Não existe progresso
Redação DM
Publicado em 11 de dezembro de 2015 às 23:23 | Atualizado há 1 ano“Como explicar o fato de que em nossa terra a pessoa mais progressista seja um bispo da Igreja Católica”?, pergunto ao bispo Dom Thomas Balduíno, durante o Tribunal da Dívida Externa, organizado por diversas entidades, Teatro João Caetano, Praça Tiradentes, Rio de Janeiro, 1999. Ele abre aquele sorriso iluminado e não responde. Ou melhor, sem palavras, deu a melhor resposta. Não é preciso mau humor para questionar, exercer o espírito crítico, contestar ou protestar.
Andando pelas ruas de New York em meio ao frio de novembro, tentava entender cidade onde símbolo de status é ter varanda no último andar dos arranha-céus. Encontro meus eixos entre Broadway, Central Park, Public Library e Igreja de Saint Patrick. Musicais, natureza resistindo, conhecimento, humanismo. E na Catedral… a novidade. Um reencontro com as origens de quem estudou no Grupo Escolar Nossa Senhora das Graças e morou atrás da igreja de mesmo nome, na Vila Operária.
No filme “Celebridades” (1994), Woody Allen entrevista o magnata Donald Trump, sobre quais seus projetos futuros. Ele responde: “Comprar a Catedral Saint Patrick e construir um novo arranha-céu em seu lugar.” O genial cineasta satirizava em poucos minutos o espírito empreendedor mas destruidor e sem limites do capitalismo selvagem. Seja no centro mais urbano, seja nos lugares mais remotos.
Quem já foi hippie, palestino, punk fora de época, crente, espírita, ateu, mormon, judeu, lembra então que havia começa a vida como católico, batizado, batizando e seguindo todo o ritual da igreja. E dentro da Igreja, em reforma, falo às paredes como um profeta bem humorado: “Capital do capitalismo, você pode ser grande, mas a fé é mais antiga, forte e eterna!” Saint Patrick estava lá ainda, em reforma para ficar mais bonita, enquanto o bilionário Trump é rejeitado hoje até pelos mais conservadores dos norte-americanos, diante de suas desastrosas frases racistas e preconceituosas.
Em – A origem dos meus sonhos – escrito ainda nos anos 90, Barack Obama lembra sua participação no movimento que denunciava malefícios provocados pelo amianto, problema identificado e enfrentado também na Europa. No Brasil ainda existem desesperados órfãos da industrialização que preferem acreditar que, neste caso, existe conspiração internacional para boicotar a economia regional de uma terra que perdeu o bonde das diversas revoluções industriais.
A terra do pau-Brasil continua a ser refém de economia extrativista ou do chamado agro-negócio, que produz mais problemas do que soluções, não apenas para a economia mas para o ecossistema.
Não existe lógica no progresso se ele não for sinônimo de vida melhor para toda a cadeia de vida inserida no processo. Não pode haver desenvolvimento se ele provoca mais morte e tragédia do que efeitos positivos. Se ele se afirma sobre a exploração, a opressão e o crime.

Quando o mundo encontra-se em Paris para a Conferência do Clima, a maior surpresa é descobrir que foi preciso aparecer uma irmã dominicana para manifestar em nome do povo brasileiro e de todos os povos, cujos maiores patrimônios, seus recursos naturais, são ainda usados por países ricos sem o devido respeito à natureza.
A Conferência do Clima aconteceu em meio à um cataclismo, produzido pelos atentados terroristas. As delegações oficiais estavam gélidas como calotas de gelo. Brasileiros pareciam bonecos de neve empurrados pelo vento frio.
Deus, o Vaticano, a Igreja Católica, o mundo, a vida, os povos não poderiam ter escolhido melhor porta-voz para enviar à COP 21. Mineira de Montes Claros (MG), religiosa da Congregação das Irmãs Dominicanas da Anunciata, Ana Celestina, ou simplesmente Tina. Atualmente promotora internacional de Justiça, Paz, Integridade da Criação. JPIC pelas Irmãs Dominicanas no mundo, 149 congregações presentes em 21 países.
Estamos presentes em Minas (Belo Horizonte, Montes Claros, Francisco Sá e em Governador Valadares a cidade que era abastecida pelo Rio Doce quase 300 mil habitantes ), também estamos no Acre – na Transacreana.
Nossa missão é a educação, a formação de lideranças, catequese, centros comunitários , atendendo crianças através da educação infantil, adolescentes – projetos sociais educação alternativa complementar ao ensino escolar. Promoção da mulher através de trabalhos manuais, juventude nas paróquias. Escola de Música Rosa Font Fuster, com mais de 100 alunos, uma orquestra com alunos da periferia de Belo Horizonte.
Celestina mora em Roma e participou da COP 21 como representante da sociedade civil, trazendo aqui sua voz, fazendo suas as palavras da Repam – Rede Eclesial Panamazonia, a qual integra.
Sobre a tragédia do Rio Doce, a voz do povo é, como nunca, a voz de Deus :
“Não podemos aceitar que um acidente dessas proporções venha a ser considerado simplesmente uma oportunidade de aprendizado para evitar novos desastres no futuro.” Papa Francisco, em sua mensagem aos atingidos por mineração de diversas partes do mundo, reunidos no Vaticano, em julho desse ano, comentava:
“Que se escute o grito de muitas pessoas, famílias e comunidades que sofrem direta ou indiretamente, as consequências muitas vezes negativas das atividades de mineração. Um grito pelas terras perdidas; um grito pela extração das riquezas do solo que, paradoxalmente, não produz nenhuma riqueza para a população local que permanece pobre.
Um grito de dor em reação às violências, às ameaças e à corrupção; um grito de indignação e de ajuda pelas violações dos direitos humanos, de forma discreta ou descaradamente pisoteados no que diz respeito à saúde das pessoas, condições de trabalho, às vezes pela escravidão e tráfico de seres humanos, que alimenta o fenômeno trágico da prostituição. Um grito de tristeza e de impotência pela poluição da água, do ar e do solo.”
“Não podemos permitir que esse desastre venha a ser arquivado como um acidente ambiental ou se resolva simplesmente com um acordo econômico que alivie a responsabilidade das empresas Vale S.A. e BHP Billiton”, diz a religiosa.
Como explicar o fato de que a voz mais expressiva, coerente e eficiente na COP 21, em meio às centenas de participantes do Brasil (presidenta, ministros, entidades, cientistas, técnicos) tenha sido justamente irmã Tina?
Além do papel de embrulho que transformou em vestido, com uma frase de protesto, ela simplesmente carregou, por onde andava (e se manifestava), a verdade na alma, a realidade nas palavras, e o sorriso no rosto.
(W. Tede Silva, presidente do Caici – Institut International Culture Castro Alves)