Produtora de filme sobre Bolsonaro recebe R$ 100 milhões da Prefeitura de SP
Léo Carvalho
Publicado em 10 de abril de 2026 às 10:39 | Atualizado há 3 meses
Mario Frias destinou R$ 2 milhões a ONG ligada a produtora do filme “Dark Horse” sobre Bolsonaro | Foto: Valter Campanato
Um conjunto de informações públicas e reportagens, incluindo apurações do The Intercept Brasil, aponta para a existência de uma rede de relações entre organizações, empresas e agentes políticos envolvendo o uso de recursos públicos por meio de emendas parlamentares e contratos administrativos.
Em 2025, o Instituto Conhecer Brasil (ICB) recebeu duas emendas de R$ 1 milhão cada, destinadas pelo deputado Mário Frias, filiado ao PL de São Paulo. Frias, que foi ministro durante o governo de Jair Bolsonaro, também é apontado como autor do roteiro do filme “Dark Horse” e participante da produção.
A cinebiografia, gravada em São Paulo no final de 2025, tem como protagonista o ator Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus em “A Paixão de Cristo”. O próprio ator divulgou o pôster oficial e informou a data de lançamento para 11 de setembro. A produção é em inglês e descrita como uma superprodução.
Bastidores de Dark Horse
Apesar disso, os dados apontam que a estrutura por trás do filme não é de uma produtora internacional, mas de uma empresa brasileira ligada a uma rede de organizações com atuação em eventos religiosos, projetos culturais e contratos públicos.
A estrutura apresentada relaciona o ICB à empresa Go Up Entertainment Ltda e à atuação de Karina Ferreira da Gama, que aparece como presidente de organizações e sócia-administradora em iniciativas ligadas à produção cultural e eventos. As empresas e ONGs ligadas a Karina estariam registradas no mesmo endereço, em um coworking na Avenida Paulista.
Além das emendas vinculadas a Mário Frias, há registros de repasses de outros parlamentares. Um dos casos menciona R$ 2,5 milhões destinados por Atilio Francisco e Milton Leite para um evento literário gospel. Outro aponta R$ 2 milhões em emendas de Frias para ações de inclusão digital e esporte.
Também são citados valores atribuídos a outros parlamentares, como Carla Zambelli, Marcos Pollon, Bia Kicis, Alexandre Ramagem e Gil Diniz, somando R$ 2,6 milhões para projetos descritos como série conservadora.
Outra organização associada a Karina, a Academia Nacional de Cultura, também aparece como destinatária de recursos públicos. Parte dos valores foi utilizada para eventos religiosos, incluindo o “Mega Dance Musical”, promovido pela Força Jovem Universal, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, além da feira “Connect Faith”, financiada por emendas parlamentares.
Wi-Fi mais caro do Brasil
No campo administrativo, o Instituto Conhecer Brasil firmou contrato com a Prefeitura de São Paulo para a instalação de pontos de Wi-Fi em comunidades de baixa renda. O valor total do acordo é apontado em cerca de R$ 108 milhões, sendo o maior contrato vinculado à rede de organizações.
Dados indicam que ao menos R$ 100 milhões foram pagos à entidade no âmbito desse projeto. Há também a informação de que R$ 26 milhões teriam sido repassados sem a execução correspondente do serviço. A contratação ocorreu por meio de licitação na qual apenas a ONG apresentou proposta, e o custo por ponto instalado é descrito como superior ao praticado anteriormente pelo município.
Antes desse contrato, o Instituto Conhecer Brasil não tinha atuação registrada no setor de telecomunicações, concentrando suas atividades na realização de eventos, principalmente religiosos. Entre eles, está o encontro literário IDE, realizado em 2018 com financiamento por emendas parlamentares.
Posicionamentos de defesas
Sobre o tema, a Prefeitura de São Paulo afirmou que considera inadequada qualquer associação entre as filmagens e o programa público de Wi-Fi, e declarou que a contratação ocorreu dentro da legalidade.
O Instituto Conhecer Brasil informou que seus projetos são executados de forma independente e que não financia iniciativas de outras organizações. A entidade declarou ainda que segue os termos contratuais, a legislação vigente e as diretrizes dos órgãos de controle.