Entretenimento

Zuenir Ventura, referência no jornalismo e na literatura, passa à história

Redação Online

Publicado em 22 de setembro de 2026 às 20:09 | Atualizado há 2 horas

Autor publicou obras que viraram referência na não ficção | Foto: TV Cultura
Autor publicou obras que viraram referência na não ficção | Foto: TV Cultura

Marcus Vinícius Beck

Morto nesta terça-feira (22/9), no Rio de Janeiro, aos 95 anos, o escritor e jornalista Zuenir Ventura recebeu deste escriba um exemplar do livro “1968: O Ano que Não Terminou” e disse mais ou menos isso: “É uma grande responsabilidade ser referência para os jovens.”

Estávamos no Oscar Niemeyer, em Goiânia. O mestre Zu, como era conhecido o experiente repórter, havia falado sobre Maio de 68, levante estudantil que balançou estruturas mundo afora. Enquanto autografava o exemplar surrado de seu famoso livro-reportagem, ele sorria.

A cena descrita aconteceu no dia 6 de abril de 2018. Naquela noite, Zuenir Ventura analisou os segredos daquele misterioso ano-personagem. O jornalista e escritor costumava se referir dessa forma a 68, tal a magnitude dele. “Será que meio século depois ainda dá para confiar naqueles que recomendavam não confiar em ninguém com mais de trinta anos?”, refletia.

Para o sociólogo Edgar Morin, seriam necessários bons anos para entender o que se passou na época. Como que chancelando essa tese, o filósofo Umberto Eco criou uma categoria: 1968 pode ser processado, analisado, condenado, mas não é possível tomá-lo por mera loucura.

No prefácio à nova edição, Zuenir afirmava que, confiando ou desconfiando, como lição ou exemplo, a insistência em compreender o que se viveu não cessou. “Qual seria o legado de uma insurreição de jovens que pela primeira vez, e sem internet, teve a dimensão planetária ou, como se diz agora, globalizada?”, dizia o mestre Zu. “Um frêmito percorreu o planeta.”

Capa do livro ‘1968 – O Ano Que Não Terminou’: clássico da não ficção | Foto: Objetiva

“O Ano que Não Terminou” chegou às livrarias duas décadas depois dos eventos nele narrados. A obra relata, com o rigor das reportagens e o estilo da literatura, como foi no Brasil o ano que, olhando pela lupa global, tornou-se lendário por causa das manifestações estudantis. Por aqui, aponta Zuenir, Maio de 1968 começou, na verdade, dois meses antes.

Em 28 de março daquele ano, a PM invadiu o restaurante estudantil Calabouço, no Rio. O jovem Edson Luís Lima Souto, de 18 anos, morreu com um tiro à queima-roupa. A sociedade civil reagiu à truculência da ditadura civil-militar. Cinquenta mil pessoas acompanharam o enterro, sem esquecer a Passeata dos Cem Mil, em junho, e o AI-5, baixado em dezembro.

Segundo Zuenir, até podia ter havido, em meio século, algum ano tão ou mais relevante do que 1968, mas nenhum foi tão lembrado, discutido, questionado e com tanta disposição de ser referência por afinidade e contraste. “Ao se comportar como se fosse um ser animado, suspeita-se que 1968 não tenha sido um ano, mas um personagem”, explicou o jornalista.

Zuenir Ventura, no entanto, não é autor de “só” uma obra. O repórter revelou toda a sua civilidade durante a série de reportagens “O Acre de Chico Mendes”, de 1989, na qual investigou o assassinato do seringueiro acreano, ocorrido em dezembro de 1988. Quinze anos depois, em 2003, Zuenir voltou à região para finalizar a matéria sobre o ambientalista.

Repórter mostrou luta ambientalista de Chico Mendes

‘Chico Mendes – Crime e Castigo: grande reportagem | Foto: Companhia das Letras

No livro “Chico Mendes — Crime e Castigo”, de 2003, o jornalista e escritor relembrou a adoção do adolescente Genésio Ferreira da Silva, que testemunhou o homicídio idealizado pelo fazendeiro Darly Alves da Silva e executado por seu filho Darcy Alves Ferreira. Como Genésio era ameaçado, o repórter viu que o menino estava em perigo e resolveu tutelá-lo.

“Só depois que ele [Chico Mendes] morreu, aos 44 anos, é que o Brasil descobriu haver perdido o que custa tanto a produzir: um verdadeiro líder”, descreve no livro. “À frente dos seringueiros, ele desenvolveu táticas pacíficas de resistência com as quais defendeu a Amazônia, que a partir dos anos 70 sofrera um acelerado processo de desmatamento.”

Genésio Ferreira tinha proteção policial, porém as intimidações não paravam. Zuenir, então, descobriu que existia um plano para matar a testemunha. Diante desse cenário, procurou um coronel e, certo dia, apareceu no Rio com Genésio. Apresentou-o à sua esposa e a seus dois filhos. “Ele ficou sob minha tutela até os 18 anos”, recordava-se Zu, em entrevistas.

Outro livro de Zuenir Ventura, também clássico da não ficção, é “Cidade Partida”. Editado em 1994, a obra faz uma radiografia da violência urbana e da desigualdade social no Rio. A comunidade Vigário Geral fora cenário de chacina com 21 mortes, em 1993. O título é, desde então, referência para estudos a respeito dos contrastes sociais da ex-capital da República.

O mineiro ainda lançaria, em 2005, o livro “Minhas Histórias dos Outros”. Nesta obra, cujo texto preservava a leveza e o tom literário intactos, ele revelou como era a convivência com Glauber Rocha, Betinho e Carlos Drummond de Andrade. Ao sabor da prosa de Nelson Rodrigues, romanceou memórias da infância e adolescência em “Sagrada Família”, de 2012.

Nascido em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba (MG), Zuenir Carlos Ventura formou-se em Letras Neolatinas pela atual UFRJ. Marcou o jornalismo brasileiro, com passagens pela Tribuna da Imprensa, pelo Correio da Manhã, pela Visão, pela Veja, pela Isto É e pelo Jornal do Brasil. O jornalista deixou a esposa, Mary, e dois filhos, Elisa e Mauro, além de netos.


Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia