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Wander Wildner repassa carreira no Shiva neste domingo (8/3)

Redação Online

Publicado em 7 de março de 2026 às 12:49 | Atualizado há 5 meses

Músico inventou estilo de tocar e compor nos anos 1990 - Foto: Fernanda Chemale/ Divulgação
Músico inventou estilo de tocar e compor nos anos 1990 - Foto: Fernanda Chemale/ Divulgação

Marcus Vinícius Beck

Tem um ritual. Volume alto, esquina dobrada, a música ecoará pela noite: “Você sempre surge em minha mente.” Wander Wildner, 66, arrastará a voz — “sempre você e ninguém mais”.

Se calhar, amigo, é o melhor show da cidade. Aqui vai esse punk-brega, andando sozinho e apaixonado, bebendo vinho e sem seu cachorro Vênus. O eu lírico não consegue ser alegre o tempo inteiro. Lamenta-se: “é de você que eu me lembro. Sempre você e ninguém mais.”

Agora confessa. “Eu tento e não consigo”, diz, na música “Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro”, de 2004. “Então às vezes quando a noite chega/ Eu fico só comigo mesmo.”

Não se trata de uma superprodução, vou avisando. Mas de um homem-guitarra. W.W., que lança o disco “Diversões Iluminadas”, circula pelas memórias do subterrâneo amoroso, neste domingo (8), às 20h, no Shiva Alt-Bar. Quer dizer, o cara tá em outra. Não é só amor, não.

Quando o lance era new wave, nos anos 1980, o gaúcho estava nos Replicantes. A banda é seminal para o punk brasileiro. Nos 90, enquanto escrevia o release de seu primeiro disco solo, cunhou a ideia “brega-punk”. Por anos, personagem e persona eram indissociáveis.

Em Goiânia, W.W. chega assistido por Clauber Scholles e Rika Barcellos. O repertório, diz o trovador, traz faixas gravadas no último disco, como “Redemption Song”, de Bob Marley, e “Sangue Latino”, dos Secos & Molhados. Até Ramones, “I Believe in Miracles”, vai rolar.

Segundo Wildner, “Diversões Iluminadas” é um de seus melhores trabalhos. Foi produzido por Rust Machado e, graças à sintonia entre os dois, inflama os nossos ouvidos. De Echo & the Bunnymen a Novos Baianos, o material expõe a formação estética do bardo gaúcho.

Homem-guitarra: músico sobe ao palco com seu instrumento – Foto: Divulgação

Na estrada

Quase tudo é passageiro na vida do velho beatnik. Qual o vagabundo iluminado Jack Kerouac, Wildner viajou sozinho. Muitas vezes de ônibus. Já chegou a formar suas bandas onde tinha agenda, quando não tocava sozinho ou ficava de papo com os fãs pela noite.

Paraquedista do coração, W.W. pensa: soltar a voz para milhões? Não. Ele pluga, toca e canta. Assim é o seu trabalho, é isso que você deve esperar no Shiva — toda a decepção sentimental se dissipará no Setor Oeste, cruzamento da Alameda das Rosas com a Rua 18.

Só o lirismo nos salva, amigo. Wildner, uivando pra desilusão, decide espalhar o amor. O amor e suas dores. “Ando bebendo demais, você já me disse/ Eu sei que ando caindo no chão/ E que isso causa uma má impressão”, sopra-me o bardo, enquanto teclo estas notas.

No fim, o músico quer que as músicas sejam positivas. Explicou ao jornalista Xico Sá: “Eu falo: ‘Eu vou fazer um iê-iê-iê’. É isso aí. Não é pra morrer de amor.” Então, por obséquio, não estranhe: o nosso brega-punk se colocará naquela velha camiseta que diz “eu te amo”.

“Parece uma grande bobagem/ Mas é o que eu sinto/ Quando estou voando”, confessa Wildner, estirado no divã da saudade. “Eu fico pelado no quarto vendo a sua foto/ Parece uma grande bobagem/ Mas é o que eu faço quando estou de porre/ E eu tô de porre.”

Na revista “Rolling Stone”, o jornalista Ademir Correa traçou uma linha temporal: “a fase Waldick-Soriano-encontra-Joe-Strummer compreende discos feitos entre 1996 e 2005.” É quando saem “Buenos Dias”, “Eu Sou Feio & Mas Sou Bonito” e “Paraquedas do Coração”.

‘Baladas Sangrentas’ consagrou alcunha brega-punk

Eis as “Baladas Sangrentas”. Lançado em 1996, o disco embalou a iniciação lisérgica & sentimental deste locutor brega-punk. A vida me esvaziou, as esperanças eram frias e um dia, “I’m a lonely boy” total, encontrei a mulher com quem eu sempre sonhara.

Com “Ganas de Vivir”, Wildner deslizou para dentro dos anos 2000. Falava um portunhol selvagem, safado. Talvez não se aceitasse o nosso desterro idiomático na América Latina. Assim, fez “La Canción Inesperada” e seguiu “Caminando y Cantando”.

Até que Wander Luiz Wildner cansou-se do Wander Wildner. “Ficou muito o cara do punk-brega”, disse à “Rolling Stone”, em 2008. Saía do romantismo, essa forma intensa de amar. Muito tempo ouvindo Roberto Carlos, Jovem Guarda. Os relacionamentos iam mal.

O Brasil ia mal. No disco “Existe Alguém Aí”, o artista deixou pra lá o amor. “Naquela Noite Ela Chorou”: “Ela percebeu que a maioria não queria o que ela queria/ Ela percebeu que a maioria não via o que ela via.” A democracia acontecia, mas o resultado era devastador.

Capa foi desenhada pelo artista gaúcho Allan Sieber — Foto: Divulgação

Olívio Dutra (PT) não conquistou vaga para o Senado, em uma disputa vencida por Lasier Martins (Podemos). Dois mil e quatorze, de fato, não foi fácil: o resultado eleitoral no Rio Grande do Sul entristeceu a personagem da canção, lançada no disco “Existe Alguém Aí”.

Desta vez, W.W. escrevia sobre o contexto político. De repente, como que embalado pelas suas reflexões, passou a crer que o rock seria antiquado. Na imprensa, afirmava gostar de David Bowie e The Beatles, artistas que, segundo o gaúcho, se reinventaram dentro do estilo.

Aos 66 anos, Wildner não bebe mais. Prefere estudar física quântica, levar sua obra adiante e evoluir a consciência. Define-se ex-punk, ex-brega, ex-folk. No entanto, segue partilhando suas “canções iluminadas de amor incondicial”. Basta ler “As Aventuras de um Punkbrega”, editado pela Yeah Discos Livros & Bugigangas. As ilustrações são de Allan Sieber.

“Mick Jagger é meu Jesus Cristo/ Ele me acorda de manhã/ E me coloca pra dormir/ Eu não preciso de mais ninguém”, canta W.W., na música “John Lennon Is My Jesus Christ”. “Jimi Hendrix é meu Allan Kardec/ Com sua guitarra flamejante/ Ele ilumina meu caminho.”


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