Mostra gratuita na Cerrado Galeria reúne cinco décadas das criações de Di Cavalcanti
Redação Online
Publicado em 25 de setembro de 2026 às 21:13 | Atualizado há 1 hora
Óleo sobre a tela: 'Domingo na Praia', de 1947 | Foto: Cerrado Galeria
Marcus Vinícius Beck
Quando o artista plástico Emiliano Di Cavalcanti expuser suas telas na Galeria Cerrado, em Goiânia, a manhã deste sábado, dia 26, se revelará inesquecível. Ninguém, nem mesmo o maior habitué das vernissages, fica indiferente às cores, às formas e à sensualidade de Di. A curadoria é assinada por Divino Sobral, diretor artístico da Cerrado, localizada no Setor Sul.
“Di Cavalcanti: Lírico, Brasileiro, Modernista” reúne pinturas e desenhos criados entre 1925 e 1972, formando um arco temporal de cinco décadas que observa as transformações do mestre modernista. O artista ligou-se às diferentes vanguardas artísticas, em voga no seu tempo, e há temas recorrentes à sua produção — como, por exemplo, a cultura brasileira.
Sobral diz que a obra de Di foi construída em relação direta com o espaço que o cercava e com o período no qual vivia, época em que se forjou a identidade nacional. “Sobretudo, resultou da interpretação subjetiva que fazia do ambiente em que nasceu e viveu, o Rio de Janeiro”, assinala o crítico, lembrando das contradições sociais e econômicas da cidade.
Nascido em 1897, no Rio, o artista cresceu em uma família abolicionista — “outrora relativamente abastada”, segundo o sociólogo Fabio Mascaro Querido. Por toda a vida, Di experimentou o gosto da instabilidade financeira, dependendo de trabalhos esporádicos ou, até mesmo, da bondade do mecenas Paulo Prado, herdeiro da elite cafeeira de São Paulo.
Dimensões

Veem-se três dimensões: o homem à procura de justiça social, o flâneur em busca de brindes e ideias, o criador interessado por sua gente. A filha Elizabeth Cavalcanti, em depoimento ao jornalista e escritor Joel Silveira, conta que o pai era “incapaz de ficar com as mãos paradas”.
Os amigos o tinham por “diabolicamente inteligente” e “patologicamente sensível”. Na Rua do Catete, andava de um lado para o outro, farrista como sempre. A cultura alimentou-lhe os sentidos e, segundo diz no diário “Viagem da Minha Vida”, de 1955, foi “o vagabundo, o homem da madrugada, o amoroso de muitos amores”. Lia Sade, Cocteau e Rimbaud.
De acordo com Sobral, a trajetória de Di Cavalcanti atravessa a formação do modernismo brasileiro. É percebido como um dos articuladores da Semana de Arte Moderna de 1922, realizada no Theatro Municipal de São Paulo, “com um programa que pretendia atualizar as maneiras de fazer arte e, ao mesmo tempo, defender as características da cultura nacional”.
Entre 1922 e 1925, o brasileiro viveu em Paris, onde estavam naquela época os cubistas e fauvistas. Para Ernest Hemingway, outro morador ilustre da cidade, a capital francesa era uma festa — assim, inclusive, se chama o livro em que o autor rememora a sua temporada parisiense. Di conheceu Picasso e Matisse ali. Depois, no Brasil, iria reconectar-se aos seus.
Nacionalista e socialmente preocupado, atraía-se pelas manifestações populares, tal qual no quadro “Serenata”, de 1925. Na obra, essencial para o modernismo, pinta a cadência bonita do samba. Ao fundo, vestindo camisa azul, um homem dedilha seu violão, enquanto três mulheres estão a sentir os tons daquela música — cena que, aliás, era comum nos morros.

Militante
Di filiou-se, em 1928, ao Partido Comunista do Brasil (PCB). Além da ideologia, traz à sua pintura um uso mais atrativo da cor, em razão do contato que tivera com o expressionismo alemão. Algumas telas desse período, como “Cinco Moças de Guaratinguetá”, de 1930, têm formas curvilíneas e de tons quentes, tipo o vermelho, incorporado ao estilo cavalcantiniano.
A perspectiva marxista, na visão de Mascaro Querido, produziria efeitos sobre a obra de Di. Nem por isso, salienta o sociólogo, o engajamento no “Partidão” esteve isento de conflitos. O pesquisador, em texto publicado na Carta Capital, enfatiza que a direção do grupo político tinha uma “costumeira desconfiança em relação aos intelectuais”. A ruptura veio em 1937.
“Comunista, católico, moderno que jamais abandonou por completo a tradição, homem do povo, mas de estilo de vida perdulário, Di Cavalcanti se metamorfoseou em muitos ao longo da vida”, escreve Mascaro Querido, da Unicamp. “Sua obra e sua trajetória são, portanto, um testemunho único das contradições de um país à procura de seu prometido futuro.”
Chegou à maturidade criativa nos anos 1940. Na tela “Domingo na Praia”, de 1943, põe um homem negro, com chapéu, ao lado de uma mulher, de vestido vermelho. Ao fundo, a Baía de Guanabara emerge graciosa. Confere à cena um calor tropical, peculiar ao seu lirismo.
Com pesquisa acerca do modernismo, Sobral vê nessas paisagens exuberantes e ensolaradas algo comum à linguagem de Di — uma “farta cultura corporal e intensamente atravessada pela presença afrodiaspórica”. No entanto, o artista desiludiu-se com seus ideais quando viu a Segunda Guerra eclodir na Europa. Decepcionou-se. A transformação social nunca vinha.
Mesmo assim, captaria, em 1967, a expressão da mulher brasileira no quadro “Gabriela”. Morreu em 1976, aos 79 anos, no Rio de Janeiro. Pouca gente foi a seu velório e enterro. O cineasta Glauber Rocha o recuperou no doc “Di-Glauber”, de 1977. Esquecer é uma sina.
