Flipiri celebra trajetória da escritora goiana Maria José Silveira
Redação Online
Publicado em 3 de novembro de 2026 às 20:09 | Atualizado há 16 minutos
Ancestralidade: Maria José Silveira transforma a memória e a paisagem do Cerrado em matéria literária | Foto: Zé Gabriel
Marcus Vinícius Beck
Homenageada na 16ª Festa Literária de Pirenópolis (Flipiri), a escritora Maria José Silveira se assume feliz. “Ser reconhecida na própria terra parece ser bem difícil, mas cá estou eu, muito honrada”, anima-se. A Flipiri, neste ano, será realizada entre a quinta-feira (5) e o sábado (7).
Nascida em Jaraguá, no interior goiano, Maria José obteve o diploma em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB). Estudou Antropologia na Universidade Nacional Mayor de San Marcos, no Peru, e recebeu o título de mestre em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo (USP). Nos anos 1980, criou a Editora Marco Zero, à frente da qual ficou até 1998.
No romance “Farejador de Águas”, publicado em 2023, ela leva Pirenópolis para a geografia da narrativa. Segundo o crítico Maurício Melo Junior, em texto publicado no jornal literário “Rascunho”, o livro precisa ser lido consciente do passado, mas preocupado com o futuro. “O Goiás que surge em sua obra está marcado pela sentimentalidade”, afirma Melo Junior.
Há em cada linha, argumenta o ensaísta, o protesto sobre o que se fez da região, sobretudo no que diz respeito ao modelo desenvolvimentista adotado a partir dos anos 1930. Em 1937, iniciou-se a Marcha para o Oeste, incentivada pelo governo Getúlio Vargas, e aparecem as primeiras colônias agrícolas, acentuadas ao longo do sonho modernista de Brasília, em 1960.
Maria José, todavia, busca o sentido da terra, marcante no romance “Guerra no Coração do Cerrado”. Nesta obra, de 2006, a autora narra a saga de Damiana da Cunha Menezes, líder dos Cayapó/Panará que, conforme escreve Melo Junior, resiste à chegada do homem branco e à matança no Cerrado. A história se passa no século 18, embora se afigure bastante atual.
A dialética entre moderno e passado ganha novas feições em “Farejador de Águas”. O livro, com prosa regionalista e mística, se forma a partir do ponto de vista do garoto Minino, que, sendo órfão, acabou criado por uma mulher indígena. Ele deixou a terra dos pais, em Goiás, para acompanhar a Coluna Prestes. Possuía o dom de “farejar” águas de nascentes de rios.

Coluna Prestes
Corajoso e esperto, o rapaz logrou relevância no grupo. Caminhava na frente da marcha, de modo que pudesse encontrar jagunços encafuados em meio à vegetação cerratense, ávidos por emboscadas. Lutava por aquilo em que acreditava, pelos mistérios da natureza e por Maria Branca, de quem viraria companheiro. Seria leal a essas ideias após o fim da Coluna.
Ao fazer literatura, Maria José Silveira notou o quanto era goiana, apesar de sua contínua ausência: saíra de seu estado natal e a ele só retornava nas férias. Mais tarde, como relata a autora, passaria a sentir-se também paulistana, pelo amor à cidade onde fixou residência. Talvez por essa dicotomia, reflete, muitos de seus romances sejam ambientados em Goiás.
Maria José lembra que, enquanto escrevia “Farejador de Águas”, entendeu sua ignorância a respeito do que de fato significavam as árvores mais baixas e retorcidas de seu estado. Desde criança, a escritora aprendeu a amá-las e a reconhecer essa beleza tão sui generis, mas tinha dificuldade em explicar sua importância fundamental para as bacias hidrográficas do país.
Tinha ciência de que o bioma Cerrado estava em processo de extinção, porém não percebia, ou não queria perceber, que a terra que amava estava se transformando em outra ou, pior ainda, morrendo, como reconhece a goiana no começo de “Farejador de Águas”. Para ela, o sumiço daquela vegetação original traria uma influência dramática sobre as águas do país.
Ao jornalista Alysson Oliveira, da “Carta Capital”, Maria José revelou a origem de seu estilo literário. A escritora lembra de ter passado férias em uma cidade histórica, onde, segundo ela, “o vento nas ruas de terra vermelha trazia redemoinhos com sacis, onde velhas casas de portas rangedoras eram mal-assombradas e onde no maior rio da região moravam almas”.
Subiu a poeira laranja-avermelhada. A manhã, conforme se lê em “Farejador de Águas”, se abre aos gritos: “Ei-vêm os revoltosos, gente. Acudaaaa! É o povo da Coluna!”. O Brasil, há muito tempo, necessitava de um regresso à sua ancestralidade. Agora, no entanto, não mais precisa, uma vez que Maria José construiu um livro moderno e, ao mesmo tempo, inquieto.
