Brasil

Canções Ítalo-Brasileiras

Redação DM

Publicado em 9 de dezembro de 2015 às 22:57 | Atualizado há 11 anos

Este texto é para os amantes da música clássico-romântica. Proibido para os que já ouvem canções italianas na versão caipira, hoje em moda no Brasil. Falaremos de versão e não de tradução. Um caso é manter uma composição musical com a mesma melodia, adaptada a outra letra, outro caso é a repetição da composição original em outra língua. Às vezes a tradução fica pior do que a versão. No presente enfoque nos limitaremos ao sentido poético, e não faremos juízo de valor estético das composições a serem focalizadas.

Houve um tempo de reinado da língua francesa no meio das elites e no mundo diplomático. Os poderes de expressão da língua francesa, de certa forma foram transferidos para a língua italiana no campo musical. Conta-se que Napoleão Bonaparte costumava dizer que para fazer diplomacia, falava francês, para cultivar a musicalidade, falava italiano e para conversar com seus cavalos, falava inglês.

Não é preciso ressalvar-se que o inglês superou o francês como língua negocial e que o italiano se sobrepõe ao francês e ao inglês como língua musical, sendo por isso veículo de difusão das mais belas canções românticas e de expressão universal das mais belas vozes ao estilo do “bel canto”.

Uma herança direta da tradição musical italiana constata-se no Brasil desde os tempos imperiais. Vale lembrar que o imperador Dom Pedro II agraciou como uma bolsa de estudo nosso compositor Carlos Gomes que estagiou na Itália de 1864 a 1866, especializando-se com o maestro Lauro Rossi. Nesse período iniciou a composição da ópera “Il guarany” baseada no romance de igual título, de José de Alencar e estreada no teatro La Scala de Milão em 1870.

Os sucessivos retornos de Carlos Gomes à Itália, onde compôs e lançou várias outras obras, credenciaram-no como nosso embaixador musical, que abriu caminho para futuros adeptos da corrente musical italianista, mais tarde renegada pelos seguidores wagnerianos. Vale notar que mesmo depois da bossa nova, com destaque para Vinícius de Morais, intensificou-se o intercâmbio musical entre o Brasil e a Itália, como forma de expressão de nosso espírito latino rico de lirismo e criatividade.

 

Versões brasileiras

Não vem ao caso discriminar aqui o legado lítero-musical da Itália, que se estende também a outros setores da criação artística brasileira. Algumas canções italianas que mais se popularizaram no Brasil, no sentido de influenciar a formação do nosso gosto musical, ganharam fama em nova versão com letra brasileira, conforme demonstraremos logo adiante.

Dentre essas versões destaquemos, a título de ilustração, “Tristezze” (original italiano de Chopin), interpretada em ritmo lento por Giacobetti-Otto, e “Core’ngrato”, de Cardillo-Cordiferro, lembrando ainda a conhecida composição Minas Gerais, já em processo de folclorização, que é adaptação de tradicional canção napolitana. Despiciendo reproduzir aqui as mencionadas letras, com respectiva grafia musical, que hoje se encontram disponíveis no repertório online.

Mas para reativar a frágil memória brasileira, vale lembrar que os jovens de sucessivas gerações que chegaram até as décadas de 1950/1960, ainda em tempos colegiais, ensaiavam apresentações para o dia da Independência do Brasil, cantando, com a melodia emprestada de “Torna a Surriento”, versos de inspiração patriótica, como do seguinte recorte de um hino adaptado em ritmo de marcha: “Salve 7 de setembro, / data gloriosa e bela. / Quanto amor, quanta nobreza, / que iniciativa aquela. / E uma pátria florescente / sob o abrigo do Cruzeiro, / surgiu bela e sorridente: / a do povo brasileiro.” Certamente o caro leitor não encontrará na nossa memória virtual essa versão brasileira, mas basta puxar a mencionada melodia italiana e adaptá-la ao ritmo métrico dos versos supracitados. Era assim que cantávamos nas escolas.

Em tempos carnavalescos, era comum ouvirmos também a melodia “Dove stà Zazà”, do cancioneiro popular italiano, em versão brasileira simplificada, do tipo: “Cadê Zazá? Cadê Zazá? / Saíu dizendo por aí: eu volto já. / Mas não voltou, por que? por que será? / Cadê Zazá? Cadê Zazá?” De outra parte, assim como os portugueses vieram a conhecer o fado no Brasil, que transportaram para Portugal ainda em tempos coloniais, as novas gerações de cantores italianos vieram a conhecer o cancioneiro popular italiano nesta terra descoberta por Pedro Álvares Cabral, que ainda guarda a alma romântica da pátria de Gabriele D’Annunzio.

Só para alimentar por um momento os corações nostálgicos, invocamos aqui as citadas melodias de “Core’ngrato” (Coração Ingrato) e “Tristezze” (sob o título brasileiro Adeus Amor), cujas versões em português encontram-se em “Saudade seresteira”, de Urbano Reis, apud Alexandre Pimenta (vol. 1, Belo Horizonte: LEMI, 1989), sugerindo, a quem interessar possa, desenvolver uma leitura comparada dessas composições ítalo-brasileiras.

O romantismo como estilo de época, passou. Mas os românticos continuam redivivos. Quando se ouve um Pavarotti interpretando, por exemplo, Core’ngrato no mais alto nível do bel canto, sente-se a elevação do mais sublime sentimento poético que se apossa da alma humana.

(Este artigo, revisado pelo autor, foi originalmente publicado no livro Itália Mater, de Emílio Vieira, Goiânia: Kelps, 2012, p. 59 a 64).

 

(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa – E-mail: [email protected])

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia