Xico Sá publica diário gonzo sobre saga em busca do tesoureiro PC Farias
Redação Online
Publicado em 11 de setembro de 2026 às 21:43 | Atualizado há 49 minutos
Xico Sá faz jornalismo literário com sabor tropical em nova obra | Foto: Renato Parada
Marcus Vinícius Beck
A ressaca era monstruosa. No carro, o repórter Xico Sá pensou no jornalista gonzo Hunter S. Thompson: “Acredite em mim, não há nada como um trabalho bem-feito. Exceto a escuridão silenciosa e envolvente no fundo de uma garrafa de Jim Beam depois do trabalho bem-feito.”
Xico Sá deixou Presidente Prudente, no interior de São Paulo, e seguiu em direção à capital. Sofria com os efeitos colaterais daquele uísque sagrado dos operários da notícia, mas trazia a reportagem que revelaria, sem rodeios, o que seria o governo Fernando Collor de Mello.
Horas antes, conforme narra no livro “O Tesoureiro: O Esquema de Corrupção, a Fuga e a Morte de PC Farias”, publicado pela Todavia, Xico havia sido favorecido pelo acaso durante a “passagem” pelo Pop’s Drink, na cidade do extremo oeste paulista. O repórter repousou os cotovelos no recinto após cobrir a visita de Collor à região. Mas, de cara, ele desconfiou.
O jornalista lembra que a boate, a toda hora quente e festiva, estava um deserto. “Apenas duas ou três moças iniciantes dançavam, com muita timidez e nada de glamour, ‘Escapade’, de Janet Jackson”, descreve ele, entre a reportagem e a memória. “Logo um garçom, sempre as melhores fontes naturais do planeta, me contou o motivo daquele deserto na pista.”
Quase todas as garotas, conta Xico, tinham sido “recrutadas” para um encontro no hotel com políticos no Parque da Cidade. Na festa, descreve, centenas de contratos seriam assinados. O repórter, então na Folha de S. Paulo, decidiu que o melhor a se fazer seria hospedar-se onde rolava a farra, como Raoul Duke, o personagem-escriba de “Medo e Delírios em Las Vegas”.

‘Gritos & sussurros’
Segundo Xico, o hotel ferveu a noite inteira. “Gritos & sussurros”, explica. O jornalista, com o olhar do fotógrafo Henri Cartier-Bresson, sacou tudo: engravatados estavam ali. A música da dupla Leandro e Leonardo, “Pense em Mim”, ecoava pelos corredores. Quando as moças estavam mais ternas, relata o jornalista-escritor, Mariah Carey ressoava: “Love takes time…”
Estamos no início de 1990, mas voltemos para o prólogo, intitulado “Um Cadáver que Ainda Assombra o Brasil”. A epígrafe cita o escritor Raymond Chandler, indicando o tom da prosa: “Você acabou de mergulhar no sono eterno, sem se importar com a sordidez da sua morte.”
Encontrado sem vida ao lado de sua namorada, Suzana Marcolino, PC Farias foi tesoureiro da campanha de Collor à Presidência da República, em 1989. A jornalista Bia Abramo, no ICL, define aqueles tempos: “Deu as tintas daqueles anos iniciais da Nova República.” PC virou o pivô do esquema que tiraria Collor, o “caçador de marajás”, do Poder Executivo.
Até o impeachment, em 1992, PC Farias — ou Paulinho Gasolina — era um “gênio do rolo”. Nos anos 1960, perfila Xico, PC vendia carros usados em Alagoas. “Com suas costeletas à la Elvis Presley, óculos escuros, camisas de seda e cordões de ouro, andava no banco traseiro de Opalas, Galaxys e Mavericks, como se fosse o poderoso chefão do ramo automobilístico.”
Haja imaginação, Xico. “A ideia era demonstrar riqueza e ganhar prestígio na ‘classe A’ de Maceió, mesmo que tudo não passasse de encenação: os carrões eram emprestados e amigos topavam posar de motorista particular”, relata ele, no livro. Um mestre da mutreta, o PC.

Com estilo, Xico Sá narra esquemas da Nova República
No ICL, em texto publicado no início de agosto, a jornalista Bia Abramo diz ter duas formas de ler “O Tesoureiro: o Esquema de Corrupção, a Fuga Espetacular e a Morte de PC Farias”: a mais convencional, ela explica, seria tomar a obra por um livro-reportagem que narra, com rigor e estilo, a vida de PC Farias. A outra, para Bia, é mergulhar em uma aventura literária.
Tomemos, pois, a segunda opção — mais interessante. Xico Sá acompanhou os passos de PC Farias da campanha eleitoral de 1989 até a véspera da morte deste, em 1996. O repórter tinha desvendado alguns episódios da relação entre o tesoureiro e o ex-presidente Collor de Mello — uma sociedade que, para o autor, alimentava-se na fartura da elite empresarial brasileira.
Fica difícil não pensar no narrador de “O Cobrador”, conto do escritor Rubem Fonseca. Só rindo. Xico Sá brinca e traz a “O Tesoureiro” técnicas da literatura policial. Mostra a cara do Brasil e faz o leitor olhar para o presente. No capítulo “A Fuga”, por exemplo, o jornalista escreve que PC Farias lembrava da novela “Vale Tudo” quando o avião começou a subir.
“Na cena final”, conta Xico, “o empresário Marco Aurélio (personagem do ator Reginaldo Faria) dá uma ‘banana’ ao país ao fugir, em um jatinho particular, para o exterior”. Cazuza, ao fundo, solta a voz: “Brasil, qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim.”

Repórter-escritor
Como vemos pelas lentes do repórter-escritor, PC gastava o latim. Citou Nelson Rodrigues na CPI do Collorgate e, pasmem, empregou argumentos extraídos de textos do dramaturgo. Tudo isso para falar sobre hipocrisia. Em entrevista a Bia Abramo, Xico Sá disse que a maior dificuldade ao retomar esse personagem era fazê-lo manifestar uma “canalhice romântica”.
Xico sentia-se acossado. Sorria, um bocado nervoso, ao matutar acerca da cobrança — cadê PC Farias? O tesoureiro passou por Buenos Aires e Montevidéu, antes de surgir em Londres, onde se acharia longe do risco de ser sequestrado. A espiã Brigitte Montfort informou ao nosso Sherlock Holmes o destino inglês de PC. Tempos depois, o capo iria para Bangkok.
Antes disso, porém, o “detetive” chegou a correr perigo. Ele conta que, em seu pequeno apê na rua Frei Caneca, em São Paulo, teve seu telefone doméstico grampeado. “Não sabia se a escuta havia sido montada por um araponga da Polícia Federal ou algum político que havia sido alvo das minhas investigações sobre corrupção e financiamento de campanha eleitoral.”
Então, com todo o sarcasmo gonzo, Xico imagina o espião da PF ouvindo o músico Fred Zero Quatro e sua tentativa de explicar à imprensa paulistana sobre o Mundo Livre S/A. Talvez tivesse escutado, em primeira mão, uma ou outra faixa de “Da Lama ao Caos”, da Nação Zumbi, disco lançado logo depois. Medo & delírio em São Paulo. Que leitura boa.