À procura do vinho perfeito
DM Redação
Publicado em 20 de outubro de 2026 às 10:15 | Atualizado há 2 horas
By Moacir de Melo
Já se vão mais de 20 anos desde que assumi uma missão que tem me custado tempo, dinheiro e alguns pequenos sacrifícios: encontrar o vinho perfeito. Desde então, venho me dedicando a essa missão que considero bastante agradável. Nesta busca tive o privilégio de conhecer muitos amigos mundo afora, nas dezenas de países onde empreendi a busca onde, além dos monumentos, museus, paisagens e costumes, procurarei também exercitar minha missão e conhecer também os seus vinhos. E, em cada lugar, a mesma pergunta após o primeiro gole: será este o vinho perfeito? Sim, algumas vezes, a resposta parecia afirmativa.
Porém, no dia seguinte, diante de outra garrafa, outra safra, uma nova paisagem, um novo discurso, a dúvida retornava e a busca recomeçava. Com o tempo, descobri que o universo dos vinhos é muito mais complicado do que imaginava. Afinal, existem especialistas capazes de identificar a origem, a uva e até a safra de um vinho apenas pelo aroma. Outros falam em notas de frutas vermelhas, couro, tabaco, baunilha, madeira de mais ou de menos e, até cheiro de chulé. Confesso que, em algumas ocasiões, consegui perceber alguns destes aromas menos o que procurava: o vinho perfeito.
Por isso nunca me atrevi a descrever qualquer vinho. Porém, verifiquei que preço e qualidade nem sempre caminham juntos. Já bebi vinhos caros que pouco me emocionaram e outros, modestos, que me proporcionaram momentos inesquecíveis. Uma garrafa pode custar muito e não produzir a alegria que encontramos num vinho simples. Recordo-me de ocasiões em que o vinho era apenas um detalhe. O melhor mesmo era a mesa cercada de amigos, onde fluem conversas sem pressa, histórias repetidas engraçadas, risadas espontâneas e aquela sensação de que o tempo havia resolvido caminhar mais devagar.
Sim, nessas horas, ninguém quer saber da safra, pontuação, envelhecimento em barricas de carvalho: o importante é a companhia. E, curiosamente, o vinho parece sempre melhor. Comecei a compreender, então, que o vinho perfeito talvez não seja aquele com pontuação elevada por especialistas, mas o que acompanha os momentos que merecem ser lembrados e relembrados. Descobri que a bebida pode despertar os sentidos, mas são os amigos que dão significado à experiência. Um grande vinho, bebido na solidão, pode proporcionar prazer momentâneo; um vinho comum, compartilhado com amigos verdadeiros, pode proporcionar felicidade. E entre o prazer e a felicidade existe uma diferença que nenhuma classificação enológica consegue medir.
Porém, leitores, nada do que escrevi acima significa que tenha desistido da minha busca. Existem ainda muitos vinhedos a visitar, rótulos a descobrir, safras a comparar e, principalmente, amigos com quem brindar. Afinal, se o melhor vinho é aquele que bebemos com amigos, nada impede que continuemos procurando uma garrafa ainda melhor para compartilhar com eles. Portanto, seguirei viajando, degustando, pesquisando e fazendo experiências, sempre com o rigor que essa nobre causa exige. E assumo aqui, perante meus leitores, um compromisso solene: no dia em que encontrar o vinho perfeito, notificá-los-ei.
