Brasil

IBGE aponta que 86,9% dos brasileiros são cristãos, 1,7 milhão são ateus e 16,4 milhões não têm religião

Léo Carvalho

Publicado em 2 de setembro de 2026 às 15:13 | Atualizado há 2 horas

Dados do Censo 2022 mostram redução da participação católica e crescimento da diversidade religiosa no Brasil | Foto: Divulgação
Dados do Censo 2022 mostram redução da participação católica e crescimento da diversidade religiosa no Brasil | Foto: Divulgação

O Brasil continua sendo um país majoritariamente cristão, mas os dados mais recentes do Censo 2022 mostram uma composição religiosa cada vez mais diversificada. A liberação dos microdados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) permitiu detalhar grupos que haviam sido apresentados de maneira mais ampla na divulgação inicial do levantamento.

Entre os brasileiros com 10 anos ou mais, os católicos continuam representando a maior parcela da população, com 57%, o equivalente a 100,6 milhões de pessoas. Apesar da liderança, o grupo mantém a trajetória de redução registrada nos últimos censos. Em 2000, os católicos correspondiam a 74,4% da população. Em 2010, eram 65,5%.

O segundo maior segmento é formado pelos evangélicos, que somam 26,9% dos brasileiros nessa faixa etária. Os novos dados, porém, mostram que esse universo possui diferenças internas importantes.

A maior categoria entre os evangélicos é justamente aquela que não identifica uma denominação específica. Os chamados evangélicos não determinados representam 15,6% da população de 10 anos ou mais. Nessa classificação estão pessoas que declararam simplesmente ser evangélicas ou crentes, sem indicar uma igreja.

Isso não significa necessariamente que esses brasileiros não frequentem uma instituição religiosa. O problema está na forma como a informação foi registrada durante o Censo 2022.

Entre os grupos que tiveram a denominação identificada, aparecem os evangélicos pentecostais. Segundo a classificação utilizada pelo IBGE, a categoria inclui igrejas como as Assembleias de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus. São 14,3 milhões de pessoas, equivalentes a 8,1% da população com 10 anos ou mais.

Os evangélicos de missão, ligados a tradições protestantes históricas, como presbiterianos e metodistas, representam 3,2%, ou aproximadamente 5,6 milhões de brasileiros. O levantamento também identificou 139 pessoas ligadas a igrejas evangélicas indígenas.

Os números precisam ser analisados com cautela porque houve uma mudança na forma de coleta das informações religiosas entre os censos de 2010 e 2022.

No levantamento anterior, os recenseadores eram orientados a não aceitar respostas genéricas como “crente” ou “evangélica”. Quando o entrevistado respondia dessa maneira, deveria ser questionado para que fosse identificada a denominação.

Essa orientação não apareceu nos materiais de treinamento utilizados no Censo 2022. Com isso, respostas genéricas passaram a ser registradas sem necessariamente identificar a igreja frequentada.

O resultado foi um crescimento expressivo da categoria de evangélicos não determinados. Ela representava 4,8% da população em 2010 e chegou a 15,6% em 2022.

A mudança pode ter reduzido artificialmente o tamanho de categorias específicas, principalmente a dos pentecostais. Pesquisas realizadas ao longo dos anos indicam que as igrejas pentecostais representam uma parcela muito significativa do universo evangélico brasileiro.

Para a cientista política Ana Carolina Evangelista, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser), a abertura dos dados mostra que grandes grupos religiosos escondem diferenças internas relevantes.

Segundo ela, a dimensão dos evangélicos sem denominação identificada merece atenção, principalmente pela possibilidade de haver entre eles pessoas que se consideram religiosas, mas não mantêm vínculo institucional com uma igreja.

O catolicismo permanece como a principal religião declarada no país. Em 2022, foram contabilizados 100,6 milhões de católicos entre os brasileiros com 10 anos ou mais, correspondentes a 57% desse universo.

A queda, porém, é significativa quando comparada aos censos anteriores. Em 2000, a proporção era de 74,4%. Dez anos depois, caiu para 65,5%.

Os microdados também permitiram separar diferentes vertentes dentro do catolicismo. A quase totalidade está entre os católicos apostólicos romanos. Também aparecem os católicos ortodoxos, que reúnem aproximadamente 21 mil pessoas de diferentes tradições, entre elas a russa e a grega.

Outra categoria identificada foi a dos católicos apostólicos brasileiros. O grupo reúne cerca de 386 mil pessoas, ou 0,2% da população de 10 anos ou mais. A denominação foi fundada em 1945 por dom Carlos Duarte Costa, bispo que entrou em conflito com o Vaticano e acabou excomungado.

A presença católica no Brasil já foi praticamente absoluta. No primeiro Censo, realizado em 1872, 99,7% dos quase 10 milhões de habitantes foram registrados como católicos.

Naquele período, o país ainda vivia sob o Império e o catolicismo era a religião oficial. A liberdade religiosa passou a ganhar outro cenário com a Proclamação da República, em 1889, e a separação entre Estado e Igreja.

A redução da participação católica começou a ficar mais evidente a partir da segunda metade do século 20 e se intensificou nas décadas seguintes.

Apesar das mudanças internas, o país permanece fortemente marcado pelo cristianismo. Quando são consideradas outras denominações que têm Jesus Cristo como centro da fé, mas não entram nas categorias tradicionais de católicos e evangélicos, o contingente cristão aumenta.

O Censo identificou 3,9 milhões de pessoas, ou 2,2%, em “outras religiosidades cristãs”. As Testemunhas de Jeová somam 1,2 milhão, correspondentes a 0,7%. Já os mórmons são cerca de 148 mil, menos de 0,1%.

Somados os diferentes segmentos, os cristãos representam 86,9% da população recenseada com 10 anos ou mais. Ao mesmo tempo, cresce o número de brasileiros que não se identificam com uma religião.

Os brasileiros que afirmam não ter religião somam 16,4 milhões. O contingente é ainda maior quando são acrescentados os 1,7 milhão de ateus, equivalentes a 1% da população, e os 881 mil agnósticos, que representam 0,5%.

Os ateus triplicaram em número entre 2010 e 2022. Os agnósticos também apresentaram crescimento expressivo no período.

A categoria dos sem religião, entretanto, reúne pessoas com posições diferentes. Não necessariamente se trata de brasileiros que negam a existência de Deus. Em muitos casos, a declaração indica apenas ausência de vínculo com uma instituição religiosa.

O IBGE ainda separou 276 mil pessoas que se declararam espiritualizadas e outras 167 mil ligadas a tradições esotéricas.

Outra novidade proporcionada pela abertura dos microdados está na possibilidade de separar as religiões de matriz africana. Na divulgação inicial dos dados religiosos do Censo 2022, essas tradições foram apresentadas de forma agrupada. Agora, é possível observar a diferença entre os principais segmentos.

A umbanda aparece com aproximadamente 1,4 milhão de seguidores, equivalentes a 0,8% da população de 10 anos ou mais. O candomblé reúne 448,5 mil pessoas, ou 0,3%.

As religiões de matriz africana ampliaram sua participação em relação ao Censo anterior, enquanto o espiritismo perdeu representatividade.

Em 2022, foram identificados 3,2 milhões de espíritas, correspondentes a 1,8% da população. Em 2010, o grupo representava 2,2%.

O Censo também identificou diferentes tradições religiosas presentes no país. São aproximadamente 197 mil budistas, 100 mil judeus, 41,2 mil muçulmanos e 6,7 mil hindus.

Os praticantes de religiões ayahuasqueiras, como o Santo Daime e outras tradições semelhantes, somam cerca de 14 mil pessoas. Consideradas em conjunto, essas religiões representam uma parcela inferior a 1% da população recenseada.

Também foram identificados 132 mil brasileiros que declararam ter múltiplo pertencimento religioso, ou seja, afirmaram seguir simultaneamente duas ou mais crenças. O grupo representa menos de 0,1% do total.

A qualidade dos dados também precisa ser considerada na interpretação do retrato religioso produzido pelo Censo 2022. O demógrafo José Eustáquio Alves, pesquisador aposentado do IBGE, aponta problemas enfrentados pelo levantamento desde sua preparação.

O recenseamento estava originalmente previsto para 2020, mas foi adiado pela pandemia de Covid-19. A realização posterior ocorreu em meio a dificuldades orçamentárias e às eleições presidenciais de 2022, marcadas por forte polarização política.

Além disso, Alves chama atenção para as dificuldades de acesso enfrentadas pelos recenseadores em determinadas regiões. Áreas dominadas pelo tráfico de drogas e por milícias teriam impedido a chegada das equipes a alguns domicílios, principalmente em regiões de baixa renda.

A pesquisadora Ana Carolina Evangelista avalia que os dados recém-detalhados ajudam a compreender melhor a diversidade escondida dentro das grandes categorias religiosas. Para ela, o próximo Censo poderá mostrar se parte dos brasileiros, especialmente os mais jovens, continuará migrando entre religiões ou optará por não se identificar com uma crença específica.

O próximo levantamento demográfico deverá ocorrer no início da próxima década e poderá oferecer uma nova fotografia desse processo de transformação religiosa no Brasil. (ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, NICHOLAS PRETTO E MARCELA CANAVARRO/Folhapress)


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