‘Metralha’ beija a lona ao narrar altos e baixos do cantor Nelson Gonçalves
Redação
Publicado em 16 de novembro de 2025 às 16:13 | Atualizado há 7 meses
Lapa carioca: artista frequentou point da noite carioca nos anos 1940 - Foto: Divulgação
Marcus Vinícius Beck
Existe todo um ritual. A agulha, repousada, deixa a vitrola no ponto: “Naquela mesa ‘tá faltando ele / E a saudade dele ‘tá doendo em mim”. Nelson Gonçalves solta o gogó, com aquele vozeirão másculo, sabe?, aquele barítono etílico — você é tomado por um arrepio.
Nelson canta para seis gerações. Entrou, saiu e voltou à moda. Na vida, conheceu a glória e o fracasso: logrou sucessos, padeceu nas ruínas e zarpou da sarjeta. Essa história, demasiada humana, é revisitada no livro “Metralha: A Vida de Nelson Gonçalves em Quadrinhos”.
Prestes a chegar às livrarias pela MMarte editora, “Metralha” será lançado na próxima quarta, 19, véspera de feriado, no Bar Glória, Setor Sul, em Goiânia. O evento começará às 19h.
Diante de tão boa notícia, puxo aqui o lero-lero, nossa resenha gutemberguiana, para informar ao leitor o seguinte: a HQ caleidoscopiou episódios épicos e dramáticos. Logo, você haverá de compreender a dimensão cultural desse professor sentimental das massas.

O roteiro é assinado pelo artista Márcio Paixão Jr., com pesquisa do jornalista Cristiano Bastos (ex-Rolling Stone e Bizz) e arte do veterano Fábio Cobiaco (bravo colaborador da Chiclete com Banana). Em 124 páginas, o livro perfila o mítico cantor gaúcho.
Márcio Jr. lembra que a concepção da obra surgiu em 2017, com um convite do seu camarada Cristiano Bastos. “Mesmo não sendo um profundo conhecedor da obra desse indiscutível Rei do Rádio, sempre fui mesmerizado por sua personalidade irascível”, diz.
Para o roteirista, Bastos, ex-Rolling Stone e Bizz, é um dos últimos representantes de um ofício em extinção, o jornalismo cultural. É afeito, conta, à grande reportagem com linguagem gonzo — estilo consagrado nos Estados Unidos por Hunter S. Thompson.

“Escreveu algumas das matérias mais cabulosas publicadas nas páginas da Rolling Stone Brasil, entre elas um perfil alucinante do Metralha”, revela Jr., declarando que o jornalista se viu fisgado pelo carisma do cantor. Tornou-se uma referência (alucinada) em Nelson.
Ainda assim, o grupo pensou em jogar a toalha. “Se o próprio Nelson jamais deixou de se reerguer após beijar a lona, era uma questão de honra levar a peleja para o próximo round”, diz Márcio Jr. “E a solução milagrosa veio das mãos de outro peso-pesado: o caiçara da Praia Grande, Fábio Cobiaco”, relata. Ainda bem: “Metralha” é, no mínimo, caudaloso.
Além da história em quadrinhos, a obra presta um serviço pedagógico ao leitor: lista os dez discos essenciais de Nelson Gonçalves. Na era do rádio, dos boletos e dos sambas-canção, ensinou que apenas o chifre nos humaniza. Democratizou a cornitude, a paixão tórrida.

Sucesso
Em 50 anos de carreira, vendeu 80 milhões de discos, deixou 2 mil registros fonográficos, 183 discos de 78 rotações, 100 compactos, 200 fitas cassete e 127 LPs. Tudo isso fica ainda mais admirável se inserido no horizonte de uma vida de altos e baixos — com tons dramáticos.
As mulheres lhe floriram o caminho — de ternura, meiguice e carinho, como na canção “A Volta do Boêmio”, que agora me sopra aos ouvidos enquanto batuco na lauda jornalística.
Morto em 1998, aos 78 anos, no Rio, Nelson sofreu em vida. Gago — daí o apelido Metralha —, foi garçom (no bar do irmão, em São Paulo), campeão paulista de boxe (peso-médio), cafetão (na Lapa carioca) e viciado em cocaína (ficou um mês em cana, em 1966).
Sua extensão vocal fabricou reações inesperadas. Frank Sinatra o elogiou, em 1961, quando subiu ao palco do Radio City Music Hall, em Nova York. Nos anos 1970, com “Naquela Mesa”, de Sérgio Bittencourt, chegou ao primeiro lugar nas paradas da… Bélgica.

“O Brasil é um país sem memória”, dizia o cantor gaúcho. “Alguém lembra de Francisco Alves? Quando morrer, eu quero ser cremado para não fazerem xixi na minha tumba.”
De acordo com Márcio Jr., não há problema nisso. “No que depender da gente, a memória do Metralha seguirá viva por muito tempo”, afirma o roteirista, cujo trabalho que publica oferece uma visão polifônica de um personagem vital para o cancioneiro popular.
Antônio Gonçalves Sobral, como foi batizado, nasceu em Santana do Livramento (RS), na fronteira com o Uruguai, em 21 de junho de 1919. Embora gaúcho, formou-se na capital paulista. O pai, Manuel, cantava e tocava violão em cabarés — e o filho, é claro, o seguia.
Até a vida adulta, Nelson engraxou sapatos, entregou jornais, foi mecânico. No bar de seu irmão, à base de uma certa malandragem (embolsava parte de algumas contas), juntou o dinheiro que lhe proporcionou meter o pé na estrada. Estabeleceu-se no Rio de Janeiro.

De cara, aproximou-se do compositor Herivelto Martins. Sozinho, no entanto, criou “Pensando em Ti”. Em parceria com Davi Nasser, fez o samba-canção “Caminhemos” e o tango “Carlos Gardel”. Ampliou, nos anos 1950, o leque de parceiros com Adelino Moreira.
A despeito das formas modernas de interpretação — das ciciadas bossanovistas aos uivos roqueiros —, Nelson Gonçalves manteve-se em alta com seu barítono das antigas. A vitrola, serena, ecoa a música “Meu Vício é Você”: “Eu quero esse corpo que a plebe deseja”.
No toca-discos, Nelson roda — como fez até 1998 — enquanto “Metralha: A Vida de Nelson Gonçalves em Quadrinhos” revela que a música, afinal, viverá na HQ. Brindemos.