Érico Rassi, de ‘Oeste Outra Vez’, faz história ao vencer prêmio da APCA
Redação
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 19:49 | Atualizado há 4 meses
Érico Rassi dirigiu longa “Oeste Outra Vez”, que brilhou no Festival de Gramado
O cineasta Érico Rassi venceu na noite de segunda-feira (26/1) o prêmio de melhor diretor da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). No último ano, Rassi foi elogiado por seu trabalho no western goiano “Oeste Outra Vez”, que questiona a masculinidade tóxica.
Disponível no Globoplay, o longa venceu o Kikito de filme no Festival de Gramado em 2024. Chegou ainda a ser pré-selecionado pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil no Oscar, ao lado de “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro, e “Baby”, de Marcelo Caetano.
Nenhum dos dois foi escolhido: “O Agente Secreto” ficou com essa. Afinal de contas, a produção dirigida por Kleber Mendonça Filho acumulara em 2025 uma fortuna crítica, com reportagens nos principais jornais do mundo, prêmios e aplausos em Cannes. Era esperado tê-la em Hollywood.
Mesmo assim, o cinema produzido em Goiás ganhou uma visibilidade até então inédita. Fez ecoar por meses a frase da produtora Cristiane Miotto, em Gramado (RS), quando disse ser necessário que o dinheiro e os recursos tecnológicos chegassem aos realizadores locais.
Para ela, não há cinema sem incentivo. “Acho importante dizer que, para o cinema fora do eixo, o cinema do Centro-Oeste, o cinema tão pulverizado do Brasil continuar acontecendo, nós precisamos de políticas públicas”, destacou a produtora, durante o Festival de Gramado.
Originalidade
Na perspectiva conceitual, “Oeste Outra Vez” consegue a originalidade. Muito já se filmou e ainda haverá de filmar obras sobre masculinidade tóxica, mas não é fácil assistir a um filme que discuta tal temática de forma aguda e concisa, para usar termos da crítica Maria Caú.
A fotografia semiárida, o ímpeto da vingança, a ignorância do machismo: tudo isso está lá. Diante da câmera e suas cores de velho oeste, a Chapada dos Veadeiros emerge como abrigo para tipos esvaziados e de comportamento primitivo. São seres amargurados, esses infelizes.
Há que se destacar o trabalho com as imagens feito pelo artista André Carvalheira. É o cara por trás dos enquadramentos que enfatizam a paisagem árida do Cerrado, a paleta terrosa, os planos abertos e os closes contidos. Aliás, Carvalheira obteve o Kikito de fotografia.
Durante o filme, Totó (Ângelo Antônio) e Durval (Babu Santana) se bestializam no seio do machismo. Revelam-se homens brutos, insensíveis, que não conseguem compreender suas fragilidades. São incapazes de lidar com o ciúme, demonstrar sensibilidade ou sutileza.
Assim, sobra-lhes o vazio existencial do sexismo. Só há uma aparição feminina na película: Tuanny Araújo, como Luiza. Sua personagem acha uma idiotice a briga entre os machões que tentam disputá-la. Totó, após um pé na bunda, se volta contra Durval, sujeito rude.
Totó, inclusive, apoia seus dramas e conflitos em Jerominho (Rodger Rogério). É um homem simples, trabalhado na lida do campo, ex-capataz promovido a jagunço. Rogério, que atuou em “Bacurau”, recebeu o Kikito de ator coadjuvante. Só elogios a “Oeste Outra Vez”.
Como observou Miotto, os homens representados em “Oeste Outra Vez” são familiares a todos. A cerimônia de entrega será realizada em maio, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.
Foto: Edison Vara/Agência Pressphoto