Israel e Turquia elevam tensão no Oriente Médio após ataque em base na Síria
Léo Carvalho
Publicado em 20 de agosto de 2026 às 11:39 | Atualizado há 2 horas
Israel e Turquia trocaram acusações e elevaram o tom após ataque israelense contra uma base aérea na Síria | Foto: Mustafa Kaya/Xinhua
Em uma demonstração de atrito entre as potências emergentes da nova ordem geopolítica no Oriente Médio, Israel e Turquia trocaram acusações e ameaças veladas nesta quinta-feira (20), dois dias após o Estado judeu bombardear uma base aérea na vizinha Síria.
O ataque aéreo israelense ocorreu na instalação de Abu al-Duhur, no noroeste sírio. Segundo o ministro Israel Katz (Defesa), o local estava sendo preparado para receber um contingente de forças da Turquia, país que foi fiador da derrubada do ditador sírio Bashar al-Assad em 2024.
Tanto o governo em Ancara quanto o de Damasco negam essa intenção, embora o chanceler sírio, Assad al-Shaibani, tenha dito ao site americano Axios que uma delegação militar turca havia visitado a base há alguns dias “como parte da cooperação em curso” entre os países.
Nesta quinta, o Ministério da Defesa da Turquia disse que “é essencial para a paz e estabilidade na Síria e na região que Israel cesse esses ataques irresponsáveis a cumpra os requisitos da lei internacional”.
Já Katz voltou ao tema no X, subindo ainda mais o tom. Ele advertiu o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, a não “testar a determinação de Israel de se defender”. Segundo ele, o líder está “arrastando a Turquia para aventuras perigosas na Síria”.
O novo desenho político do Oriente Médio começou a ser delineado quando os terroristas palestinos do Hamas atacaram Israel em 7 de outubro de 2023, dando a deixa para que o governo de Binyamin Netanyahu abrisse uma temporada de acerto de contas contra o arcabouço montado pelo Irã na região.
De lá para cá, Israel obliterou a Faixa de Gaza, degradou as capacidades do Hezbollah e reocupou o sul do Líbano, além de lançar duas guerras diretas contra Teerã com apoio dos Estados Unidos a deste ano ainda inconclusa, apesar da disrupção econômica que trouxe ao planeta.

Com a desorganização na teocracia persa e o foco do aliado Vladimir Putin na Guerra da Ucrânia, o ditador Assad viu a Turquia reforçar o apoio a uma das facções que lutavam contra ele no conflito civil que se arrastava desde 2011.
A Ancara sempre interessou evitar o fortalecimento dos curdos no norte da Síria, ligados ao Curdistão turco, fonte de conflito interno há décadas.
Emergiu rapidamente como vencedor o HTS, um grupo extremista nascido das costelas da rede terrorista Al Qaeda. Seu líder, Ahmed al-Sharaa, abandonou o nome de guerra islâmico que usava, trocou a farda pelo terno e virou presidente do país, com Assad fugindo para Moscou.
A vertiginosa vitória colocou a Turquia com dois pés no novo governo do país, que até por sua posição geográfica sempre esteve no centro das crises do Oriente Médio. Sharaa, por sua vez, foi recebido como ator responsável por Donald Trump e por Putin, esse interessado em manter algum controle das duas bases que tem no país.
Israel, que ocupa desde 1967 o território sírio das Colinas de Golã, viu na nova configuração uma ameaça a seus interesses, até pelo DNA jihadista do novo governo em Damasco. Expandiu sua ocupação no sudoeste sírio, visando também proteger a minoria druza da região o grupo tem boas relações com o Estado judeu.
A ação militar de Israel, por sua vez, confirmou entre seus rivais o temor de uma nova ordem em que o Estado judeu, por seu poderio superior neste momento, iria impor vontades à força.
Essa realidade levou à criação, na semana passada, do que vem sendo apelidado de “Otan islâmica”: a aliança militar entre Turquia, Arábia Saudita e Paquistão, países muçulmanos da maioria sunita, em oposição ao xiita Irã, mas com traços étnicos distintos.
“Independentemente do que vai acontecer na guerra, não haverá o retorno a uma era em que Washington é o principal garantidor da segurança no Oriente Médio”, diz Kamran Bokhari, diretor-sênior do New Lines Institute (EUA). Para ele, os americanos querem “transicionar da posição de força hegemônica para ator distante”.
O fator mais notável do acordo tripartite da semana passada é que ele insere o Paquistão, potência nuclear com 170 ogivas atômicas, e o membro da aliança militar ocidental Turquia na equação de defesa mútua.
De seu lado, apoiado pelos EUA, Israel conta com estimadas 90 bombas e um poderio aéreo e antiaéreo inigualável na região. Ao mesmo tempo, é um país exposto: sua largura máxima é de 135 km entre os vizinhos e o mar, o que leva à agressividade nas fronteiras dada a ausência da chamada profundidade estratégica, ou seja, espaço para recuar em caso de ataque.
Há componentes mais comezinhos na crise na Síria. O premiê Netanyahu enfrenta eleições parlamentares em outubro, e segundo pesquisas é provável que não consiga ficar no cargo voltando a ser exposto ao risco de prisão num processo de corrupção.
O desgaste das longas guerras e o trauma do 7 de Outubro lhe custam votos não só entre o eleitorado mais liberal, mas também entre os conservadores religiosos que lhe sustentam. A Síria surge como um alvo fácil para demonstrações de força, ainda mais encarando uma Turquia que é hostil ao Estado judeu.
Os EUA observam a situação com apreensão. Seu embaixador em Israel, Mike Huckabee, disse nesta quinta à agência Reuters que Washington irá promover um processo de desescalada. Já o enviado do país de Trump à Síria, Tom Barrack, criticou Tel Aviv, chamando o ataque de desnecessário. (IGOR GIELOW/Folhapress)