Brasil

Estranhas catedrais

Redação DM

Publicado em 29 de dezembro de 2015 às 22:27 | Atualizado há 10 anos

Chico canta o Brasil. Este país prazeroso e pervertido está presente em todas as composições de Chico Buarque de Holanda. Ele, Chico, canta da terra pisada por lavradores errantes aos dramas de “guris” deixados à própria sorte; dos amores perdidos às rupturas afetivas. Canta da política, do Estado, dos medos, da repressão e da tortura ao mundo sempre fervilhante.

Conta o igualmente cantor e compositor Osvaldo Montenegro que Chico é o principal escritor desse imenso almanaque chamado Brasil. Mas de verdade, cantar amores, dramas sociais e lástimas emocionais não torna Chico Buarque o principal nome da cultura musical brasileira.

O que efetivamente, irá tornar este homem tímido e de olhos claros em um dos principais vultos do cancioneiro brasileiro e latino-americano é a forma como torna o tempo sua principal matéria-prima e o enreda em suas construções poéticas.

Ou entendemos o tempo ou tempos de Chico Buarque ou não compreenderemos a lógica de seu lirismo provocativo, intimista e que transversaliza a política, a cultura e as formas de ser do homem/mulher brasileiros. Não estou falando desse tempo “de relógio”, falo do tempo como uma feitura social e política eivada de impressões e percepções. O próprio movimento político predominante, evidentemente, construído pelas forças sociais e econômicas e que não cansam de nos “inventar ou reinventar”.

O talento de Chico está em mesclar o cotidiano, essa pletora caótica de contradições e descontinuidades em algo compreensível e fundado naquilo que nós, a estranha gente brasileira destes “tristes trópicos” simplesmente, não dispensamos: o gozo!

Se a política real nos mata, Chico nos alumbra o caminho revelando o que somos ou deixamos de ser. Chico é o que é porque entende a história, talvez influência do seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda.

O episódio recentemente apetecido no Rio de Janeiro onde um “não-sei-quem” partiu para cima de Chico hostilizando-o em nome e serviço do fascismo tupiniquim que tomou conta da política nacional pode ser explicado facilmente pelas próprias composições de Chico.

Composições como “Cálice” (1973) ou “Vai trabalhar, vagabundo” (1976) explicam muito bem esse tipo de, digamos, “fenômeno” político sempre tão presente na acidentada história política nacional. O que, de fato, não poderia ser diferente, afinal, com uma economia afundada na crise a partir da concentração da renda, da precarização do trabalho e da apropriação do Estado, os resultados não poderiam, de fato, ser outros.

Chico Buarque é o tempo, nosso tempo, o que melhor vocaliza as dores de ser e estar em um tempo de país que permite que o ódio seja parte ativa da vida política nacional.

Chico? Chico canta esse tempo com precisão, delicadeza e muita brasilidade. Esta é a sua grandeza e nossa fortuna.

 

(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando em Geografia Humana (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia