Entretenimento

Plede Rude faz o concreto rachar em disco que será reeditado em vinil

Redação Online

Publicado em 2 de agosto de 2026 às 22:01 | Atualizado há 1 hora

O cara da Plebe (à esquerda) diz: “ou a gente era vidente, ou o país não mudou nada” | Foto: Caru Leão/Divulgação
O cara da Plebe (à esquerda) diz: “ou a gente era vidente, ou o país não mudou nada” | Foto: Caru Leão/Divulgação

Para celebrar os 40 anos das canções que contestavam a desigualdade social e econômica da época, a banda Plebe Rude prepara um documentário sobre a história dos garotos de Brasília e lançou no streaming uma nova versão da música que abre o disco, “Até Quando Esperar”, com participações de Herbert Vianna e Jaques Morelenbaum.

Uma edição especial em vinil de “O Concreto Já Rachou”, com as sete músicas do LP, e um compacto com versões demo fazem parte das comemorações do álbum e dos 45 anos da Plebe. E um disco de inéditas também deve ser lançado em breve.

Para o guitarrista e vocalista Philippe Seabra, revisitar o próprio trabalho tem um lado doce e outro amargo. “Como compositor e artista, você fica feliz com a relevância da obra. Mas tem um lado, como pai e cidadão, que você fica meio zangado porque a letra não envelheceu. Das duas, uma: ou a gente era vidente, ou o país não mudou nada. Então, nesse aspecto, [regravar “Até Quando Esperar”] me incomoda, pois a mensagem ainda ressoa”, diz.

Segundo o guitarrista, a faixa continua atual porque o principal questionamento da música segue sem resposta. “A desigualdade social é o inimigo de tudo, e é muito triste ver isso em um país tão rico como o Brasil. A música não estava pedindo muito, só questionava ‘cadê nossa fração? Cadê sua fração?’.”

“O Concreto Já Rachou” faz parte de uma geração do rock nacional que marcou os anos 1980. Na mesma época foram lançados “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs, “Selvagem”, dos Paralamas do Sucesso, “Dois”, da Legião Urbana, entre outros tantos já quarentões. O disco de estreia da Plebe Rude tem ainda outras canções-protesto, como “Proteção”, “Johnny Vai à Guerra (Outra Vez)”, “Minha Renda” e “Brasília”, cujo refrão dá nome ao álbum.

Lucidez

Em uma análise em retrospecto, Seabra conclui que “O Concreto Já Rachou” é um disco lúcido, que conseguiu captar o anseio da geração da época. “Tanto que o disco vendeu mais de 250 mil cópias. Foi o primeiro disco de ouro de uma banda de Brasília e entrou na lista dos discos mais importantes da história da música popular brasileira, segundo a revista Rolling Stone”, diz o guitarrista.

Para ele, essa lucidez do rock de Brasília se deu pelo fato de os jovens da época serem filhos de acadêmicos e diplomatas que tiveram acesso não só a uma boa formação, mas também a livros, discos e filmes, além de tudo o que se passava no Planalto Central.

Seabra reconhece o que chama de privilégio de conseguir discernir o que acontecia na época e traduzir em canções o sentimento de quem não concordava com o sistema político. Enquanto isso, eles tentavam encontrar sua própria identidade cultural em uma cidade ainda em formação.

“A gente estava ao lado do poder, então, ou você virava um playboy, ou você tentava fazer alguma coisa com as armas que você tinha. E as armas que a gente tinha eram uma guitarra e um microfone”, diz.

“Éramos garotos tentando encontrar meio de expressão”

Plebe Rude hoje: André X (baixo), Clemente Nascimento, Marcelo Capucci (bateria) e Philippe Seabra (vocal e guitarra) | Foto: Caru Leão/Divulgação

“Éramos um bando de garotos tentando encontrar um meio de expressão e ter algo pra fazer”, afirma, lembrando dos encontros com Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, e Herbert Vianna.

Herbert, que na época já estourava com Os Paralamas do Sucesso, foi o produtor de “O Concreto Já Rachou” e deu pitacos que hoje Seabra lembra com humor, mas que na época lhe causaram estranheza. Foi sugestão do músico, por exemplo, a inclusão de um arranjo de violoncelo em “Até Quando Esperar”.

No alto de seus 18 anos, com seu coturno de garoto punk, Seabra fez objeção. “Banda punk com violoncelo? De jeito nenhum.” A resposta foi imediata. “O Herbert me puxou de canto e falou ‘cara, é o seguinte, você está fazendo um disco para o Brasil ou para os seus amigos?’ Aí eu tive que abaixar a cabeça e deixar”, diz, ao relembrar o episódio.

Princípios

“É claro que a gente queria abranger nosso público. Mas, não à custa dos meus princípios. E ficou fantástico”, afirma. Essa e outras histórias da banda estarão em um documentário, agora em fase de pós-produção. Dirigido por Marco Abujamra, que acompanhou a Plebe Rude em alguns shows, o filme incluirá depoimentos dos integrantes, mas ainda não tem data de lançamento.

Enquanto conversava com a reportagem, por telefone, Seabra viu uma cena no trânsito de Brasília que chamou sua atenção: um homem ajoelhado em frente aos carros parados no semáforo, com os braços levantados e pedindo comida. “Brasília é a cidade com a renda per capita mais alta do Brasil, e olha só. Parece que acabei de ver a letra [de ‘Até Quando Esperar’]. Loucura isso, não?” (Regiane Soares/ Folhapress) 


Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia