O tamanho das coisas: por que medições moldam o mundo
Heloysa Camilo - Estágio DM
Publicado em 1 de abril de 2026 às 07:34 | Atualizado há 2 meses
Tamanho não é assunto frívolo, é documento histórico que explica energia | Foto: Reprodução
O resumo para quem vem em busca de respostas à pergunta clássica é que, sim, tamanho é documento. Sempre foi e continuará sendo, até o fim dos tempos. Só que não da forma marota que algum leitor possa estar imaginando, mas sim como documento histórico da evolução do mundo e da humanidade. É o que o cientista Vaclav Smil, 82, autor de mais de 50 livros e professor emérito distinto da Faculdade de Meio Ambiente da Universidade de Manitoba, em Winnipeg, no Canadá, busca provar com o recém-lançado O Tamanho das Coisas – Uma Explicação do Mundo (Intrínseca).
Não é de hoje que o tema intriga Smil, que já o abordou em várias de suas pesquisas e mais de 500 artigos, assim como em reflexões sobre energia, população, inovação e avanços tecnológicos. Para ele, os tamanhos estão sempre conosco, os comparamos, estranhamos e aplicamos vários sentidos nessa percepção. Valorizamos a simetria, e em tempos modernos tendemos a preferir tamanhos maiores.
A obsessão humana por medir as coisas, aponta o autor, é antiquíssima. Usamos unidades físicas reais ou modos implícitos, contrapondo alguém ou algo a um padrão ou a uma imagem mental. E fazemos isso não por capricho, mas porque tamanhos implicam nosso cotidiano de inúmeras maneiras: desde roupas e calçados que apertam até uma ferramenta difícil de manejar ou um degrau fora de padrão que atrapalha a redistribuição dos móveis em casa.
Em termos de expectativa sobre tamanhos, é essa percepção que é acionada nas situações do dia a dia. Para Smil, vivemos em um mundo rigidamente definido pelos tamanhos, quer isso nos deixe felizes ou chateados. Por isso seu livro é indicado tanto para amantes de números quanto para curiosos de toda natureza, inclusive os que detestam física e matemática.
Tamanhos que contam história e impacto
Por meio do livro, aprendem-se dados surpreendentes: a capacidade da maior usina hidrelétrica é hoje mais de 600 vezes maior do que em 1900; desde o início do século 20 a população da maior cidade cresceu 11 vezes, a Grande Tóquio soma hoje cerca de 37 milhões de habitantes, enquanto a economia americana cresceu quase 32 vezes no mesmo período.

Smil também investiga como os tamanhos aparecem na cultura e no design. Amamos tamanhos protagonizando clássicos como As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, e Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. No livro, ele faz uma investigação profunda da obra-prima de Swift, especulando sobre alturas e massas corporais dos personagens e até apontando supostos erros de cálculo discutidos anteriormente por cientistas como a bióloga Florence Moog.
O quarto capítulo aborda o tamanho aplicado ao design de vestuário, mobiliário, objetos pessoais, pé-direito de construções, equipamentos eletrônicos e bicicletas. Smil ressalta a importância de assentos de avião confortáveis e com bons tamanhos, e observa que a indústria da aviação vem gradualmente reduzindo o pitch médio (espaço para as pernas).
O autor também discute vantagens e desvantagens de ser alto nos dias de hoje: há estudos sobre possíveis relações entre altura e longevidade e entre altura e salários mais altos, mas também pesquisas que sugerem maior risco de câncer de mama entre mulheres mais altas (como uma coorte da Coreia do Sul envolvendo 23 milhões de pessoas).
Por mais que o livro seja por vezes entremeado por gráficos e fórmulas matemáticas, a linguagem de Smil é acessível, envolvente e frequentemente bem-humorada. Ele compara, por exemplo, rebanhos de ungulados na África e indústrias modernas de mídia eletrônica: “Tanto os gnus do Parque Nacional do Serengeti, Tanzânia, como o Google estão se saindo muito bem.”
As transições temáticas são suaves e as exemplificações enriquecem o leitor, que sai do livro mais informado sobre assuntos tão diversos quanto “Puppy”, a escultura vegetal de quase 13 metros de Jeff Koons no País Basco, e temas médicos como anorexia nervosa e transtorno dismórfico corporal. Um dos momentos mais peculiares é quando Smil reflete sobre como “o normal se tornou normal”, recontando a história do menino de 45 cm presenteado ao rei em 1626, exibido como curiosidade entre corpos extremos.
(Marcella Franco/Folhapress)