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“Que possamos questionar lógicas impositivas”, diz escritora Lari Mundim

Redação Online

Publicado em 5 de agosto de 2026 às 20:43 | Atualizado há 44 minutos

Lari Mundim fala sobre construção social baseada em vigiar e punir | Foto: Lu Barcelos/ Chocolate Fotografias
Lari Mundim fala sobre construção social baseada em vigiar e punir | Foto: Lu Barcelos/ Chocolate Fotografias
Lari Mundim fala sobre construção social baseada em vigiar e punir | Foto: Lu Barcelos/ Chocolate Fotografias Lari Mundim fala sobre construção social baseada em vigiar e punir | Foto: Lu Barcelos/ Chocolate Fotografias

Marcus Vinícius Beck

Lari Mundim escreve mentalmente quando está em deslocamento observando a vida. Para ela, que lança “mata de dentro” nesta quinta-feira (6/8), às 18h, no Coletivo Centopeia (Av. Cora Coralina, 140, Setor Sul), a prática da escrita exige também uma fuga. Escritora, editora, livreira e jornalista, Lari assina os romances “Agora eu te amo”, de 2014, e “Sem Palavras”, de 2013, em coautoria com Valentina Prado. No último ano, publicou a narrativa visual “A Cadeira”, tendo como coautora a escritora Anya Aquareluda. Lançou, em 2016, “faz rs”, ilustrado por Sophia Pinheiro, e, no ano anterior, saíra a biografia “Operação Kamikaze”. Lari respondeu aos seguintes questionamentos do DM.

Diário da Manhã – Por que você resolveu escrever “mata de dentro”?

Lari Mundim – Nos últimos anos eu venho percebendo um cansaço na minha atividade como editora. Um jeito de dissipar dias difíceis é nos recordarmos do princípio, de como era o sentimento no começo de tudo. E nesse lugar de força e entusiasmo estava a escritora que sou. Eu quis evocar de novo a sensação que a escrita provoca em mim, apostando que a formação continuada pudesse me valer e resultar em um trabalho literário mais maduro e mais profundo. Em 2019, a partir de uma notícia de jornal, encontrei uma pista de como eu poderia regressar ao campo da ficção sem me ancorar, necessariamente, nos temas que me motivaram nos meus dois primeiros romances publicados.

DM – A ex-professora Sílvia Vicente que você desenha adota uma invisibilidade voluntária. Qual foi o maior desafio para criar uma personagem exausta a partir de uma prosa fragmentada?

Lari – As pessoas têm razões diversas para desaparecer e a forma como resolvem se esconder é uma estratégia. Se permanecer é sempre uma opção, as fugas são voluntárias e muitas vezes exigem muita determinação. À medida que tenho conversado mais sobre o “mata de dentro” tenho compreendido que Sílvia Vicente praticou o que estou chamando de abandono radical. De maneira voluntária e involuntária também, ela se desfaz da vida construída sob a vigilância do sistema e busca caminhos à margem para se refazer. Sílvia Vicente só não escapa do corpo. O maior desafio na escrita desse corpo exausto ainda não acabou, tem sido testar a capacidade que ele tem de se aproximar de leitores e leitoras, provocando afetos positivos e negativos, à medida que se revela em movimento, por dentro e por fora, no presente e no passado.

‘mata de dentro’: livro será lançado nesta quinta-feira (6/8) no Coletivo Centopeia, em Goiânia | Foto: Lu Barcelos/ Chocolate Fotografias

DM – Qual foi o lance mais espetacular (ou inesperado) na criação de uma prosa que dialoga com o pensamento de Michel Foucault?

Lari – Conheci aspectos da obra de Michel Foucault nos meus estudos sobre gênero e sexualidade. De minha parte, não houve uma intenção de referenciar de maneira direta o pensamento de Foucault em “mata de dentro”, mas existe um diálogo inegável. Porque o meu livro discute questões relacionadas a práticas disciplinares e ao controle dos corpos, assuntos presentes nos estudos do filósofo. Por meio da protagonista, podemos então falar sobre o abandono do “corpo dócil”, nas consequências dessa escolha política. Nesse contexto, me interessa muito utilizar a literatura para instigar possibilidades de se produzir o corpo desgarrado da manada.    

DM – A narradora, onisciente, descreve em certa altura “machos rústicos” que rotulam mulheres de pouca prosa como “sapatão”. Segundo essa visão, também seriam sapatão aquelas que não usassem vestidos. Por que esse tipo de pensamento ainda existe?

Lari – Ainda em Foucault, podemos citar construção social que tem base em vigiar e punir. Esse pensamento “rústico” ainda existe porque é conveniente para manter as bases do patriarcado, ou seja, desqualificar e violentar o que é desviante, e que possa inspirar a liberdade. Os sistemas opressores perdem o controle sobre os corpos que criam modos próprios de existir. Uma reação a esse tipo de violência é a ressignificação de palavras originalmente ofensivas — é o caso de “sapatão”, termo apropriado e reposicionado com orgulho pela comunidade LGBTQIAPN+ .

Lari Mundim: “Manter a escrita como rotina é um desafio e, ao mesmo tempo, uma conquista” | Foto: Lu Barcelos/ Chocolate Fotografias

DM – Há na obra uma problematização de gênero que se revela o eixo da narrativa. Sem spoiler, a fuga de Sílvia seria uma recusa às pressões impostas pelo patriarcado?

Lari – Sílvia rompe pactos normativos que mantém as pessoas na condição de humanas, legíveis, toleráveis. Sem dúvida, isso é um ataque ao patriarcado, mas também uma investida contra outras estruturas de poder como o capitalismo e o colonialismo.

O gênero atravessa “mata de dentro” em vários momentos. Aos poucos, leitoras e leitores vão se deparando com gênero impregnado no cotidiano. Espero que o livro colabore para que esta percepção fique ainda mais destampada em todas as ações, espaços e pessoas com as quais convivemos. E que possamos questionar lógicas impositivas. 

DM – O que seria mais difícil: escrever crônicas para jornal, contos ou romances?

Lari – Sem dúvida, a escrita do romance literário é a mais complexa e exigente.

DM – Como funciona a sua rotina de escrita? Você tem algum ritual?

Lari – Manter a escrita como rotina é um desafio e, ao mesmo tempo, uma conquista. O estado permanente de envolvimento com a palavra pode despertar diversas formas de escrita criativa. Escrevo mentalmente quando estou em deslocamento observando a vida acontecer. Coleto histórias quando ouço as pessoas com atenção. O trabalho está na confluência de todos esses métodos de aproximação com a poesia e com a literatura. Para a prática da escrita também é necessário uma fuga.


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