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Ella Pessoa engendra atmosfera sutil em EP que lança neste sábado (28/2)

Redação

Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 21:47 | Atualizado há 3 meses

Marcus Vinícius Beck

Você começa a ouvir sons inspirados na natureza. Aos poucos, a pressa mirra. A música quer outro ritmo, outra síncope. Há uma saudade que se revela antes mesmo da melodia.

No som, o baixo sussurra frases graves, enquanto o violão dança ao ritmo dedilhado. É samba esquema, é bossa nova, é memória. São os “Sentidos”, para evocar a primeira canção do EP “Sensorial”, lançado neste sábado (27/2) nas plataformas pela cantora Ella Pessoa.

Entre tons e versos, a primeira faixa engendra atmosfera sutil. Soa-nos um convite para que desaceleremos, sintamos aquele corpo e o conectemos ao presente, como se dialogássemos com a tradição da música brasileira e, ao mesmo tempo, acenássemos ao contemporâneo.

“As faixas transitam por ritmos brasileiros como ijexá, xote e bossa nova, costurados por arranjos delicados e orgânicos, com sutis camadas de pop music”, explica a cantora, cuja obra foi produzida com recursos do Edital de Música da Política Nacional Aldir Blanc.

Gravado entre Goiânia e Pirenópolis, o EP estabelece novo momento na trajetória artística da musicista, artista visual e dançarina. Foi desenvolvido ao longo de cinco anos, desde que Ella trocou a capital pelo histórico e pacato município durante a pandemia de coronavírus.

Agora você fecha os olhos e, ao fundo, escutando o farfalhar da melodia e o murmúrio das notas, compreende a nuance timbrística. Sensibiliza-se e até encontra prazer nas miudezas do cotidiano, no café coado e no instante. A sutileza, aqui, é cantada em inglês e português.

Solte a voz

Então Ella, mesmo nome da diva jazzy Ella Fitzgerald, solta a voz. “Vem cá, me conta o que é que faz o som mexer com seu sentido”, murmura. Aqui estamos, vivenciando a poesia cantada: “Memória no corpo, a mente não entende. Nem pense no que o outro possa achar.”

O som apresenta-se orgânico — rufa-se a percussão, aflam-se os sopros e tocam-se as cordas. Para Ella, os arranjos criam atmosfera que equilibra leveza, movimento e profundidade, algo próprio da mistura sonora que se produz país afora nesta terceira década do século 21.

“[É um] convite tanto à escuta atenta quanto ao balanço do corpo”, diz a cantora, afirmando ser a arte espaço de cura, presença e conexão. Desde o início de sua trajetória, a compositora desenvolve pesquisa musical marcada pela conexão entre natureza, corpo e espiritualidade.

Pois ouçamos Ella. E depois, bem, depois fiquemos a zero — sem a canção, sem o lado A, sem o lado B. Sem nada, digamos. Porque viver, ora, tem disto: de vez em quando, entre pensamentos e angústias, fica-se a zero. Daí, restam-nos os sons. A voz arrepiando a pele.

Após estudo, Pirenópolis inspirou criação autoral

Cantora apresentou parte de repertório durante Canto da Primavera – Foto: Rafaella Pessoa

Graduada em Artes Visuais pela UFG, Ella Pessoa iniciou-se na música em 2020. Nessa época, quando se estabelecia em Piri, ela se aprofundou no estudo de canto, composição e práticas corporais. Foi em Piri que lhe apareceu a inspiração para a criação musical autoral.

No ano seguinte, em 2021, Ella lançou seu primeiro single: “Passarado”. A canção, construída em parceria com o instrumentista Sarará Santos, marcou-lhe a estreia nas plataformas digitais. A partir de então, a compositora escreve sobre natureza, corpo e afetos.

Seu lance é, por assim dizer, integrar sons, corpos e ecologia. Essa tríade foi apresentada no último Canto da Primavera, com banda formada apenas por mulheres. No show, o público assistiu a canções autorais e releituras de obras conhecidas do cancioneiro brasileiro.

Assobios

Chegamos a “De Manhã”: o violão assobia o lirismo da lembrança. Ella Pessoa vocaliza: “Vai esquecer tudo e vai/ esquecer que falou/ que por mim era louco.” Poucos versos depois, ela trova: “Cai na água desse mar e vai pela América do Sul.” A música embala nossa gente.

Assim, a vida dá sinal. “Vai que a loucura que tenho agora em mim por te querer na hora errada. Vai que eu só quero tentar esquecer da tua mão nas minhas costas de manhã”, entoa Ella, na segunda faixa do EP “Sensorial”. A voz reverbera intensidade, delicadeza e calma.

Tudo isso se manifesta nos arranjos da contrabaixista Rayssa Almeida, que os assina com Ella. A percussão, aveludada, ressoa nas mãos de Letícia Romano. A flauta transversal, por sua vez, ganha os tons de Luiza Barbo, além das participações de Lucas Barbosa no violão.

No entanto, o timbre metálico do trombone de André Luiz manifesta brilho. “Passarado”, entre o batuque e os suspiros, encaixa a métrica verbal cerratense em acordes agudos. Você lembra de certas sensações, de certos toques; você escuta a faixa uma, duas, três vezes.

Você passa para “Soul Alive” e, de cara, você se pega a balançar: suingue. Aí surge a dúvida: quando haverá um show de lançamento? Ella Pessoa garante que será em março, em Piri. Até lá, sobra-nos esta opção: ouvir essa integração de música, imagem e movimento.


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