Brasil

Letalidade policial bate recorde em São Paulo no fim de 2025

Léo Carvalho

Publicado em 7 de fevereiro de 2026 às 10:53 | Atualizado há 5 meses

Atuação de batalhões especializados da PM concentrou parte das mortes provocadas por policiais no último trimestre de 2025 | Foto: Agência O Globo
Atuação de batalhões especializados da PM concentrou parte das mortes provocadas por policiais no último trimestre de 2025 | Foto: Agência O Globo

Por Túlio Kruse – Folhapress

O aumento na quantidade de mortes provocadas por policiais no estado de São Paulo de outubro a dezembro de 2025, trimestre que registrou o recorde da letalidade policial desde 1996, com 276 casos, foi puxado por ações da Rota e dos Baep.

Esses batalhões, que recebem treinamento especializado no combate a grupos armados e são considerados tropas de elite dentro da Polícia Militar paulista, envolveram-se em ocorrências que terminaram em mortes não apenas com maior frequência, mas também em um número maior de municípios.

A ampliação nos territórios que registraram ações letais da polícia foi mais intensa no interior paulista, mas também ocorreu na região metropolitana de São Paulo. No mesmo período, o estado registrou 2.527 vítimas de assassinato em 2025, o menor patamar da série histórica iniciada em 2001, com média aproximada de um caso a cada três horas e meia.

Rota atira para matar

Conhecida pelo alto índice de letalidade, a Rota foi o batalhão da PM que mais matou no ano passado. Em 2025, 67 mortes envolveram agentes do batalhão, sendo 17 entre outubro e dezembro. A maioria dos casos ocorreu com policiais em serviço, enquanto quatro mortes foram provocadas por agentes de folga.

Além disso, sete Baep ficaram entre os dez batalhões que mais mataram no último trimestre do ano. Entre eles, destaca-se o 10º Baep, com sede em Piracicaba. O número de mortes provocadas por policiais que atuam no batalhão cresceu de 11 em 2024 para 40 em 2025.

O Baep de Piracicaba exemplifica a expansão das ações letais da PM para novos municípios. Em 2024, o batalhão se envolveu em ocorrências com mortos em cinco cidades. Em 2025, as 40 mortes foram registradas em 14 municípios diferentes.

A maior parte dos casos ocorreu em Rio Claro, com sete mortos, e Hortolândia, com seis mortos. Todas as ocorrências foram registradas em serviço, em ações oficiais da PM. Os dados são do Gaesp, do Ministério Público de São Paulo, único órgão que divulga a letalidade policial por batalhão da PM.

Governo omite dados

Embora publique informações como geolocalização e perfil das vítimas, a Secretaria de Segurança Pública do governo Tarcísio de Freitas, do Republicanos, não informa a unidade envolvida em cada morte decorrente de intervenção policial. Há pequenas discrepâncias entre os dados da pasta e os do Ministério Público, atribuídas a possíveis erros pontuais nas bases.

Enquanto Piracicaba e Rio Claro apresentaram quedas nos registros de homicídios dolosos entre 2024 e 2025, Hortolândia registrou aumento, passando de 13 para 15 casos. A região de Piracicaba, considerada de forma geral, teve redução nos assassinatos, segundo a secretaria estadual.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, Rota e Baep atuam em operações sensíveis, de alta complexidade e risco, com integração a setores de inteligência, o que influencia a letalidade das ocorrências. Em nota, a pasta afirmou que esses fatores, somados à intensificação do combate a facções criminosas com atuação no estado, influenciam o tipo de ocorrência enfrentada pelas equipes.

A secretaria informou ainda que todas as ocorrências com mortes são investigadas de forma independente e que mais de 1.200 agentes foram presos, demitidos ou expulsos das corporações por desvios de conduta desde 2023. Também afirmou que o patamar atual de mortes provocadas por policiais é menor do que o registrado nos três primeiros anos da gestão anterior, de João Doria.

Faltam políticas de controle

Para o sociólogo Rafael Rocha, coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, há indícios de que o enfraquecimento de políticas de controle do uso da força policial influenciou a trajetória de aumento da letalidade desde o início do mandato de Tarcísio, em 2023.

Ele cita a mudança nas regras de acionamento das câmeras corporais da PM e o declínio da atuação das Comissões de Mitigação de Riscos, grupos formados por oficiais da corporação que analisavam detalhadamente cada ocorrência com morte no estado.

Rocha ressalta, porém, que o último trimestre de 2025 apresentou um aumento atípico das mortes provocadas por policiais e que ainda não há informações suficientes para compreender plenamente o que ocorreu no período.

“É um movimento oposto ao que ocorreu no último trimestre de 2024, que teve uma série de casos de violência policial, do jovem estudante assassinado pela polícia dentro de um hotel ao rapaz arremessado de uma ponte, o que gerou resposta pública”, afirmou o pesquisador.

Ele não descarta que mudanças na atuação do crime organizado expliquem o aumento das mortes provocadas pela polícia em algumas cidades, especialmente na região de Piracicaba, onde autoridades relatam confrontos entre criminosos ligados ao PCC e ao Comando Vermelho. Segundo Rocha, essa explicação não se aplica a todo o estado.

Novo cangaço

Sobre os Baep, o pesquisador lembra que os batalhões passaram por rápida expansão durante o governo Doria, com foco no combate aos crimes do chamado novo cangaço, assaltos a bancos com alto grau de violência em cidades do interior.

A proposta era criar batalhões nos moldes da Rota, com treinamento tático semelhante ao dos grupos especializados da capital, armamento pesado e viaturas com melhor estrutura, distribuídos pelo interior paulista. Para Rocha, com o declínio desse tipo de crime, os Baep passaram a atuar em contextos distintos da demanda predominante da maioria dos municípios, onde o policiamento comunitário tende a ser mais adequado.

Já o coronel da reserva Benedito Meira, comandante-geral da PM entre 2012 e 2015, atribui o aumento da letalidade policial a uma mudança no comportamento dos criminosos, que estariam promovendo mais confrontos com policiais.

Segundo ele, o fortalecimento financeiro das facções criminosas, impulsionado pelo tráfico de drogas, permite maior investimento em armamentos pesados, o que resulta em mais enfrentamentos letais com a polícia.

“Às vezes uma ocorrência simples, um assalto comum, tem um confronto provocado pelo assaltante e termina com letalidade. Está ocorrendo uma banalização da violência”, afirma Meira. “Nas cidades mais ricas do interior, onde circula mais dinheiro, o crime organizado está mais fortalecido financeiramente por causa da venda de drogas.”


Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia