do álbum “Improviso”, novo trabalho do cantor alagoano Djavan – Foto: Divulgação

Rei do pop

Fez a melodia, mas intimidou-se: como poderia enviá-la ao midas do pop? Só viria a público quatro décadas depois — com o rhythm and blues fluente ali. “Michael Jackson, Michael Jackson, Michael Jackson…”, sussurra o brasileiro no desfecho da composição revivida.

O piano Rhodes ataca com seu timbre aveludado. Djavan retrata, em “Sonhar”, um mundo em guerra: “Guerra nos encerra / O sonho acabou? Vidas, quantas levas? Se perderam / E se perderão.” Como se vê, trata-se de uma obra pacífica, um sonho bom numa tarde quente.

Talvez — quem sabe? — seja uma busca pelas manhãs nas quais a humanidade desperte djavaneada, sem ímpeto bélico nem falta de amor. Enquanto aguardamos esse remanso, o sujeito poético se revela atarantado com o que encontrou. “Ali já dava pra ver”, conta.

Aqui está um clássico da educação sentimental — uma adolescente de 15 anos apaixonada por um rapaz de 18. Para escrever “Falta Ralar!”, Djavan observou seus netos e, então, rascunhou uma poesia. Ei-la: “Com 15 sou mais madura / Quase com 18 você não dura.”

Com “O Escolhido”, Djavan nos eleva aos braços do amor. O narrador-personagem, amparado por acordes líricos, devota-se à amada. “O que quererás de mim?”, diz ele. Vem-lhe à memória: “Teus beijos sejam meus / E meu futuro enlace o teu / Pra tudo que for.”

Djavan sabe-se aprendiz no amor, embora o compreenda como “O Grande Bem”. Nessa faixa, o artista reconhece: “Machuca bem / Mas não quer mal.” Entre quedas e desatinos, nossas vidas são guiadas. Ouçam as faixas “Levei a Noite”, “Cetim” e “Um Brinde”.


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