Filme de Elize Matsunaga: ela agiu ou reagiu assim?
DM Online
Publicado em 28 de julho de 2026 às 12:46 | Atualizado há 9 minutos
Catorze anos depois do crime que chocou o Brasil, a Netflix devolve Elize Matsunaga ao centro do debate público. O assassinato do empresário Marcos Kitano Matsunaga entrou para a história criminal brasileira pela violência do crime e pela enorme repercussão pública, e catorze anos depois o caso volta ao centro das atenções com a estreia de “Elize: Sombras de Uma Mulher”, longa-metragem estrelado por Lorena Comparato e lançado em 22 de julho de 2026.
Diferente do documentário “Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime”, de 2021, que reunia depoimentos reais, incluindo o da própria condenada, o novo filme dramatiza a trajetória de Elize desde antes do relacionamento com o empresário até o assassinato ocorrido em 2012, e embora seja inspirado em fatos reais, também cria situações fictícias para construir a narrativa. É essa escolha de ficcionalizar um crime real que abre espaço para a pergunta que dá título a esta resenha: no filme, Elize age ou reage?
Uma pergunta como método
A produção não esconde essa intenção. Segundo o produtor associado do longa, o objetivo era contar uma história que também fizesse refletir, trazendo a violência como discussão sobre o que levou Elize a um ato tão brutal. Já a roteirista do filme resume o tom da obra ao afirmar que se trata de uma história identificável em alguns aspectos, mas com o pior desfecho possível.
Essa moldura narrativa é o principal risco e também a principal virtude do filme. Ao insistir em mostrar o relacionamento excêntrico e turbulento entre Elize e Marcos (vivido por Henrique Kimura), sob direção de Felipe Vellas, a obra caminha por uma linha tênue: explicar não é o mesmo que justificar. Uma dramatização que se aproxima demais do ponto de vista da protagonista corre o risco de transformar um feminicídio brutal, já que o marido foi morto a tiros e depois esquartejado, em uma história de vingança quase compreensível. Uma dramatização excessivamente distante, por outro lado, perde a chance de investigar o que há de humano (e perigoso) na escalada de um relacionamento tóxico até a violência extrema.
O que o filme parece ter acertado
Pelo que indicam as primeiras coberturas, “Elize: Sombras de Uma Mulher” não tenta absolver a protagonista. A proposta declarada é reconstituir “o que pode ter sido a história”, termos da própria atriz Lorena Comparato, misturando fatos documentados a cenas inventadas para preencher lacunas que nem o processo, nem a própria Elize, esclareceram totalmente.
Essa é uma escolha honesta em um gênero (o true crime dramatizado) que costuma pecar por excesso de certeza. Ao assumir abertamente que parte da trama é ficção, o filme evita a armadilha de apresentar como fato aquilo que é, na melhor das hipóteses, interpretação.
O ponto cego: agiu ou reagiu?
É aqui que a resenha quer parar e pensar com o leitor, não apenas descrever o filme.
A tese de que Elize “reagiu” a anos de humilhação, traição e um casamento tóxico é sedutora porque simplifica: transforma uma mulher que planejou e executou um assassinato em vítima de circunstância. É a leitura que aparece, inclusive, em comentários de espectadores do documentário de 2021, para quem a traição teria feito a personagem “perder a cabeça”.
Mas essa leitura tem um problema factual: entre o momento do disparo e o esquartejamento do corpo há decisões, não apenas impulso. Esconder o corpo, negar o crime publicamente, movimentar-se para dificultar a investigação: isso não é reação instantânea, é gestão de consequências. O próprio processo penal reconheceu a complexidade do caso. Elize foi condenada, mas teve a pena reduzida em 2019 por ter confessado o crime, e obteve liberdade condicional em 2022, o que sugere que a Justiça também não a tratou como um caso simples de fúria pontual, nem como frieza calculada sem atenuantes.
O mais honesto talvez seja resistir à dicotomia do título. “Agiu ou reagiu” pressupõe que só existem essas duas categorias, impulso puro ou premeditação fria, quando a experiência real de violência doméstica, traição e colapso emocional quase sempre mistura as duas coisas. O filme, ao que tudo indica, tenta habitar exatamente esse território incômodo, em vez de escolher um lado.
Vale assistir?
Como exercício de reflexão sobre violência de gênero, ciúme, traição e os limites entre vítima e algoz, “Elize: Sombras de Uma Mulher” cumpre o papel de provocar a pergunta, mesmo que não ofereça uma resposta fechada, e talvez seja exatamente esse o ponto. Quem busca um veredito estará mais bem servido pelo documentário de 2021, que traz a própria Elize falando por si. Quem busca entender como uma história assim pôde acontecer, passo a passo, encontra no novo filme um retrato mais visceral, ainda que necessariamente parcial, dos dias que antecederam a tragédia.