“Reuse, recicle, recuse, repense”*
Redação DM
Publicado em 20 de dezembro de 2022 às 15:12 | Atualizado há 4 anosAssustada com a estratosférica produção de lixo plástico em minha modesta casa com duas pessoas e duas cachorras, considerando o baixo consumo, vejo ser urgente mudar os hábitos.
Há dez anos passamos a usar sacolas retornáveis, praticamente em todas as compras. Levar as sacolas não era problema. Há três anos veio a pandemia de covid-19 e a neurose com a contaminação fez com que o consumo de plásticos fosse aumentado. Não sabíamos como desinfetar as sacolas de pano, e voltamos a eles.
O nada saber sobre a doença nos deixou vendo o inimigo em todos os lugares. Se hoje estamos marcados pela covid, que dividiu a história em antes e depois dela, pior estávamos antes da vacina. Semiprotegidos, graças a ciência, estamos vivos e volto no tempo em relação à industrialização discreta na vida de pessoas comuns de algumas décadas atrás.
Aos três anos, entre as minhas mais remotas lembranças, estou brincando com uma vizinha na garagem da minha casa na Avenida Ovídio de Abreu, então sem pavimentação. Enchíamos de água uma bisnaguinha vazia, que antes condicionava remédio de desentupir nariz e, apertando-a, riscávamos desenhos primários no cimento. Mais tarde, medidores de leite em pó serviam de panelinhas. Isso nos distraia por um bom tempo. Que criança se interessaria por isso, hoje?
Havia um varejão do governo no qual eram vendidos gêneros alimentícios. Usava-se saco de papel pardo e grosso para embalar bolacha a granel, farinha, arroz, feijão. O macarrão vinha em pacotes de papel grosso. Óleo e goiabada eram comprados em latas. Tudo era mais simples, com embalagens reutilizáveis e sustentáveis.
No mercado a rapadura, batida Santo Antônio e panã eram vendidos envoltos em palha de bananeira, e os ovos eram embrulhados um a um em palha de milho, pacientemente amarrada. Temperos em pó eram medidos com uma colher e embrulhados em papel. Era comum levar papel de pão ou jornal dentro das sacolas de lona ou cesta de taquara. Alguns carregavam latas de flandres com tampa para trazer os molhados, como favos de mel ou doce em calda. Laranja e banana eram contadas em dúzias e colocadas nuas no fundo da cesta. Sacos de pano podiam embalar farinha, arroz e feijão. Queijo e requeijão vinham em papel mais grosso, assim como carnes em geral. A maçã argentina chegava vestida de papel azul com cheiro adocicado de eterna lembrança.
O lixo de então, quase todo orgânico, era colocado numa lata de tinta reutilizada para lixeira, com um volume de vinte litros para uma grande família, coletado por um caminhão comum e seus trabalhadores sem proteção alguma. A lata de lixo cheia era colocada na porta da rua. O caminhão passava com um motorista, um funcionário dentro da carroceria e outro a pé. O homem do chão jogava a lixeira na carroceria, o de cima despejava e a devolvia. O do chão a recolocava próxima de onde havia sido retirada. Daí surgiu o termo vira-latas para desqualificar os cães abandonados.
Com o “progresso” chegaram em profusão isopor, saco plástico, garrafa pet, outros objetos de um uso só e as terríveis fraldas descartáveis, que demandam 600 anos para sumir, sendo seis mil unidades em dois anos, para cada criança.
Depois de emporcalharmos o mundo com lixo plástico, mesmo vendo o estrago que fizemos, continuamos a insistir nisso. Somos burros e não podemos culpar os porcos nem os burros por isso. Precisamos tentar reverter pelo menos parte disso. No caso, em lugar de mirarmos para frente, o correto é olharmos para trás, quando a civilização era menos industrializada, sendo possível produzir menos lixo.
*Chamada de consciência ecológica da Rede Globo.