A linda “Oração” que gerou confusão
DM Redação
Publicado em 13 de outubro de 2026 às 13:18 | Atualizado há 57 minutos
by Moacir de Melo
Como uma oração cantada em versos, que pede proteção divina, sabedoria, esperança, paz mundial, luz para os caminhos humanos e um mundo onde prevaleçam a fraternidade e o amor, pode provocar tanta controvérsia? Embora inspirada na religiosidade, sua mensagem não impõe doutrinas, não exige conversões nem condena outras crenças. É, acima de tudo, um apelo universal à paz.
Pois é, em 2002, uma escola pública no estado americano da Virgínia protagonizou um episódio que trouxe à discussão uma questão ainda atual: até onde pode ir a neutralidade religiosa do Estado sem comprometer a liberdade individual de manifestação da fé? Segundo relatos da época, duas estudantes escolheram para sua formatura de ensino médio a música The Prayer (A Oração), eternizada nas vozes da canadense Céline Dion e do tenor italiano Andrea Bocelli. Temendo questionamentos judiciais pelo conteúdo religioso, a direção escolar impediu sua apresentação.
Minha proposta, entretanto, não é discutir a legislação americana, mas refletir sobre a beleza e a profundidade da mensagem dessa composição. Afinal, o que poderia haver de ameaçador numa oração que pede inspiração divina, proteção diante das incertezas e esperança para a humanidade? Absolutamente nada! A poesia de The Player expressa o desejo de que a humanidade encontre sabedoria nos momentos difíceis, seja protegida em seus caminhos e possa viver num mundo sem violência, com justiça, esperança e fraternidade. Uma mensagem que ultrapassa fronteiras, idiomas e diferenças religiosas.
Mas a mensagem dessa oração permite ir além da questão religiosa. E aqui surge uma preocupação especialmente brasileira. Se uma canção que pede luz, sabedoria e paz pode despertar controvérsias, o que dizer de uma sociedade na qual divergências político-partidárias passaram a separar amigos, dividir famílias e transformar adversários em inimigos? O Brasil, cuja diversidade cultural e religiosa constitui uma de suas maiores riquezas, parece estar esquecendo uma lição elementar: pensar diferente não significa deixar de pertencer à mesma nação.

A polarização política tem enfraquecido o diálogo e comprometido nossa capacidade de construir soluções coletivas. E nenhuma democracia se fortalece quando o respeito às diferenças é substituído pela intolerância. Talvez esteja aí a grande atualidade de The Prayer que pede luz para que a humanidade não se perca na escuridão. Não será também dessa luz que precisamos para reencontrar os caminhos da convivência, da solidariedade e do entendimento nacional? Sim, não precisamos concordar em tudo, tampouco abandonar nossas convicções políticas. Precisamos apenas compreender que nenhum partido, governante ou ideologia pode ser maior que o Brasil.
Que essa belíssima oração nos inspire a recuperar a sabedoria de respeitar as diferenças, a coragem de superar ressentimentos e a esperança de construir um país onde a fraternidade prevaleça sobre as divisões. Afinal, antes de sermos de direita, de esquerda ou de centro, somos brasileiros. É hora de voltarmos a ser uma nação só. Chega de nós contra eles!
