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Gustavo Spínola lança disco em que vai “Do Acaso ao Cais”

Redação Online

Publicado em 7 de julho de 2026 às 16:11 | Atualizado há 2 horas

Agradecimento: artista vê presente da vida em disco - Foto: José de Holanda
Agradecimento: artista vê presente da vida em disco - Foto: José de Holanda

Marcus Vinícius Beck

Que descoberta bela, lírica. “Voa” à espera daquela pessoa. Ouça a música e aguarde o amor chegar. A qualquer hora, em qualquer esquina, em meio aos tons e sons, aos brindes. Sorria, simplesmente sorria — você está diante de Gustavo Spínola, esse cantautor das sensações.

Há um arranjo de metais ao fundo. Assinado por Bruno Britto, o sopro junta notas metálicas, como uma brass band de New Orleans (EUA). Balança, sincopa. Aí entra o artista Ivan Lins e seu piano brasileiríssimo. Entre acordes e batuques, ele murmura: “vida vem e vai voando.”

Quem dera viver devagar. Lins está impressionado com Spínola, a quem começa a chamar de “jovem músico e compositor”. “Trabalho elaborado e intrigante”, proclama o compositor, autor da canção “Madalena” e venerado pelo guitarrista norte-americano George Benson.

Então voe na insônia do relógio, delicie-se na sorveteria do afeto, agarre-se à cintura do destino e às silabadas do instante. Beba no cálice da paixão as gotas dos beijos e abraços, suspiros sincronizados e congelados na agonia cotidiana que, muitas vezes, nos sufoca.

Nascido em Americana (SP), Spínola guarda nos olhos a água mais cristalina da MPB. Lins o avaliza, a ponto de convidá-lo para se juntar a ele no palco. Em seu disco, o cantor retribui a gentileza e chama Lins na faixa “Voa”, a primeira, e em “Guarde Nos Olhos”, a derradeira.

“Ele sempre foi uma grande referência para mim. Nosso primeiro contato aconteceu sem planejamento prévio, no final da pandemia, e acabou se transformando em uma querida amizade”, diz. “A música tem essa força mágica de promover conexões sem nos avisar.”

Presença forte

Para Spínola, a presença de Lins no projeto é “profundamente forte e emocionante”. A releitura de “Guarde Nos Olhos”, lançada em “Cantando Histórias”, de 2005, grooveia o horizonte e o toque daquelas manhãs. A partir do dueto, a gota do orvalho chora, flameja.

Fã de Chico Buarque, Caetano Veloso e Milton Nascimento — além de Lins —, o cantautor é um defensor da música brasileira. “Temos uma riqueza de compositores e poetas que tratam a música e a língua portuguesa com um esmero que me encanta de forma inexplicável”, diz.

“Inclusive, toda essa admiração fez com que eu demorasse a me aceitar como compositor”, conta o artista, cuja obra revitaliza os temas da MPB. “Para mim, melodias e harmonias surgem de forma mais rápida. Confesso que escrever as letras exige um esforço danado.”

Durante as canções, “Do Acaso ao Cais” navega pelo acaso e atraca no porto das emoções. Cada faixa nasceu de encontros — alguns inesperados, outros cultivados pelo tempo — que criaram vínculos, memória e permanência. Nota-se, por todo o disco, um arco conceitual.

A vida, ensina Gabriel García Márquez, não é a que a gente viveu, mas sim a que a gente recorda, e como a recorda para narrá-la. Nesse caso, ouvindo a faixa “O Dia”, o eu poético sussurra ter caminhado no temporal. As cores, então, só aparecem quando se acha o amor.

“Não havia músicos na minha casa, mas havia música”

Carinho: Gustavo Spínola beija Ivan Lins – Foto: Arquivo Pessoal

Spínola revela ser movido pelo afeto. Sua família, além de todas as histórias que a cercam, forma a estrutura de seu cancioneiro. Quando volta no tempo para buscar a influência da música em sua infância, depara-se com histórias que lhe contavam sobre letras e melodias.

“Não havia músicos na minha casa, mas havia música — da MPB ao rock, pop e samba. Meus irmãos mais velhos ouviam muitos discos e me incentivaram a ouvir também, o que desenvolveu em mim uma percepção mais atenta, mesmo que despretensiosa”, lembra.

Além disso, recorda-se, o artista e sua família tinham uma dinâmica familiar sui generis. “Moramos em uma chácara onde ficam a minha casa, as dos meus irmãos e a da minha mãe”, evoca. “São histórias e inspirações reais pulsando ao meu redor a todo momento.”

Encontros que subsistem guardados no coração — esse é o tom de “Do Acaso ao Cais”. O eixo do disco, segundo Spínola, veio da ideia de celebrar os encontros, sobretudo aqueles com Ivan Lins. Aliás, o pianista lhe foi uma inspiração, grande compositor e músico que é.

Esboço

O quarto disco independente do cantautor possui nove faixas. Spínola conta que começou a esboçá-lo no fim de 2024, impulsionado pelo desejo de celebrar e agradecer aos encontros de sua trajetória: família, amigos, esposa e filhos. Assim nasceu o repertório dessa bela obra.

Durante a seleção do repertório, novos caminhos se cruzaram e reafirmaram o tema do disco. “Nesse período, eu estava fazendo os shows de abertura para o Ivan Lins, e muita gente nova chegou à minha vida.” Além de Lins, o álbum ganhou novas e ótimas vozes.

Verônica Ferriani, por exemplo, canta “Vida Coração”. Rafa Mariano, por sua vez, solta a voz em “Hoje Não”. Há uma “parceria dos sonhos” com Celso Viáfora. Para Spíndola, a maturidade de seu disco veio justamente de entender e acolher o tempo desses encontros.

Influenciado pelo cancioneiro popular, o artista celebra os encontros improváveis da vida que, tantas vezes, tornam-se portos seguros. Por isso, abre “Do Acaso ao Cais” com a faixa “Voa” e relê “Guarde Nos Olhos”. “É um grande presente da vida estar nesse lugar hoje.”


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