Brasil

Estudo revela que 39% dos brasileiros usaram remédios sem eficácia contra a Covid-19

Léo Carvalho

Publicado em 10 de setembro de 2026 às 11:37 | Atualizado há 42 minutos

Estudo identificou que azitromicina, ivermectina e cloroquina foram medicamentos sem eficácia mais usados por brasileiros durante a Covid-19 | Foto: Divulgação/AFP
Estudo identificou que azitromicina, ivermectina e cloroquina foram medicamentos sem eficácia mais usados por brasileiros durante a Covid-19 | Foto: Divulgação/AFP

Um estudo publicado na Revista de Saúde Pública, da Universidade de São Paulo (USP), aponta que 39% dos brasileiros que tiveram Covid-19 recorreram a medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença. A pesquisa foi divulgada em julho e ouviu 9.591 pessoas que relataram ter sido infectadas pelo coronavírus.

Ao todo, 63% dos entrevistados afirmaram ter usado algum medicamento durante a infecção. Entre os remédios mais consumidos estavam antitérmicos, utilizados por 53,7% dos participantes, e antibióticos, por 36,2%.

Entre os medicamentos que não apresentavam eficácia comprovada para tratar a Covid-19, a azitromicina foi a mais utilizada, com 27,2%, seguida pela ivermectina, com 23,6%, e pela cloroquina, com 12,1%.

O levantamento foi realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e da University of Illinois Urbana-Champaign, nos Estados Unidos. As entrevistas ocorreram em 133 municípios dos 26 estados e do Distrito Federal.

A pesquisa também encontrou relação entre a confiança na ciência e o consumo de determinados medicamentos. Entre os participantes que disseram desconfiar de cientistas, 20,6% relataram ter usado cloroquina. Entre aqueles que afirmaram confiar nos cientistas, o percentual foi de 10,1%.

A combinação de cloroquina e ivermectina também apareceu com maior frequência entre os que declararam desconfiar da ciência, com 34%, contra 26,2% entre os que confiavam nos cientistas.

O uso de medicamentos durante a doença foi mais frequente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. No Norte, 74,1% dos participantes disseram ter utilizado algum remédio, percentual que chegou a 67,6% no Nordeste e 65,2% no Centro-Oeste.

No Sudeste, a taxa foi de 59,2%, enquanto no Sul ficou em 58,7%. O consumo de cloroquina e ivermectina também apresentou maior concentração no Norte e no Centro-Oeste.

As mulheres relataram maior uso de medicamentos em geral, com 67,4%, contra 58% entre os homens. No caso específico da cloroquina, porém, o percentual foi maior entre os homens, de 13,5%, contra 10,7% entre as mulheres.

Outro dado chamou a atenção dos pesquisadores. O consumo de medicamentos foi maior entre as pessoas que procuraram atendimento médico durante a infecção. Nesse grupo, 70,5% disseram ter utilizado algum remédio, enquanto entre aqueles que não buscaram atendimento a taxa foi de 46,1%.

Segundo os autores, o resultado pode indicar que parte do consumo ocorreu após prescrições ou orientações médicas inadequadas. A pesquisa, entretanto, não permite determinar quais medicamentos foram indicados por profissionais e quais foram utilizados por iniciativa dos próprios pacientes.

A renda também apareceu associada ao consumo de medicamentos. Entre os participantes que recebiam menos de um salário mínimo, 70,1% relataram ter utilizado algum remédio. O percentual diminuiu conforme aumentava a renda e chegou a 55,1% entre aqueles que recebiam cinco salários mínimos ou mais.

Os pesquisadores relacionam a disseminação dos medicamentos sem eficácia comprovada à promoção de tratamentos que não tinham respaldo científico durante a pandemia.

O estudo afirma que a defesa dessas substâncias contou com participação do governo federal durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), além de apoio de setores médicos, líderes religiosos e influenciadores digitais. Para os autores, a divulgação dessas supostas alternativas de tratamento fez parte de uma estratégia política que ajudou a reduzir a adesão a medidas de isolamento e criou uma falsa sensação de proteção contra o vírus.

Durante a pandemia, o chamado “Kit Covid” incluía medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina e oseltamivir. Em 2021, levantamento publicado pela Folha de S.Paulo apontou que o governo federal havia destinado R$ 126,5 milhões à compra desses medicamentos e distribuído 31 milhões de comprimidos aos estados.

A pesquisa atual reforça que o uso desses medicamentos permaneceu disseminado entre pessoas que tiveram Covid-19, mesmo sem evidências científicas de eficácia contra a doença.

Estudo revela que 39% dos brasileiros usaram remédios sem eficácia contra a Covid-19
Em 2021, TCU afirmou que governo Bolsonaro foi omisso e cometeu “abuso de poder” na pandemia | Foto: Carolina Antunes/Fotos Públicas

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