Brasil

A histeria em toga e o transe de Platão

Redação DM

Publicado em 14 de junho de 2017 às 03:03 | Atualizado há 9 anos

“Quantos olhos você tem pra me falar, quantas bocas você diz a me olhar?” (Zé Ramalho)

 

A mercadoria tramada pelo consumo sem fim nem seletividade de um mundo moderno, mascara a felicidade adocicada na garganta amarga de um ser (des) humano profundamente infeliz. De acordo com BOFF “a escandalosa concentração de riqueza, nas mãos de 1% da humanidade, controla 80% de todos os fluxos financeiros, com bilhões de famélicos e marginalizados, um planeta Terra devastado e graves ameaças que pesam sobre o futuro da vida e da civilização. Quem pode ser feliz numa condição dessas?” (2017).

Para PLATÃO: “Enquanto os filósofos não forem reis nas cidades, ou aqueles que hoje denominamos reis e soberanos não forem verdadeira e seriamente filósofos, enquanto o poder político e a filosofia não convergirem num mesmo indivíduo, enquanto os muitos caracteres que atualmente perseguem um ou outro destes objetivos, de modo exclusivo, não forem impedidos de agir assim, não terão fim, meu caro Glauco, os males das cidades, nem, conforme julgo os do gênero humano, e jamais a cidade que nós descrevemos será edificada. Eis o que eu hesitava há muito em dizer, prevendo quanto estas palavras chocariam o senso comum. De fato, é difícil conceber que não haja felicidade possível de outra maneira, para o Estado e para os cidadãos” (2012, p. 153).

A cria humana de um Deus numinoso e inimaginável, fragilizada, corre atrás de si e do sonho, do vento e do nada que não cessa de soprar rumo ao Oriente. A tristeza prova que o corpo padece de febre terçã tatuada na alma do corpo perecível cuja felicidade é amante da tristeza. Há uma fuga dos acontecimentos inesperados, o curso torto e voraz dos rios dá conta de histórias inacabadas da gente pós-moderna mal-acabada a habitar casulos e laços afetivos de sisal. Conta Esopo que se a urtiga lhe fere as mãos, “é porque você a tocou de leve, da próxima vez, agarre-a com força, e ela não o machucará” (séc. VI a.C).

Na arena fria do mundo capitalista, midiático, ao Sul do Equador, dados oficiais apontam que quase 70% da população prisional brasileira retrata pessoas negras. Além disso, estudos revelam que o País mata cerca de 30 mil jovens por ano, sendo aproximadamente 80% negros (as), em 2002, 73% no total. Fora dos presídios a população corre atrás de emprego, vende o suor ao preço anêmico da ração minimizada a 14 milhões de desempregados que buscam explicação da sua condição de exclusão social, gêmea da miséria da razão, segundo COUTINHO (2012) “uma certa forma de ser social, ainda que embebida de alienação, e que contém contradições nas quais a experiência real vivida, a da socialização truncada pelo mercado, abre ou permite fissuras frente às formas de pensar o mundo dominante” (p. 190).

O encarceramento em massa e a chamada “crise” prisional no Brasil não são uma crise, mas projeto de controle e extermínio do povo negro e pobre sendo executado, há muito mais que 500 anos, desde o período colonial até a era de conquistas pós-Constituição de 1988, quando o Brasil passa a beber da “democracia racial”. Na utopia hobbesiana instalada na Corte, sendo o homem o lobo do homem, cuja liberdade sem limites, ou, o poder de maior participação na distribuição da riqueza socialmente produzida, representa a população periférica urbana um perigo ao outro. O lobby policialesco instalado nas Câmaras de Leis que propaga a ideia canibalesco-moderna e de exclusão social de que bastaria instaurar a sociedade civil, honesta, pagadora de impostos e vigiada pelo mercado instalado às raias do poder de fato, rompendo-se o estado de natureza, a partir da cessão da liberdade para o soberano, por meio de um contrato social, para que houvesse segurança de parte de uma burguesia assegurada a partir de sua própria prisão condominial, especulação da urbe pós-moderna a esconder quem pode daqueles que, em consequência do poder de consumo, podem menos.

Se a saída da ignorância histórica –Caverna de Platão – dá-se a partir da escola, segundo FREIRE “através de sua permanente ação transformadora da realidade objetiva, os homens, simultaneamente, criam a história e se fazem seres histórico-sociais” (1977, p. 108), há pouco, a notícia do dia avisava que cerca de 600 mil estudantes davam lustro à nota coletiva exposta no quadro acinzentado de ensino no Brasil. As pontas dos dedos que tocam, o tempo todo, o Smart Phone, dão conta dos devotos de “São Google”, autores das fantásticas redações do Enem cujo resultado foi a nota mínima.

Atalhos e cortes na receita destinada à pesquisa e educação têm base em retalhos de emendas que assopram o fogo da expansão neoliberal e terceirização do alcance de “novos direitos civis”. Inalcançáveis por sujeitos instalados no exército de reserva industrial, a emancipação financeira, a educação de qualidade, habitação decente, lazer que alimenta a saúde, balanço alimentar retratam a exclusão socioeconômica e intelectual, base da marginalização e discriminação–mercadoria e mercado.

A filosofia da práxis há tempos sucumbe aos auspícios da expropriação capitalista. Consequência imediata, a corrupção estruturada e estruturante, câncer da democracia brasileira perene, desigual e excludente, incapaz de tocar em frente dez medidas contra a corrupção, documento assinado por mais de dois milhões de brasileiros junto ao Ministério Público Federal (MPF) – instrumento fundamental no combate ao crime de colarinho-branco o qual, semana passada, deu conta ao mundo de um Brasil do samba e dos imperadores, movido a futebol e molejo da mulata, financiado a jogo do bicho, abençoado na hipocrisia histérica das beatas e virgens religiosas, que lava dinheiro a Bala, Bíblia e Boi da bancada BBB, que fomenta o transe da religião midiática abrigada no barroco, bem ao jeitinho de um povo feliz e bundão, alheio à crueza filosófico-existencial de Nietzsche que provoca: “Quanta verdade consigo eu suportar?” (1844-1900). O mesmo Brasil que “transitou de uma situação colonial para a independência por um ato de outorga política, mesmo que em certas regiões tenham ocorrido importantes combates para expulsar os portugueses” (GUIMARÃES, 2007, p. 25) e que, agora, luta para retirar da caverna, em Brasília, a matilha engravatada e de toga instalada aos olhos dos eleitores e de Platão.

E o pulso, ainda pulsa!

 

(Antônio Lopes, escritor, filósofo, mestre em Serviço Social/doutorando em Ciências da Religião/PUC-Goiás, mestrando em Direitos Humanos/UFG)


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