Brasil

Homenagem ao sofrido magistério

Redação DM

Publicado em 20 de outubro de 2015 às 00:33 | Atualizado há 11 anos

Dizem que as manifestações ocorridas em todo Brasil em junho de 2013 se constituíram em um ‘marco’ para a história.

Foi bom que os brasileiros tenham se manifestado no sentido de demonstrar o seu repúdio aos atos de corrupção praticados principalmente em estatais como a Petrobrás, dizendo com isso que desejavam mudança. Pelo menos foi esta a minha leitura, mas na realidade, esta ‘mudança’ tão pregada pelo eleitor ficou apenas no campo do ‘desejável’, já que as eleições de 2015 demonstraram que na realidade os brasileiros quiseram mesmo ‘tudo como dantes no quartel de Abrantes’.

O saldo positivo dos protestos foi que sociedade brasileira provou que é articulada, que pode se mobilizar e que as redes sociais são uma força real de articulação e engajamento.

A população disse a que veio, já que houveram questionamentos a respeito das políticas públicas, vez que estas ganharam mais visibilidade. Por outro lado, tudo foi muito genérico, e por isso talvez tenha sido igualmente tão inconsistente.

Mas esta não é uma característica da massa governada.

Os detentores do poder no Brasil também demonstram uma inconsistência de ações impressionante.

Assim com o povo brasileiro demonstra uma abstração de vontades, os governantes agem de forma absolutamente abstrata.

O que existe na política brasileira é uma disputa entre diferentes grupos que se revezam no poder.

Atualmente, o Estado de Goiás está dividido em três grupos: o de Marconi Perillo, o de Iris Rezende e o de Ronaldo Caiado.

Politicamente falando, nosso Estado vive em função desses grupos.

Tudo se resume a um único quesito: a que grupo eu pertenço?

Nenhum desses homens públicos possui um projeto consistente de desenvolvimento de políticas públicas.

Os projetos são todos pessoais. Não fosse assim, eles não seriam donos de grandes fortunas, como sabemos que são.

Na realidade, o povo está perdido, os protestos não tiveram uma pauta consistente, tanto que ‘políticas públicas’ não estão sendo discutidas. Aliás, elas nem existem.

O que existe é a prática do estelionato eleitoral, que acabou garantindo aos governantes sua reeleição, prática esta consolidada em todo Brasil.

Às vésperas das eleições, houve uma expectativa de desenvolvimento que se perdeu após as mesmas.

A verdade é que passadas as eleições, o Estado não se responsabiliza por nada.

Há anos a questão da educação não faz parte da pauta das políticas democráticas de nosso P.

Hoje educação é um problema complexo, que não se resume à relação aluno x professor.

A ascensão da esquerda brasileira ao poder trouxe consigo a obrigação de retribuição ao narcotráfico pela ajuda financeira que garantiu a consolidação deste grupo no poder, embora isto não esteja provado.

É onde eu queria chegar: o problema da educação se tornou complexo e não se atém às questões como plano de carreira, à infra-estrutura das escolas ou qual o material didático a ser adotado.

Tanto alunos como professores são vítimas desta nova realidade que esbarra na força do narco-tráfico.

As escolas estão sitiadas por traficantes, o que limita o poder de ação dos professores, coordenadores ou diretores.

Todos os meses, vários jovens tem sido executados na portas das escolas goianas, tanto quando eles chegam para estudar como no término do horário de aulas.

Conheço um jovem, a quem consegui uma vaga em uma escola pública da capital junto à professora Raquel Teixeira, secretária da Educação, que começou a freqüentar as aulas e teve que abandonar os estudos. Na condição de jovem marginalizado e criminoso em recuperação, às portas com o crime organizado e dele tentando se desvincular, ao freqüentar uma escola pública da capital, vislumbrou tudo com os olhos da realidade, sem máscaras ou engano inocente: ali dentro, reconheceu comparsas e inimigos do tráfico, cruzou com líderes traficantes de várias facções e reconheceu policiais militares pertencentes à grupos de extermínio, que entravam nas salas de aulas e cobravam dos alunos conduta ilibada.

Então, teve medo de morrer.

Abandonou os estudos após uma tentativa que durou apenas dois de frequência escolar.

Jovem pobre, sem nenhuma condição de pagar estudos em uma escola particular para se desvincular daquele ambiente, irá se somar aos iletrados deste país. Sua capacidade intelectual será limitada, e se somará há mais um dos pertencentes à massa de manobra.

Os alunos estão entregues à drogadição e o Estado Brasileiro dá a causa como perdida. Tanto que o Judiciário está prestes a liberar o uso das drogas no Brasil. Já há decisões neste sentido, o que demonstra que também o Poder Judiciário, outrora tão respeitado, está perdido e já não é mais um Poder Controlador, tamanha as incoerências refletidas em incongruências do Estado brasileiro.

Do ponto de vista físico, as escolas estão sucateadas, os alunos estudam em carteiras quebradas, as salas não possuem ar condicionado, o que neste calor, seria item indispensável para o conforto do estudante, ou você acha que estudantes não merecem nenhum conforto?

Neste último 15 de outubro, quando foi comemorado o Dia do Professor em todo Brasil, fica aqui minha homenagem não só aos professores, mas também aos alunos, que são heróis, porque até chegarem ao ponto de se sentarem em uma carteira dentro da sala de aula, já venceram tantos obstáculos quantos podemos conjecturar.

O Governo de Goiás, quando o assunto é ‘educação’, está diante de um problema complexo, que não se limita aos salários dos professores ou à falta de infraestrutura das escolas. É muito mais abrangente e difícil de resolver, pois envolve problemas de segurança pública, combate ao tráfico de drogas e métodos para um resultado eficiente de aprendizagem em meio ao caos instalado.

Se o professor enfrenta todos esses dilemas, o aluno também.

Passo a relatar agora uma abordagem real de um garoto de 14 anos à sua professora aqui em Goiânia, por ocasião do dia dos professores, através dos seguintes questionamentos e afirmações:

“Professora, o que é honestidade? O que é ética?

Nossa presidente está sob a ameaça de ‘impeachment’.

O presidente da Câmara dos Deputados está sob ameaça de cassação.

O Governo de Goiás foi chamado inúmeras vezes à responsabilidade pelo Ministério Público e nada aconteceu.

O prefeito de Goiânia executa obras superfaturadas.

Nossas carteiras estão quebradas, não temos ar-condicionado nas salas de aula, não temos computadores, e os professores trabalham como se estivessem na idade da pedra.

A senhora vive na ilusão de ser respeitada pelos livros que leu? Todos param para ouvir os iletrados que dirigem este País, tirando a oportunidade da senhora ou de qualquer um que estudou de ser respeitada pela cultura que adquiriu.

Não há futuro para mim. Quando eu crescer, tudo vai ser igual.

O sistema atual não me dará a oportunidade de ser diferente.

Eu estudo, sou filho de um homem e de uma mulher honesta, e vou acabar como a senhora (se referindo ao sistema opressor).

Apesar de tudo, eu agradeço à senhora pelo estímulo à leitura, porque, quando eu leio um livro, esqueço do mundo em que vivo.

Eu não lhe darei um abraço pelo Dia do Professor. A srª não merece isso.”

Assim como essa criança, eu não vou abraçar os professores por ocasião da comemoração do seu dia.

Finalmente, vivemos a hegemonia da ‘utopia da igualdade’.

Por politicagem, os discursos são socialistas, mas o que há é a continuidade de uma prática neo-liberal, inaugurada por Fernando Henrique Cardoso.

Apesar do brasileiro estar vivendo uma era de desilusão e depressão, eu não me rendo.

E você?

 

(Silvana Marta de Paula Silva, advogada e escritora – Twitter:@silvanamarta15 / Portal opiniaogoias.com.br)

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