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Jimmy Cliff impactou música produzida nas últimas décadas

Redação Online

Publicado em 24 de novembro de 2025 às 21:20 | Atualizado há 8 meses

Cliff dizia que revoluções sonoras compunham independência da Jamaica
Cliff dizia que revoluções sonoras compunham independência da Jamaica

Marcus Vinícius Beck

O cantor Jimmy Cliff, morto nesta segunda-feira (24/11), aos 81 anos, marcou a música produzida nas últimas seis décadas. Por expandir o alcance do reggae, tornou-se lenda do gênero ao mesmo tempo em que via as mudanças políticas numa Jamaica beligerante.

Em entrevistas, dizia que o novo som acompanhava a independência do país, colônia da Inglaterra até 1962. A música da época, segundo Cliff, era o acelerado ska: expressava o espírito dos jamaicanos, tipo “conquistamos a independência”, contou à Folha de S. Paulo.

Depois disso, ele explicava, o tempo se desacelerava — era o rocksteady. “Dizíamos: ‘Que independência é essa? Não somos independentes! Nada melhorou [no país]’”, constatava James Chambers, nascido em Saint James, no noroeste da ilha caribenha, em 1944.

O apelido Cliff aludia às alturas que almejava. “Mas sabe como certas camadas da população enxergam o mundo do reggae, não? Se você fala em ‘altura’ ou ‘alto’, entendem outra coisa”, revelou à Rolling Stone, referindo-se à gíria usada para fazer a cabeça com cannabis sativa.

Aos 14, mudou-se para Kingston, capital da Jamaica. Foi matriculado numa escola técnica, mas o jovem Cliff passava seu tempo trancafiado em estúdio de gravação. Ao gravar um disco pela primeira vez, lembrava, recebeu um xelim. “Os Wailers tiveram mais sorte”, dizia.

Começo

No Studio One, o mítico grupo jamaicano galgava duas libras por semana. Cliff, por sua vez, ganhava menos: “Mandavam-me embora com um gesto de mão: ‘Pronto, garoto, vá pegar seu ônibus.’ Depois, conheci o produtor Leslie Kong. Era decente, então fiquei com ele.”

Cliff lançou seus primeiros singles na primeira metade dos anos 1960. “Hurricane Hattie”, o primeiro deles, saiu em 1962. Na sequência, fez dois clássicos: “Miss Jamaica” e “Gold Digger”. Embarcou, pouco tempo depois, para o Reino Unido, onde ficou amigo de Pete Townshend, guitarrista do The Who, e de Robert Plant, futuro vocalista do Led Zeppelin.

Em 1967, Cliff — que três anos antes chamara atenção da gravadora Island Records — colocou para rodar o disco “Hard Road to Travel”. O LP trazia influência do funk e soul estadunidenses. Segundo o jamaicano, a obra faria mais sucesso do que Beatles e Stones.

Não rolou, é claro. Ainda assim, o álbum trouxe Cliff ao Brasil pela primeira vez. Criou, de cara, forte relação com o país: participou do Festival Internacional da Canção, excursionou com Gilberto Gil e publicou “Jimmy Cliff in Brazil” — no qual relê músicas brasileiras.

Virou paixão: Cliff veio ao Brasil pela primeira vez nos anos 1960 para participar de festival – Foto: Divulgação

Além disso, tocou com os Titãs — em cujo “Acústico MTV” canta no reggae “Querem Meu Sangue”. À Folha de S. Paulo, o artista declarou: “Vocês fazem músicas com muitos acordes e ainda assim elas soam simples. Quando ouvi a batucada do samba na Bahia, enlouqueci.”

Sobre Cliff, o cantor Gilberto Gil limitou-se a dizer: “Jimmy Cliff influenciou e seguirá influenciando minha música. Obrigado por tanto.” Os Titãs também homenagearam o reggaeman: “Hoje a gente perde também um pedaço importante da nossa história.”

Ao morar no Brasil, Cliff dividiu-se entre o Rio de Janeiro e Salvador, onde nasceu sua filha Nabiyah Be, em 1992. Ela veio ao mundo do amor entre o músico e a psicóloga Sônia Gomes, a quem conheceu durante uma cerimônia de ayahuasca à beira da praia, na capital baiana.

Dois anos depois de “Hard Road to Travel”, Cliff entrou em estúdio para produzir seu LP homônimo — renomeado, tempos depois, para “Wonderful World, Beautiful People”. O disco reúne composições que levaram o reggaeman ao sucesso e o fizeram estrela mundial.

Sucesso

“Wonderful World, Beautiful People” traz o hino anti-guerra “Vietnam” e uma de suas canções mais famosas, “Many Rivers to Cross”. Na década seguinte, remodelou “Wild World”, de Cat Stevens, e também “You Can Get It If You Really Want”, de sua lavra.

Sob os holofotes, Cliff foi convidado pelo cineasta Perry Henzell a fazer um filme sobre os rude boys de Kingston. À Rolling Stone, em 2019, rememorou: “Henzell disse: ‘Acho que você é um ator melhor do que cantor.’ Pensei: ‘Nossa! Porque eu acho a mesma coisa.’”

O filme, sem surpresa, tornou-se sucesso. Em 1975, Cliff cantou no programa televisivo “Saturday Night Live”, nos Estados Unidos, e buscou a ancestralidade africana. Na época, Bob Marley já disseminava pelo mundo sua mensagem pacífica e esperançosa.

“[Marley] foi um artista que eu introduzi no ramo e que se tornou talvez a figura mais fenomenal [do reggae]”, dizia Cliff. Foi ele, por sinal, quem fez a primeira audição de Marley em estúdio, em 1962, para a gravadora Beverley’s, sob o comando do produtor Leslie Kong.

Cliff afirmava que tinha as mesmas “aspirações, espíritos e pensamentos revolucionários” que Bob Marley, embora se reconhecesse “um pouco solitário” – Foto: Divulgação

A respeito do conterrâneo, recordava-se: “Embora tivéssemos aspirações, espíritos e pensamentos revolucionários semelhantes, eu sou um pouco solitário, e ele amava todas as pessoas.” Em sua carreira, colaborou com os Rolling Stones e Joe Strummer, do The Clash.

Cliff recebeu, em 2003, a Ordem de Mérito da Jamaica — só ele e Marley, entre músicos, têm tal honraria. O então primeiro-ministro do país, Andrew Holness, afirmou, na ocasião, que o artista era “um gigante cultural cuja música levou o coração da nossa nação ao mundo”.

Para Holness, Cliff colocou a história jamaicana em suas canções “com bastante honestidade e alma”. “Sua música elevou as pessoas em tempos difíceis, inspirou gerações e ajudou a moldar o respeito global que a cultura jamaicana desfruta hoje”, declarou à época.

A morte de Jimmy Cliff foi comunicada por sua família em nota oficial publicada nas redes sociais. De acordo com o texto, assinado por sua esposa, Latifa, e pelos familiares Lilty e Aken, Cliff faleceu após convulsão causada por complicações de uma pneumonia.

Foto: Divulgação


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