Emoção da Copa do Mundo pode desencadear infarto e arritmias, alertam médicos
Aline Drumond - Estágio DM
Publicado em 30 de junho de 2026 às 16:55 | Atualizado há 3 horas
A combinação entre forte emoção e fatores de risco pode favorecer infartos e arritmias durante os jogos | Foto: Getty Images
A emoção de uma Copa do Mundo vai muito além da torcida. A expectativa antes do apito inicial, a tensão durante a partida e a explosão de alegria ou frustração a cada lance também provocam reações no organismo, principalmente no sistema cardiovascular. Embora essas alterações sejam temporárias para a maioria das pessoas, especialistas alertam que, em indivíduos com fatores de risco, o estresse emocional pode desencadear problemas graves, como arritmias, picos de pressão e até infarto.
Pessoas com hipertensão, diabetes, colesterol elevado, histórico de doenças cardíacas ou que fumam estão entre as que exigem maior atenção durante partidas decisivas. Nesses casos, a combinação entre forte carga emocional e condições pré-existentes pode representar um risco importante à saúde.
O cardiologista Carlos Bonasso Filho, médico do Ambulatório Geral de Cardiologia do Instituto do Coração da Faculdade de Medicina da USP, explica que situações de estresse intenso fazem o organismo liberar grandes quantidades de adrenalina e cortisol, hormônios responsáveis por preparar o corpo para reagir a uma ameaça.
Segundo o especialista, esse mecanismo acelera os batimentos cardíacos, eleva a pressão arterial e mantém o organismo em estado de alerta. Em pessoas predispostas, essa resposta pode ultrapassar os limites considerados seguros e favorecer o surgimento de complicações cardiovasculares.
O cardiologista Eugênio Moraes, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, reforça que a descarga de substâncias relacionadas ao estresse, como adrenalina e noradrenalina, pode provocar taquicardia, aumentar a pressão arterial e elevar a necessidade de oxigênio pelo músculo cardíaco.
De acordo com ele, o risco cresce ainda mais entre pacientes que apresentam placas de gordura nas artérias coronárias. Nessas situações, a forte emoção pode contribuir para a instabilidade dessas placas, favorecer sua ruptura e desencadear um evento coronariano agudo, como o infarto.
Hábitos durante os jogos também aumentam o risco
Os especialistas destacam que a emoção da partida não é o único fator que exige atenção. Mudanças de comportamento bastante comuns em dias de jogo também podem sobrecarregar o sistema cardiovascular.
Dormir menos, exagerar no consumo de bebidas alcoólicas, fumar mais do que o habitual e consumir alimentos ricos em gordura e sódio são atitudes frequentes entre torcedores e que podem potencializar os riscos para quem já apresenta problemas de saúde.
Carlos Bonasso Filho afirma que esses fatores não atuam de forma isolada. Segundo ele, seus efeitos acabam se potencializando e criam um cenário especialmente desfavorável para o coração.
O cardiologista explica que o excesso de sal favorece a retenção de líquidos e contribui para o aumento da pressão arterial. Já refeições muito gordurosas exigem maior esforço do organismo durante a digestão, enquanto o consumo excessivo de álcool pode desencadear arritmias. O cigarro, por sua vez, provoca a contração dos vasos sanguíneos, dificultando a circulação.
Na avaliação de Eugênio Moraes, os eventos cardiovasculares normalmente resultam da combinação de diversos fatores. Para ele, quando a carga emocional intensa se soma ao consumo de álcool, ao tabagismo, à hipertensão e a outros fatores de risco, aumentam as chances de complicações em pessoas mais vulneráveis.
Sintomas exigem atenção imediata
Embora seja comum sentir o coração acelerar durante um lance decisivo ou uma disputa de pênaltis, os especialistas ressaltam que nem toda palpitação representa um problema grave. Ainda assim, alguns sinais não devem ser ignorados e exigem avaliação médica o quanto antes.
Entre os principais sintomas de alerta estão dor ou sensação de aperto no peito, falta de ar intensa, suor frio, tontura, náusea, desmaios e palpitações que persistem mesmo após alguns minutos de repouso. Caso qualquer um desses sintomas apareça durante ou após a partida, a recomendação é procurar atendimento imediatamente.
Para quem já convive com hipertensão, arritmias, insuficiência cardíaca ou outras doenças cardiovasculares, os cuidados devem ser redobrados. Carlos Bonasso Filho reforça que interromper ou esquecer a medicação por causa da empolgação dos jogos pode trazer consequências sérias.
Segundo o cardiologista, manter o tratamento exatamente como foi prescrito é uma das medidas mais importantes para evitar complicações durante o período da Copa do Mundo. O especialista também recomenda evitar discussões acaloradas durante as partidas, principalmente entre pessoas muito ansiosas ou com histórico de problemas cardíacos.
Medidas simples ajudam a proteger o coração
Além de manter a medicação em dia, pequenas mudanças de comportamento podem reduzir o impacto do estresse provocado pelos jogos. Uma delas é controlar a respiração, inspirando lentamente por cerca de quatro segundos e expirando durante seis segundos. A técnica ajuda a estimular o nervo vago, responsável por diminuir a frequência cardíaca e favorecer o relaxamento.
Outra orientação é aproveitar o intervalo das partidas para levantar, caminhar alguns minutos e se afastar da televisão. A pausa ajuda a aliviar a tensão acumulada e reduz o tempo em que o organismo permanece sob forte carga emocional.
Os médicos também recomendam manter uma boa hidratação, evitar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, reduzir alimentos ricos em gordura e sódio e garantir uma boa noite de sono antes dos jogos. Para pessoas com maior risco cardiovascular, atividades físicas intensas durante partidas muito emocionantes também devem ser evitadas.
Os especialistas reforçam que qualquer sensação de mal-estar, aperto no peito, falta de ar ou perda de controle durante o jogo deve ser levada a sério. Se os sintomas não desaparecerem rapidamente, a orientação é interromper o que estiver fazendo e procurar assistência médica.
A Copa do Mundo desperta emoções intensas e faz parte da rotina de milhões de torcedores. No entanto, reconhecer os limites do próprio corpo e adotar cuidados simples pode fazer a diferença para acompanhar cada partida sem colocar a saúde do coração em risco.