Economia

Páscoa 2026: cacau cai no campo, mas ovos de chocolate sobem até 26% nas prateleiras

Léo Carvalho

Publicado em 27 de março de 2026 às 09:48 | Atualizado há 2 meses

Choque climático e estoques antigos mantêm chocolates caros; alívio nos preços só é esperado em 2027 | Foto:  Instituto Fecomércio
Choque climático e estoques antigos mantêm chocolates caros; alívio nos preços só é esperado em 2027 | Foto: Instituto Fecomércio

Enquanto o preço do cacau no campo cai após a crise histórica de 2024, o consumidor brasileiro vai às prateleiras nesta Páscoa (5 de abril) e encontra ovos de chocolate até 26% mais caros em comparação ao ano passado. A aparente contradição esconde um mecanismo clássico do setor: a defasagem entre a matéria-prima e o produto final.

Em 2024, o cacau viveu um dos maiores choques de oferta da história. El Niño castigou as lavouras da Costa do Marfim e de Gana — responsáveis por 60% da produção mundial — e o preço da matéria-prima quase triplicou em dois anos, chegando a disparar 190% entre 2023 e 2025.

Em 2026, a situação se inverteu no campo: a Organização Internacional do Cacau (ICCO) projeta um superávit global de cerca de 200 mil toneladas, indicando recuperação da oferta. O cacau está mais barato para quem compra no campo, mas o chocolate nas prateleiras ainda carrega o custo da crise anterior.

Por que o preço não cai junto?

A indústria de chocolate compra cacau com três meses ou mais de antecedência, a preços combinados quando a matéria-prima ainda estava no seu pico. Isso significa que, mesmo com a alta interrompida hoje, os produtos que chegam às lojas nesta Páscoa foram produzidos com cacau comprado em 2024/2025, quando os custos eram astronômicos.

FatorExplicação
Defasagem industrialA indústria compra cacau com 3+ meses de antecedência a preços elevados de 2024/2025, então repassa o custo antigo ao consumidor.
Choque de oferta de 2024El Niño devastou plantações na Costa do Marfim e Gana (60% da produção mundial), fazendo o cacau quase triplicar em 2 anos.
Acúmulo inflacionárioChocolate em barra e bombons subiram 24,77% a 26% em 12 meses (IPCA/IBGE), acima da inflação geral de 4,44%.
CâmbioCacau é cotado em dólar e desvalorização do real pressiona preços no Brasil. ​

Fatores que pressionam o preço final

Além da defasagem industrial, outros elementos contribuem para o aumento:

  • Chocolate em barra e bombons subiram entre 24,77% e 26% em 12 meses, acima da inflação de 4,44%
  • Cacau cotado em dólar, com a desvalorização do real encarecendo o insumo
  • Oferta de ovos caiu 22,4% em 2025, com 45 milhões de unidades a menos no mercado
  • Algumas marcas reduziram a quantidade de cacau nos produtos

No Rio de Janeiro, ovos e barras estão 16% mais caros que no ano anterior, e consumidores buscam promoções para contornar a chamada “Páscoa salgada”.

Por que o chocolate fica mais caro mesmo com cacau em queda?

Expectativa de normalização futura

Especialistas apontam que a acomodação real dos preços deve levar tempo. Mesmo com o superávit de 2026, a indústria precisa recompor estoques e amortecer os custos passados antes de repassar quedas significativas ao consumidor. O primeiro repasse claro de preços menores é esperado apenas em 2027, sem garantia de redução expressiva imediata.

Produtores aproveitam retomada da rentabilidade

Enquanto os consumidores sentem o impacto, os produtores de cacau experimentam maior rentabilidade após anos de preços baixos. A recuperação da matéria-prima ainda está acima dos patamares pré-crise, mas a produção continua sensível a fenômenos climáticos como El Niño e La Niña, que podem voltar a impactar a oferta global.

Dicas para o consumidor nesta Páscoa

Especialistas recomendam:

  • Comprar com antecedência
  • Acompanhar promoções
  • Comparar marcas e tamanhos
  • Observar produtos com menos cacau, que tendem a ser mais baratos
  • Evitar compras de última hora

O paradoxo desta Páscoa de 2026 é evidente: o cacau cai no campo, mas o chocolate permanece caro nas prateleiras. A indústria ainda paga a conta da crise de 2024, e o consumidor sente no bolso. O alívio nos preços deve ser mais visível apenas em 2027.


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