‘Cem Anos de Solidão’ faz tempo girar em redondo numa adaptação fiel à voz do livro
Redação Online
Publicado em 14 de agosto de 2026 às 20:09 | Atualizado há 57 minutos
Coronel Aureliano Buendía com seus 17 filhos no início da segunda temporada | Foto: Netflix/ Divulgação
Marcus Vinícius Beck
Um dos maiores romances já publicados, “Cem Anos de Solidão” chegou ao streaming em 2024. Ao contrário do que os leitores temiam e o próprio Gabriel García Márquez dava como impossível, a saga dos Buendía provou-se adaptável: a arquitetura da trama está preservada.
Conservadores e liberais, indivíduos dionisíacos e religiosos flagelados, todos esses seres macondianos, açoitados pela violência e pela dor, foram transpostos — com assaz fidelidade — para o audiovisual. É a epopeia das tragédias e das estirpes condenadas a cem anos de solidão, como dizia Gabo, até que, enfim, surgisse a segunda oportunidade sobre a terra.
Macondo é descrita pelo narrador do romance como “uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitaram por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos”. José Arcadio Buendía explorou a região, inclusive as águas, arrastando ferro e recitando o conjuro de Melquíades.
Como na origem do mundo, as coisas na cidade careciam de substantivos para nomeá-las se fosse necessário “apontar com o dedo” em direção a algo. Todos os anos, diz a voz narrativa, pelo mês de março, “uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos”.
A diretora Laura Mora diz que cada episódio da nova e última temporada parece um filme. Segundo ela, a série deu mais um passo à frente em termos visuais, narrativos e musicais. “Depois de viver naquela casa e naquela cidade por três anos, sentimos que a conclusão deveria estar à altura: ser ambiciosa, extraordinária e cinematográfica”, assinala à Netflix.

Recriação
No princípio, Mora e seu parceiro na direção da série, Carlos Moreno, recriam os 50 anos iniciais naquela Macondo pura. A inocência começa a ruir quando o Coronel Aureliano Buendía, com seu espírito anarquista e suas ideias revolucionárias, desafia os conservadores e vai pelear em 32 guerras civis. O Coronel era destemido e comandava as tropas liberais.
Anos depois, ele haveria de se desiludir. É a partir dessa angústia, muito política e bastante filosófica, que seguirá o episódio inaugural da nova temporada, intitulado “O Armistício”. Aos poucos, as lutas do Coronel por liberdade e justiça iriam se apagar na memória do povo. “Estamos virando uma gente fria”, previu, diante das vontades de Fernanda del Carpio.
Fernanda padecia de delírios aristocráticos, pois supunha ser uma rainha: chegou até a se gabar, no fim da vida, por ter usado penico de ouro. Era religiosa e conservadora, fria no amor. Criou seus filhos conforme os preceitos do catolicismo e tinha certeza de que era superior aos Buendía. Como mostra o episódio 3, achava Remedios, a Bela, uma selvagem.
Dentro do romance, Fernanda reflete o arquétipo do colonizador europeu — consciente de que seria superior, embora tivesse um sobrenome decadente e fosse submetida à miséria antes do matrimônio. Remedios, com quem a Rainha de Madagascar vivia em constante embate, simboliza a anti-civilização europeia, o que espelha o sublime da vida natural.

Episódios percorrem dogmas filosóficos e religiosos
Até o sexo, para Fernanda del Carpio, deveria se sujeitar aos dogmas clericais. Aureliano Segundo, cujo amor tórrido vivido com a sensual Petra Cotes lhe apagava o fogo do desejo, era dado à comilança e à música, características salientadas nos novos episódios. Aos olhos de Fernanda, era um reles pecador. Petra, contudo, amava-o, respeitando o seu hedonismo.
Os Aurelianos se revelavam introvertidos, enquanto os José Arcadio possuíam características impetuosas e extrovertidas. Eles fazem o leitor se lembrar de que cada geração supõe iniciar uma nova história, livre dos erros ancestrais e das paixões pretéritas, mas, na verdade, o que se vê é um ciclo a se repetir. A mãe Úrsula Iguarán temia que o tempo girasse em redondo.
Segundo Úrsula, os gêmeos Aureliano Segundo e José Arcadio Segundo foram trocados na infância. Havia uma inversão de personalidades entre eles: Arcadio Segundo, por exemplo, revelava serenidade, herdando o espírito libertário do Coronel e mobilizando os proletários contra a exploração trabalhista do senhor Brown. Já Aureliano caía na farra e curtia música.
No episódio “Eram Mais de Três Mil”, talvez o mais impactante da série, a luta de classes culmina em uma onda de violência — 3 mil mortos pelo Exército colombiano. Ao fim do massacre, o céu de Macondo desabou em tempestades. Furacões destelharam as casas e derrubaram as paredes. “Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias”, diz Gabo.

Ascensão e queda
“Cem Anos de Solidão” narra histórias, tramas e personagens intrincadas. As quatrocentas e trinta e duas páginas a respeito da ascensão e queda de Macondo costumam causar confusão em quem tenta lê-las. Para a roteirista Natalia Santa, as situações descritas ao longo do texto épico se desenvolvem facilmente entre lirismo e tragédia porque se passam muitos eventos.
Há críticos que, tendo em vista esse aspecto, veem a obra-prima de Gabriel García Márquez como uma metáfora da condição humana na América Latina. O próprio Gabo, aliás, contava ter encontrado a mágica do seu romance na realidade. “Não invento nada. Não há uma linha nos meus livros que não seja realidade. Não tenho imaginação”, declarava o colombiano.
O bom é que, sem competir com o livro, a série nos devolve ao mundo da imaginação. As atuações são elogiáveis, a caracterização e o figurino impressionam, o roteiro preservou a voz de Gabo. Enquanto houver leitor, “Cem Anos de Solidão” há de existir e nos fascinar. O último episódio chega à Netflix no próximo dia 26. Até lá, revisitemos os outros capítulos.